A aposta de US$ 5 bilhões da Arábia Saudita no golfe acaba em falência
A LIV Golf enfrentou o establishment do golfe, gastou mais de US$ 5 bilhões e perdeu. O que restou foi uma série de torneios bem-sucedidos, um projeto esportivo saudita mais cauteloso e muitos golfistas significativamente mais ricos.
Na terça-feira, a liga de golfe apoiada pela Arábia Saudita pediu proteção contra falência. Seu principal financiador, o Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês), que havia interrompido o suporte financeiro à competição no início deste ano, comprometeu-se a fornecer US$ 50 milhões para manter as operações em funcionamento.
Segundo comunicado divulgado pela liga, estão em andamento “negociações avançadas” para que os próprios jogadores assumam o controle do negócio. A gestora BC Partners e outros investidores devem fornecer recursos caso a LIV Golf consiga sair do processo de falência.
O pedido de recuperação marca o fim do que talvez tenha sido a tentativa mais cara da história de criar uma nova liga esportiva, combinada a uma ousada estratégia de uso do golfe como instrumento de influência internacional da Arábia Saudita.
Apesar da situação, a LIV Golf ainda pretende captar US$ 300 milhões para realizar a temporada de 2027. Parte dos ingressos para os eventos do próximo ano já foi vendida.
A liga gastou centenas de milhões de dólares para atrair grandes nomes do golfe, mas ainda possui dívidas com alguns atletas. Jon Rahm tem mais de US$ 7,4 milhões a receber; Bryson DeChambeau, cerca de US$ 5,7 milhões; e Dustin Johnson, US$ 5,4 milhões.
Além disso, fornecedores processam a LIV Golf por falta de pagamento. Até o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) aparece entre os credores sem garantia, com uma reivindicação de US$ 1,7 milhão.
Em comunicado nesta terça-feira, a liga manteve um tom otimista e apresentou planos para ampliar o número de jogadores, introduzir cortes classificatórios e reorganizar as equipes em torno de identidades nacionais.
“Acho que todos entendem que foram cometidos erros”, disse o golfista Lee Westwood em entrevista a uma rádio, acrescentando que considera permanecer na competição.
Fim da disputa com o PGA Tour
Caso sobreviva à recuperação judicial, a LIV Golf não pretende mais desafiar diretamente o PGA Tour, principal circuito do esporte.
Isso também simboliza o fim de uma fase do projeto esportivo global da Arábia Saudita, liderado por Yasir Al-Rumayyan, governador do PIF e entusiasta do golfe. Agora, os investimentos esportivos sauditas estão concentrados principalmente no fortalecimento da liga nacional de futebol e nos preparativos para a Copa do Mundo de 2034.
As origens da LIV Golf remontam a uma ideia do ex-golfista Greg Norman, apresentada em 1994, para criar um circuito mundial alternativo. Em 2021, a consultoria McKinsey assessorava o PIF sobre a possibilidade de lançar uma nova liga. Naquele mesmo ano, a LIV Golf Investments anunciou um aporte inicial de US$ 200 milhões, com Norman como CEO.
Também em 2021, o fundo soberano saudita adquiriu o Newcastle United, da Premier League, marcando o início de sua ofensiva global no esporte.
Cinco anos depois, a Arábia Saudita passou a rever gastos e reduzir projetos considerados caros demais. Além da suspensão do financiamento à LIV Golf, acordos relacionados ao snooker e ao bilhar estão sendo encerrados antecipadamente, enquanto outros eventos esportivos foram adiados ou redimensionados.
Uma guerra bilionária
Ao lado dos bilhões investidos para levar estrelas como Cristiano Ronaldo ao futebol saudita, a LIV Golf foi um dos projetos mais caros do PIF.
Foram mais de US$ 5 bilhões gastos para contratar jogadores e criar torneios praticamente do zero.
A disputa com o PGA Tour foi marcada por forte hostilidade. O circuito tradicional classificou os eventos da LIV como “exibições”, enquanto a nova liga acusava o PGA de manter um “monopólio ilegal”.
O conflito chegou aos tribunais. Jogadores da LIV processaram o PGA Tour, que respondeu com ações próprias. Posteriormente, as partes anunciaram uma surpreendente trégua em 2023, quando PGA Tour e PIF divulgaram planos para uma possível parceria.
O acordo, contudo, nunca se concretizou, apesar de tentativas de mediação e do envolvimento do presidente Donald Trump.
Sem receitas significativas de televisão e publicidade para compensar os custos operacionais, a sustentabilidade financeira da LIV Golf tornou-se inviável. Em maio, a Bloomberg revelou que a organização já preparava o terreno para um possível pedido de falência nos Estados Unidos.
O legado da LIV Golf
Apesar do fracasso financeiro, a LIV Golf obteve algumas conquistas importantes.
A liga conseguiu realizar torneios de destaque, atrair grandes estrelas do esporte e mudar de forma significativa a economia do golfe profissional. O evento disputado em Adelaide, na Austrália, reuniu mais de 100 mil espectadores.
Além disso, a LIV investiu no Asian Tour, criou novas oportunidades para jogadores emergentes, conquistou alguns pontos válidos para o ranking mundial e fechou um acordo de mídia com a Fox Sports nos Estados Unidos.
Seu maior legado, porém, pode ter sido a valorização dos atletas.
Antes da LIV Golf, poucos torcedores defendiam aumentos expressivos nos ganhos dos jogadores. A nova liga transformou o dinheiro em seu principal atrativo, distribuindo premiações sem precedentes.
Talor Gooch, por exemplo, recebeu um bônus de US$ 18 milhões ao conquistar o título individual da temporada de 2023.
Mesmo que a LIV sobreviva, seu impacto mais duradouro parece ser o aumento do poder de negociação dos jogadores. Em comparação com 2021, as premiações do PGA Tour cresceram entre 30% e 40% nos torneios regulares e até 140% nos eventos mais importantes.
O PGA Tour, que a LIV pretendia derrubar, emerge da disputa ainda mais fortalecido. A entidade conta com US$ 1,5 bilhão em caixa graças ao apoio de grandes investidores esportivos dos EUA e segue como a principal força do golfe mundial.
Nos próximos meses, a recuperação da LIV Golf dependerá da aprovação judicial e da entrada de novos investidores. A primeira audiência do processo está marcada para esta quarta-feira, em Nova Jersey. Segundo documentos apresentados à Justiça, a liga possuía apenas cerca de US$ 15 milhões em caixa ao pedir proteção contra falência.
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