Alemã Fraport assume Jericoacoara e promete modernizar aeroporto da capital do kitesurfe
O aeroporto de Jericoacoara no litoral do Ceará tem cobertura de palha, dois portões e nenhuma ponte de embarque. Os passageiros atravessam o pátio a pé, por uma faixa azul pintada no chão, para chegar às aeronaves. É esse terminal rústico, construído em 2017 para atender o turismo na capital brasileira do kitesurfe, que a Fraport Brasil, empresa alemã, assumiu no último dia 1º de setembro.A concessionária, que já opera os aeroportos de Fortaleza e Porto Alegre, promete R$ 101,1 milhões em obras para modernizar a infraestrutura e preparar o terminal para o crescimento da demanda, segundo comunicado.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.O aeroporto mantém o nome oficial de Aeroporto Regional de Jericoacoara – Comandante Ariston Pessoa e passa a usar também a marca comercial Jeri Airport. SBJE é seu código no sistema internacional de identificação de aeródromos.O movimento total de Jericoacoara ainda é pequeno: 2.997 pousos e decolagens em 2025, o que coloca o terminal na 88ª posição entre os 100 aeródromos monitorados pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea). São oito movimentos por dia. Fortaleza, o outro aeroporto da concessionária no Ceará, fez 55.234 no mesmo período e está em 17º lugar.Leia também: Com ex-XP como parceiro, marca hoteleira escolhe paraíso de kitesurfe para estreia no BrasilA aviação comercial, que opera com linhas regulares da Azul, Gol e Latam, caiu 10% em 2025. Uma explicação possível é que parte dos turistas, especialmente os estrangeiros, como europeus, e os que buscam tarifas mais baixas, opta por desembarcar no Aeroporto Internacional de Fortaleza, que tem voos mais frequentes e conexões internacionais, e segue por terra até Jericoacoara.Em sentido oposto, a aviação geral (jatos executivos, táxi aéreo e voos particulares) disparou 27% em 2025 na comparação com 2024, somando 1.097 movimentos no ano. A conta dá três jatos por dia, em média. Em agosto e novembro, esse segmento chegou a superar os voos comerciais.Kitesurfe na região do litoral de Jericoacora, como a Praia do Preá, no Ceará, atrai estrangeiros como franceses devido à velocidade constante dos ventos no segundo semestreMeta é internacionalização do terminalA mudança de perfil não é acidental. Jericoacoara é destino global do kitesurfe, esporte que depende de ventos fortes entre julho e janeiro. É nessa janela que o aeroporto registra seus picos de movimento. Em julho de 2026, foram 321 movimentos, 82% mais que em junho, segundo o relatório do Decea. O turista que pratica kitesurfe costuma ter alto poder aquisitivo. Ele viaja de jato.O governo do Ceará enxerga no Preá, distrito vizinho a Jericoacoara, um potencial turístico gigantesco. "O Preá tem se mostrado cada vez mais um potencial turístico gigantesco da nossa região", afirmou o secretário de Turismo do Ceará, Gustavo Montenegro, em entrevista em junho.Segundo ele, o aeroporto de Jericoacoara é peça central nessa estratégia. A internacionalização do terminal é uma das metas do governo estadual. “É um trabalho longo, envolve muita coisa, envolve Polícia Federal, Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], Ministério da Agricultura, Receita Federal. Mas é o que o governador nos tem essa missão”, disse Montenegro.A infraestrutura atual, porém, ainda é modesta. O terminal tem cobertura de palha sobre estrutura de madeira. Os balcões de check-in ainda carregam a marca do governo do Ceará. Painéis fotográficos das praias da região cobrem as paredes do saguão. Aeronaves comerciais e jatos particulares dividem o mesmo pátio. Uma escada rebocada atende os passageiros dos jatos, com serviços da Dnata, empresa de assistência em solo (handling) que opera no aeroporto.Aeroporto de Jericoacoara lembra passará por obras de melhoria em sua infraestrutura, em um espaço que lembre uma rodoviária simples do interior. O sistema de refrigeração precisa ser reforçado devido ao calor intenso nesta região do BrasilDesafio da infraestruturaOs investimentos previstos pela Fraport Brasil miram justamente essas lacunas. A lista de obras inclui ampliação do pátio de aeronaves, construção de áreas de segurança nas cabeceiras da pista, reforma do terminal de passageiros e adequações operacionais. O aeroporto tem hoje poucos slots (horários de pousos e decolagens) para aviação geral e não comporta ainda voos internacionais. O governo do Ceará também investe na região. Estão em obras R$ 99 milhões em