Com Selic alta, Eco Invest tira projetos ‘da gaveta’, diz Itaú
Uma dúvida acompanha o Eco Invest desde o seu lançamento: se o programa de fato destrava investimentos da transição verde que não sairiam do papel sem subsídio, ou apenas barateia o crédito de projetos que os bancos financiariam de qualquer forma. A questão foi reforçada pelo perfil de grandes empresas e projetos contemplados no primeiro leilão.
Para Luciana Nicola, diretora de relações institucionais e sustentabilidade do Itaú Unibanco, a resposta vem de bate-pronto: sem a taxa subsidiada, as operações não teriam saído do papel neste momento de alto custo do crédito convencional — a Selic está em 14% ao ano e a percepção de risco corporativo piorou com uma proliferação de recuperações judiciais.
“São empresas que já têm projetos mapeados, mas que os deixaram na gaveta por causa da alta da taxa de juros. Quando vem uma linha como o Eco Invest, isso destrava e acelera esse pipeline”, diz a executiva.
O banco concluiu a execução dos R$ 8,4 bilhões aprovados no primeiro leilão do Eco Invest, criado pelo governo federal para atrair capital privado para a transição verde da economia. O programa oferece aos bancos, por meio de leilões, recursos a um custo baixo (1% ao ano), exigindo em contrapartida que eles alavanquem esse dinheiro com captações, sobretudo no exterior.
O Itaú foi a instituição com o maior volume contemplado na estreia do programa: R$ 1,35 bilhão vieram de recursos do Tesouro, e os outros R$ 7,05 bilhões foram captados junto a investidores internacionais. O banco tem outros R$ 33,1 bilhões a desembolsar relativos ao segundo e terceiro leilões — no quarto, a proposta do banco não foi contemplada.
Ao todo, foram 16 operações de crédito feitas no âmbito do primeiro leilão, entre projetos de saneamento, transição energética, bioeconomia, economia circular e infraestrutura verde — confira todos os desembolsos na tabela abaixo.
“Operações como as da Sabesp e da Aegea não sairiam do papel neste momento. O Boticário também não faria agora”, afirma Nicola.
Custo do crédito
O objetivo principal do programa é garantir que o recurso chegue de forma competitiva na ponta, para viabilizar financeiramente projetos socioambientais. O custo final do empréstimo, porém, não é fixo nem determinado pelo Tesouro.
O valor final cobrado do cliente depende do custo de funding do banco (uma composição entre os recursos do Tesouro e o capital privado alavancado), mas também da análise de risco de crédito da empresa tomadora.
“O valor final cobrado do cliente não depende apenas das contas da tesouraria do banco, mas envolve uma equação mais complexa que avalia cada empresa individualmente”, diz Nicola.
Segundo ela, quanto menor o risco de crédito do cliente, mais subsídio ele acaba levando na taxa final.
Captação
A regra da concorrência no primeiro leilão era de alavancagem mínima de seis vezes. Ou seja, para cada R$ 1 recebido do Tesouro, o banco tinha que captar ao menos outros R$ 5 no exterior, via emissão de título de dívida ou empréstimo.
A captação externa do Itaú foi voltada a organizações multilaterais e agências de fomento. “Ter o selo do Tesouro foi um facilitador. O segundo fator foi mostrar o pipeline de projetos que cumpriam o objetivo do programa, pois são investidores que vêm pelo impacto”, afirma a diretora do Itaú.
O nível de detalhe exigido pelo manual do Eco Invest — que obriga o banco a comprovar, projeto a projeto, o lastro de impacto socioambiental antes da liberação dos recursos — também tem funcionado, segundo a executiva, como uma espécie de chancela reputacional para as empresas financiadas.
Futuro do programa
Em ano eleitoral, outra dúvida que ronda o programa é a sua continuidade numa eventual troca de governo — o programa foi lançado pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no início de 2024.
O fato de o Eco Invest ter nascido dentro do Ministério da Fazenda, e não em uma pasta ambiental, é justamente o que blinda o programa contra uma eventual mudança de governo, na avaliação de Nicola.
Para ela, a lógica é a mesma da taxonomia sustentável, que serviu de base para o desenho do Eco Invest: um instrumento pensado para atrair capital estrangeiro, com lastro em uma linguagem que investidores internacionais conseguem comparar entre países, e não apenas em um compromisso político de um governo específico.
“O fato de isso ter sido construído no Ministério da Fazenda, com uma lógica econômica, trazendo a visão dos ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura, traz essa robustez, porque o aspecto econômico normalmente tem uma visão de mais longo prazo”, afirma a executiva. “Dialoga mais com uma política de Estado, e menos de governo.”
Segundo Nicola, o Eco Invest gerou efeitos concretos de curto prazo, como atração de capital estrangeiro e projetos em execução, que tornam politicamente custoso desmontá-lo.


















