“Estamos empacados”: guerra EUA-Irã entra em impasse após 6 meses e sem saída à vista
Os Estados Unidos e o Irã intensificaram nos últimos dias os ataques militares de retaliação mútua e seguem presos entre um cessar-fogo e uma guerra total, enquanto a Casa Branca enfrenta dificuldades para encerrar o conflito que já dura seis meses.
“Militarmente, está muito claro que estamos empacados”, disse em entrevista na quarta-feira o deputado republicano Pat Harrigan, da Carolina do Norte, integrante da Comissão de Serviços Armados da Câmara dos Representantes. “Não há dúvida sobre isso.”
A mais recente troca de ataques incluiu ações iranianas contra navios mercantes, o que levou os EUA a atingir instalações da Guarda Revolucionária Islâmica usadas para monitorar embarcações no Estreito de Ormuz. Em resposta, o Irã lançou mísseis e drones contra bases americanas na região, incluindo instalações na Jordânia, no Kuwait e no Bahrein.
O Irã afirmou que os EUA mataram 18 pessoas nos ataques realizados na noite de terça-feira. Teerã prometeu punir Washington por um ataque contra uma cerimônia de casamento na cidade de Sirik, no sul do país, que, segundo a Sociedade do Crescente Vermelho do Irã, deixou ao menos quatro mortos e 67 feridos.
Os preços da energia, que haviam recuado durante uma trégua parcial nos combates ao longo da maior parte de agosto, voltaram a subir, aumentando a pressão sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar um conflito cada vez mais impopular entre os eleitores às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, daqui a dois meses.
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Moeda do Irã afunda após novos ataques e ultrapassa 2,2 milhões de riais por dólar
O petróleo Brent avançou mais de 6% nesta semana, para US$ 95 por barril, enquanto os preços do diesel nos Estados Unidos atingiram o maior nível em quatro anos. A alta dos custos de energia também contribuiu para uma onda de vendas nos mercados globais de títulos.
As hostilidades evidenciaram a capacidade do Irã de continuar ameaçando uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. Antes da guerra, cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito passava pelo Estreito de Ormuz.
Irã e Estados Unidos parecem longe de retomar negociações formais. O chamado memorando de entendimento assinado em meados de junho expirou sem avanços significativos em direção a um acordo de paz permanente.
Embora a intensidade dos bombardeios e o número de vítimas estejam muito abaixo das primeiras semanas da guerra, quando EUA e Israel realizavam ataques massivos contra cidades iranianas e a República Islâmica lançava milhares de projéteis contra aliados americanos na região, o conflito de baixa intensidade continua exigindo recursos militares de Washington. E uma retomada da guerra em grande escala permanece possível.
“Os dois lados estão aumentando gradualmente as exigências para voltar às negociações”, escreveram Dina Esfandiary e Becca Wasser, da Bloomberg Economics. “Isso significa que o impasse desconfortável, mesmo com explosões ocasionais de violência, deve continuar por enquanto.”
Trump afirmou não acreditar que a mais recente rodada de ataques americanos dure “muito tempo”. Na semana passada, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou um novo plano de pressão econômica sobre o Irã, complementando o bloqueio naval americano aos portos iranianos.
Segundo Bessent, o esforço para sufocar a economia iraniana torna “improvável uma retomada em larga escala dos combates”.
O bloqueio já afeta significativamente o Irã, dificultando exportações de petróleo e importações de produtos essenciais, o que elevou a inflação para cerca de 80%. A campanha liderada por Bessent para convencer países, aliados ou não dos EUA, a reduzir relações com Teerã pode ampliar ainda mais os problemas econômicos iranianos e eventualmente forçar concessões.
Por enquanto, porém, a liderança iraniana parece acreditar que consegue suportar a pressão econômica americana por mais alguns meses. Além disso, muitos de seus parceiros comerciais, como China, Paquistão e Turquia, demonstram pouca disposição para romper completamente os laços com o país.
Os novos ataques, que seguem um padrão repetido ao longo do conflito, tornam ainda menos provável que os dois lados encontrem uma saída diplomática.
O governo Trump afirma repetidamente que seu objetivo é impedir que Teerã obtenha armas nucleares. Em alguns momentos, porém, parece mais concentrado em garantir a abertura do Estreito de Ormuz diante da pressão doméstica para encerrar uma guerra impopular.
Já o Irã encara o conflito como uma questão de sobrevivência nacional e continua capaz de elevar os custos políticos e econômicos para Trump ao ameaçar a navegação pelo estreito. O país também atingiu com drones e mísseis infraestruturas energéticas de ricos Estados árabes do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
“Não acho que nenhum dos lados tenha uma estratégia de vitória bem definida”, disse Jon Alterman, diretor de estratégia global e segurança do Center for Strategic and International Studies. “Para os iranianos, simplesmente sobreviver já representa uma vitória. Para os americanos, é inaceitável permitir que o Irã controle o estreito. Mas é difícil encontrar uma forma de impedir que os iranianos continuem ameaçando essa rota.”
O bloqueio americano é, segundo Michael O’Hanlon, diretor de defesa e estratégia da Brookings Institution, a melhor opção disponível neste momento e exerce forte pressão sobre o Irã.
Segundo ele, a presença militar na região sustenta e complementa a ofensiva econômica liderada por Bessent.
“Podemos manter 15 navios operando no Golfo Pérsico pelo tempo que for necessário”, afirmou O’Hanlon. “Comparado a qualquer outra operação militar que consigo imaginar neste estágio do confronto, esta é a melhor opção para nós.”
Harrigan, o deputado republicano, acredita que os Estados Unidos alcançaram parte dos objetivos estabelecidos no início do conflito, mas agora estão “presos” em um impasse.
“Precisamos parar de travar uma guerra limitada indefinidamente, acreditando que vamos alcançar objetivos ilimitados por meio de um conflito limitado”, disse. “O que estamos fazendo agora é irresponsável e precisamos tomar uma decisão.”
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