saneamento, drenagem e abastecimento de água no Preá, segundo Montenegro. “Não existe turismo sem a sustentabilidade correr em paralelo os dois juntos”, afirmou.O movimento de jatos executivos em Jericoacoara não é um fenômeno isolado. A Anantara, marca tailandesa de resorts de luxo, escolheu a praia do Preá, a 20 minutos do aeroporto, para sua estreia no Brasil, em parceria com o Grupo Carnaúba, liderado por Júlio Capua, cofundador da XP.O resort de R$ 150 milhões, com inauguração prevista para 2028, é a âncora de um projeto imobiliário de R$ 5 bilhões que busca transformar a região em um destino turístico planejado, segundo disse o executivo em junho.Galpão de palha (palhoça) para abrigo de jangadas, embarcações de madeira da pesca artesanal, na Praia do Preá (Cruz-CE), a 30 min do Aeroporto de JericoacoaraA Latam foi uma das primeiras companhias aéreas que apostaram no fluxo de turistas para o paraíso dos ventos. Em dezembro de 2021, a empresa pousou pela primeira vez em Jericoacoara. O voo chegou de Guarulhos com 80% de ocupação e os passageiros foram recebidos com rapadura embrulhada em juta e algodão cru, uma homenagem à cultura local. Na mesma época, Gol e Azul também anunciavam rotas para o destino. A conexão entre os dois terminais já aparece nos números. Em 2025, a rota Fortaleza-Jericoacoara somou 348 movimentos, 178 em um sentido e 170 no outro. Andrea Pal, presidente da Fraport Brasil, afirmou que a empresa chega a Jericoacoara com experiência internacional e com a disposição de entender as características e oportunidades locais. O compromisso, segundo ela, é fazer do aeroporto uma infraestrutura mais segura, eficiente e preparada para o crescimento. Em nota, o ministro Silvio Costa Filho projetou que a região deve se tornar um polo de desenvolvimento. Veículos UTV (Can-Am) para turismo de aventura, na Praia do Preá, se multiplicam na região de Jericoacoara, com logística facilitada pelo aeroporto regional e avanço de projetos imobiliários para alta rendaO que busca o turistaO viajante que desembarca hoje no terminal de palha busca as praias de Jericoacoara, Preá e Tatajuba, com suas dunas e lagoas que formam a Rota das Emoções, um roteiro de mais de 500 quilômetros que liga Ceará, Piauí e Maranhão passando por paisagens que vão dos Lençóis Maranhenses ao Delta do Parnaíba.Os velhos buggys que roncavam nas dunas estão dando lugar aos elétricos de luxo da canadense Can-Am, carrões silenciosos que agora levam os hóspedes de um lado a outro do Preá. A marca fabrica desde quadriciclos, como o modelo Outlander, até os UTVs, veículos maiores, mais potentes e com direção estilo carro, como o Commander e o Maverick. Eles circulam agora pelas areias, transportando hóspedes e valorizando terrenos que antes eram ocupados por vilas de pescadores.Leia também: Zurich Airport vende fatia no Aeroporto de Confins para a mexicana ASUR por R$ 109,5 miEnquanto os jatos executivos pousam em Jericoacoara, outra movimentação acontece no solo do Preá. Aos interessados em investir na região, o corretor Carlos Aleixo resume à Bloomberg Línea o apelo da vila em poucas palavras: “É uma vila sossegada, zero criminalidade, zero mortes. Não tem muita burocracia para construção”.Ele oferece terrenos à beira-mar de 560 m² por R$ 4,2 milhões, em uma faixa de praia que concentra escolas de kitesurfe ligadas a pousadas e hotéis.Pedra Furada, em Jericoacoara, litoral do Ceará, que foi descoberta pelos estrangeiros nos anos 1990 após ser eleita a praia mais bonita do mundoEm frente, a Pedra da Sereia, formação rochosa que emerge na faixa de areia e marca o relevo do mar, é um dos pontos turísticos da região. O cenário de dunas e lagoas ajuda a explicar o fascínio que atrai visitantes desde os anos 1990, quando a vizinha Jericoacoara foi eleita pelo The Washington Post uma das praias mais bonitas do mundo por sua Pedra Furada, um arco de quartzito esculpido pelo vento e pelo mar. Aleixo admite que a maioria das terras no Preá ainda não tem matrícula regularizada, mas garante: “Aqui os grandes empresários e gringos sempre compraram sem matrícula e nunca tiveram problema”.A paisagem de areia e coqueiros, que já foi ocupada por restaurantes rústicos, agora atrai compradores em busca de lotes de 10 por 20 metros, muitos vindos de fora do estado e até do exterior, interessados por um pedaço do paraíso dos ventos antes que os preços subam ainda mais.Leia tambémLeilão de Aeroporto de Brasília e mais 10 terminais é esperado para dezembro, diz ministério


















