El Niño volta a ameaçar a Amazônia após seca histórica causar perdas bilionárias
Mais de um terço da Amazônia brasileira ficou altamente exposto à seca após o último El Niño, de 2023 a 2024, evidenciando os riscos para a maior floresta tropical do mundo com o retorno do fenômeno climático global em intensidade incomum. O El Niño deste ano já tem influenciado desde as recentes enxurradas repentinas no Grand Canyon, nos EUA, até a quebra na produção de arroz na Ásia.Dados divulgados em 4 de setembro identificaram que 2.172 das 5.673 localidades da Amazônia brasileira, ou 38% do total, estiveram altamente expostas à seca entre setembro e novembro de 2024, após o fim do El Niño em maio daquele ano. Durante esses três meses, a área de água superficial na Amazônia ficou 12% abaixo da média de 1985 a 2025. As temperaturas máximas ficaram 2,6°C acima da média, e a precipitação foi 27% inferior ao normal, segundo o MapBiomas, rede de pesquisa formada por organizações não governamentais, universidades e empresas de tecnologia responsável pelo levantamento.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.A seca na região em 2023 e 2024 foi a pior já registrada, contribuiu para milhares de incêndios e provocou forte aumento da perda florestal. A fauna também sofreu: dezenas de botos-cor-de-rosa, espécie endêmica ameaçada de extinção, morreram devido às temperaturas elevadas da água em algumas áreas da bacia amazônica.O último El Niño deixou prejuízos de bilhões de reais no Brasil, incluindo os estragos provocados pelas graves enchentes no Rio Grande do Sul.Em Manaus, maior cidade da Amazônia e importante polo industrial, as interrupções à navegação de embarcações de grande porte causaram cerca de R$ 1,4 bilhão em perdas apenas em 2023, segundo o Centro da Indústria do Estado do Amazonas.As conclusões surgem no momento em que o Brasil se prepara para os efeitos do atual El Niño, confirmado em junho e com expectativa de se tornar muito intenso antes do fim do ano. Leia também: Como El Niño e pragas colocam em xeque a nova safra de cacau na África OcidentalAs previsões apontam chuvas abaixo da média e temperaturas acima da média na Amazônia, o que pode prolongar a estação seca, elevando o risco de incêndios florestais e reduzindo a disponibilidade de água.Bruno Ferreira, pesquisador da equipe da Amazônia do MapBiomas, afirmou que o risco é agravado pelo período anterior de condições extremamente secas. "Alguns componentes do sistema hidrológico podem demorar para se recuperar após secas: água no solo, a zona da raiz, a água subterrânea", disse. “A Amazônia pode começar novo um evento de seca com menor estoque de água e uma vegetação mais fragilizada.”Em 2024, centenas de comunidades rurais enfrentaram falta de água potável e não conseguiram pescar, uma de suas principais fontes de alimento, porque os níveis dos rios estavam muito baixos. Para ter acesso a produtos como combustível, os moradores precisaram caminhar por quilômetros em vez de se deslocar de barco.Leia também: El Niño ganha força e pode fazer de 2026 o ano mais quente já registrado no mundoO governo brasileiro diz ter reservado R$ 1,335 bilhão no orçamento para lidar com os impactos relacionados ao El Niño, incluindo abastecimento de alimentos, saúde, monitoramento dos rios, fiscalização ambiental e prevenção de incêndios florestais.Ferreira afirmou que as autoridades agora têm mais experiência para responder a esses eventos, mas advertiu que comunidades remotas, dependentes dos rios para transporte, pesca e abastecimento, continuam particularmente vulneráveis.Veja mais em bloomberg.com



















