Ibovespa é cotado a múltiplos de 2008. O Brasil ainda vale a pena?

O Ibovespa está cotado ao menor múltiplo desde a crise financeira de 2008. Entre riscos e oportunidades, os investidores se dividem

Os mercados financeiros sangram na tarde desta sexta. Com a notícia de que a variante africana B.1.1.529, o Ibovespa tomba quase 4%.

Foto: Freepik

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Está ficando repetitivo. Ontem, o Ibovespa fechou o pregão em sua mínima do ano, aos 102.426 pontos, no quarto dia consecutivo de queda. Até o fim da última sessão, o desempenho do índice era negativo em cerca de 14% no acumulado de 2021. 

E o pior de tudo: o Brasil está perdendo o bonde. O mercado internacional está renovando máximas históricas, sobretudo nos Estados Unidos. O S&P 500 sobe 27% desde janeiro, deixando o Ibovespa bem para trás. 

O maior índice acionário brasileiro, banhado a commodities, tinha tudo para despontar neste ano.

Com o real desvalorizado e as matérias-primas em alto patamar – vide o crescimento da inflação em todo o mundo –, as empresas deveriam estar se beneficiando e, consequentemente, o mercado precificando este cenário.

Mas não é o que está acontecendo. Atualmente, o Ibovespa negocia a um múltiplo preço/lucro na casa de seis vezes, sendo em que janeiro negociava a cerca de 21 vezes. 

O último momento em que a relação entre a cotação das empresas do Ibovespa e seu lucro dos 12 meses anteriores esteve tão baixo foi em outubro de 2008, em meio ao furacão da crise do subprime

Oportunidades estão cristalinas, embora (grandes) riscos estejam na pauta. 

Comparação entre o Ibovespa e o IVVB11, ETF que replica o S&P 500, nos últimos 12 meses

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

A suposta dicotomia entre a responsabilidade social e fiscal

Anos atrás, um dos maiores temores sobre o Brasil estava ligado ao risco País. Neste sentido, um dos melhores indicadores de risco de crédito ante o mercado internacional é o Credit Default Swap (CDS).

Embora voláteis nos últimos meses, esses contratos não são as principais preocupações do momento. O Brasil precisa lidar com seus fantasmas internos.

Como o ex-ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse uma vez, o nosso país é um lugar onde até o passado é incerto. Neste ano, a conta dos precatórios — que são dívidas estatais sobre prejuízos antigos, em processos que correm na Justiça — tomou a atenção dos investidores.

A dificuldade de encontrar uma saída para todas as contas do ano que vem, como novos auxílios sociais, fez o governo procurar maneiras de ampliar o espaço disponível dentro do teto de gastos.

A PEC dos Precatórios, que muda a regra fiscal, procura liberar espaço para cerca de R$ 90 bilhões em despesas, parcelando as dívidas judiciais e alterando a forma de correção do limite de gastos do governo.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que as medidas eram necessárias para viabilizar o auxílio de R$ 400 mensais às famílias mais pobres e pediu ao mercado um waiver (desculpas por não cumprir uma meta).

O tradicional agito dos bastidores de Brasília tem pesado sobre o Ibovespa. 

Os juros e as contas públicas

Com a quebra do teto de gastos, que era visto como uma âncora das despesas públicas desde sua instituição, em 2016, cria-se um clima de incerteza. De um lado, a “moral fiscal” brasileira é esvaziada, causando fuga de dólares e pressionando ainda mais a divisa nacional.

Do outro lado, mais gastos públicos significa mais inflação, uma vez que a base monetária (total de dinheiro circulando na economia), em tese, aumenta.

Atualmente, cerca de 33,95% da Dívida Pública Federal (DPF) é atrelada à Selic, ou taxa flutuante. Isso equivale a R$ 1,86 trilhão. Mais taxa de juros, mais dívida pública. 

Divisão da Dívida Pública Federal (DPF) em outubro

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Divisão da Dívida Pública Federal (DPF) em outubro. Fonte: Tesouro Nacional
Fonte: Tesouro Nacional

Para controlar a inflação, o governo tem de elevar a taxa de juros em uma contração da política monetária. Com a Selic em patamar mais alto, o crescimento econômico do País é sacrificado, diminuindo os incentivos ao consumo e investimentos em produção.  

O destino das empresas da Bolsa não é o mesmo do Produto Interno Bruto (PIB), mas a conjuntura macroeconômica inevitavelmente influencia. 

