Heineken amplia aposta além da cerveja após portfólio ‘equilibrado’ crescer mais de 50%
O setor cervejeiro brasileiro atravessou em 2025 sua pior queda fora dos anos de pandemia, pressionado por clima desfavorável, menos feriados e um consumidor que passou a direcionar parte da renda para apostas online. Foi no contexto de uma retomada para que a Heineken decidiu apostar no que descreve como uma diversificação de ocasiões de consumo. Em vez de focar apenas na cerveja, que continua sendo o negócio central da marca, ela passou a buscar uma presença em outras situações para ampliar as oportunidades de chegar ao consumidor brasileiro.O mote é acelerar o segmento que mais cresce dentro de casa: o portfólio de bebidas com menos álcool, menos calorias ou sem glúten, que avançou mais de 50% em vendas no primeiro semestre de 2026 ante igual período do ano anterior, enquanto o negócio tradicional cresceu em ritmo de um dígito.A companhia formalizou a estratégia com o lançamento da plataforma +Equilíbrio, que reúne sob uma mesma comunicação marcas como Heineken 0.0, Sol Zero, Amstel Ultra, Lagunitas DayTime, a bebida proteica Mamba Protein e o chá Baer Mate, além do mais recente lançamento, Heineken Ultimate. A plataforma chegará a mais de 150 lojas em dez estados até o fim do ano, com presença em gôndolas de supermercado e em cardápios de bares e restaurantes.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.A estratégia, no entanto, não é apenas uma reação tática ao momento do setor, de acordo com Rafael Rizzi, VP de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Heineken. "Não vemos isso como uma substituição do mercado, em que os itens tradicionais serão trocados de forma alguma. Entendemos como ampliação dos momentos de consumo", disse Rizzi em entrevista à Bloomberg Línea.Segundo ele, o foco é a criação de novas ocasiões de consumo para bebidas da marca. O movimento é parte de uma trajetória iniciada com a criação da categoria puro malte no Brasil, entre 2017 e 2018, e que passou pela plataforma de sustentabilidade Green Your City, pelo lançamento da cerveja Heineken Spin em 2024 e, sobretudo, pela chegada da Heineken 0.0 ao país em 2020.“O +Equilíbrio não veio de um estalo estratégico, mas do nosso posicionamento como companhia de acompanhar as tendências do consumidor, mas também de liderar essas tendências e fomentar avanços do setor”, disse. “Vamos alimentar o mercado com inovações, com investimento, até que o consumidor esteja interessado nessa tendência, isso pode ir muito longe”, contou.Rafael Rizzi, VP de Sustentabilidade e Assuntos Corporativos da Heineken (Foto: Divulgação)Sem perder espaçoRizzi recorreu ao conceito de “share of throat” para descrever como a companhia interpreta a mudança de comportamento do consumidor, que redistribui, mas não necessariamente reduz, suas ocasiões de consumo entre cerveja, água, bebidas proteicas e chás. “As pessoas continuam consumindo, continuam comendo, bebendo, vivendo. As escolhas é que muitas vezes vão ser diferentes. Então é um pouco de share, de divisão do consumo”, disse.Leia também: Com vendas em queda no mundo, Heineken nomeia CEO brasileiro para liderar turnaroundEle afirmou que a Heineken 0.0, lançada no Brasil em 2020, deixou de ser associada apenas a momentos de restrição, como gravidez ou direção, para virar escolha por preferência.“Quando lançamos a Heineken 0.0, em 2020, ela se tornou uma das principais substitutas de bebidas alcoólicas, muito atrelada à restrição. E hoje, com essa mudança do comportamento, temos visto que essa cerveja não é mais só uma opção para momentos de restrição”, avaliou.Segundo ele, isso também abriu ocasiões de consumo que antes não existiam, como reuniões e almoços de trabalho. “Antes você não ia tomar uma cerveja nesse momento, mas se torna uma nova ocasião em que a cerveja não estaria e agora passa a estar”, disse.Rizzi também relacionou o avanço do +Equilíbrio à desaceleração do boom de cervejas premium e artesanais que marcou o Brasil entre 2018 e 2022. Segundo ele, a fatia de premium somada a artesanais saltou de menos de 5% do mercado antes de 2015 para mais de 20% hoje, patamar próximo ao de mercados maduros como Reino Unido e Estados Unidos, entre 26% e 30%. Para o executivo, essa aproximação indica que o ritmo de expansão da categoria deve desacelerar, o que reforça a aposta em abrir uma nova frente de crescimento com bebidas equilibradas.Motor de crescimento Apesar do avanço de mais de 50%, o executivo reconheceu que o portfólio de bebidas equilibradas ainda representa uma fatia pequena da receita total da companhia no Brasil, onde a cerveja premium já responde por mais de 70% do negócio. Ainda assim, ele descreveu a categoria como o principal vetor de expansão da empresa no momento. “Atualmente, esse tem sido o nosso motor de crescimento, sem dúvida. Crescemos com esse portfólio de mais equilíbrio mais de 50% em comparação com o ano anterior, e os nossos itens de core business não crescem nessa faixa, crescem um single digit”, disse Rizzi.Leia também: Na Heineken, cerveja premium já representa 70% do negócio no Brasil. O CEO quer maisA aposta ganha contexto diante do desempenho do setor em 2025. Segundo Rizzi, a queda de volumes foi a mais expressiva desde a pandemia, resultado de clima desfavorável, menos feriados, cenário macroeconômico mais apertado e da concorrência por outros dois gastos que também pesam sobre o orçamento do mesmo consumidor jovem que é o maior comprador de cerveja no país. “Tivemos influência de fatores exógenos, como as canetas emagrecedoras e as bets, que tiram o dinheiro do consumidor, exatamente o nosso consumidor”, disse o executivo, referindo-se ao público masculino de 20 a 35 anos.Mesmo assim, Rizzi disse que a companhia não interpreta a queda como um movimento estrutural do setor, que responde por cerca de 2% do produto interno bruto brasileiro. Segundo ele, os sinais de recuperação já apareceram no último trimestre de 2025 e se confirmaram no início de 2026.“Já vemos vários sinais de melhora, e sinais consistentes, não tão pontuais. Estamos realmente em uma retomada boa, animados e devemos fechar o ano nessa tendência”, afirmou. Brasil à frenteEste cenário favorável no Brasil contrasta com o desafio global da companhia, que anunciou corte de até 6.000 empregos, cerca de 7% do quadro mundial, diante da retração do consumo de cerveja na Europa e nas Américas.A entrevista com Rizzi ocorreu poucos meses antes de Rafael Oliveira, executivo brasileiro com passagens pela Kraft Heinz e pelo Goldman Sachs, assumir oficialmente o comando global da Heineken, em outubro, com foco em buscar uma retomada global da marca. Leia também: Heineken chegou à liderança em puro malte no Brasil. Agora quer avançar em chopeO VP disse que a nomeação deve facilitar o diálogo entre a operação brasileira e a sede da companhia. “O fato de ser brasileiro vai nos trazer algumas coisas, uma visibilidade para nós até um pouco diferenciada”, disse. Com Oliveira, a Heineken passa a ter três brasileiros em posições de liderança global, ao lado de Maurício Giamellaro, CEO da Heineken Brasil, e de Alex Carreteiro, presidente regional para as Américas, baseado em Miami.Com a liderança de um brasileiro, o mercado local fica mais conhecido na sede global, segundo ele. “Eliminamos a necessidade de explicação sobre o cenário brasileiro, de convencimento, ele já parte nos conhecendo”, afirmou.




