Como o aumento da taxa de juros mexe com as empresas

O aumento da taxa de juros é consequência de um cenário local que, por sua vez, também é impactado pela conjuntura global. De cima para baixo, a influência chega para as empresas e como elas se relacionam com os clientes.

De forma geral, existem alguns impactos da alta da taxa de juros sobre as companhias e, consequentemente, seu desempenho na Bolsa. Alguns são:

Expectativa por lucros menores

A despesa financeira aumenta, prejudicando os números das empresas no período. A depender do setor, o lucro é prejudicado, fazendo os analistas revisarem as projeções. 

Com menos recursos para serem distribuídos aos acionistas, alguns investidores podem rotacionar seus portfólios, deixando alguns papéis para trás. 

Aumento do custo de capital

Quando o mercado avalia o preço justo de uma empresa, a taxa de juros de longo prazo (não a Selic), precificada pelo mercado, é utilizada como taxa de desconto sobre o dinheiro supostamente gerado no futuro. 

Essa taxa de desconto sendo maior, é natural que os múltiplos das empresas recuem e, posteriormente, os preços negociados hoje acompanhem as estimativas negativas.

Pressão sobre a demanda

Com a inflação em alta, a realidade é de menor poder de compra da população. Com o orçamento curto, a demanda na economia é retraída, prejudicando as empresas que dependem majoritariamente do cenário local, como as ligadas a serviços.

Além disso, as famílias brasileiras mostram-se bastante endividadas. O número de famílias com dívidas em novembro foi o maior em 11 anos, segundo a Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC). 

No mês passado, 74,6% dos grupos familiares no País tinham dívidas a pagar nos próximos meses, dentre os diversos tipos de endividamento. A inadimplência, entretanto, ainda está controlada

Migração para a renda fixa

De 2019 para cá, quando a taxa de juros caiu para sua mínima histórica, a Bolsa passou rapidamente de 500 mil CPFs para quase 4 milhões de investidores. 

O brasileiro viu seu rendimento na renda fixa ruir e, com isso, procurou alternativas melhores na renda variável. Muitas vezes, desconhecendo o risco que corria. 

A procura, muitas vezes, não era pelo investimento em negócios que geram valor no longo prazo, mas sim na rentabilização do capital de imediato. Agora, com a renda fixa voltando a ficar atraente em termos nominais, o fluxo é invertido e o mercado acionário sofre. 

Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os fundos de renda fixa lideraram o setor em captações em outubro , atraindo R$ 17,4 bilhões. O acumulado do ano está em R$ 255,2 bilhões.

Fonte: Anbima
Fonte: Anbima

Tamanha queda do Ibovespa faz sentido?

Dadas estas razões, o contexto é, sim, delicado e há razão para tudo ter caído tanto.

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No momento em que o Brasil caminhava para se tornar “normal”, com juros e inflação menores assim como o resto do mundo, a pandemia seguida por uma eleição presidencial antecipada com aspirações populistas engavetou os planos de crescimento.

O pânico tem se mostrado generalizado, embora não seja a primeira vez que isso acontece.

Em uma entrevista sobre seu livro Lições Amargas, lançado em maio deste ano, o economista e ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, disse que “se você ficar uma semana fora do Brasil, tudo muda. Se você ficar sete anos fora, nada muda”.

Estando fora de toda e qualquer crise em poucos momentos de sua história, por vezes o Brasil flertou com a falência. E já aconteceu! Em 1987, durante o governo de José Sarney, o País declarou moratória, ou calote da dívida externa. 

Mas, a conjuntura mudou drasticamente. Hoje, a situação do Brasil ainda é distante da vizinha Argentina, por exemplo, que sequer possui estabilidade monetária e já declarou moratória dez vezes. O real, por mais que esteja cambaleando, salvou o País da hiperinflação.

Momentos com essas características costumam representar ótimas oportunidades de investimento para quem tem um horizonte de longuíssimo prazo, ainda mais com a diligência de encontrar empresas que negociem abaixo do seu valor justo — a despeito de todas as preocupações. 

Assim tem sido a visão dos investidores estrangeiros. Eles colocaram R$ 12,4 bilhões líquidos na Bolsa brasileira em outubro, com o saldo positivo em R$ 54,7 bilhões no acumulado do ano. 

Em 1810, o outrora famoso financista londrino Nathan Rothschild disse a frase “compre ao som de canhões, venda ao som de trombetas”. O Ibovespa poucas vezes esteve tão barato.

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