Como El Niño e pragas colocam em xeque a nova safra de cacau na África Ocidental
Simon Essah caminha por sua fazenda de cacau no sudoeste de Gana, apontando para árvores marcadas pela podridão negra, a mais recente de uma série de ameaças que assolam sua safra este ano.A próxima colheita renderá menos vagens com grãos, já que as chuvas torrenciais prejudicaram seu desenvolvimento. Essah não tem condições de comprar pesticidas suficientes para conter uma doença que escurece o fruto e faz com que ele apodreça."A contagem de vagens até agora é menor do que no mesmo período do ano passado", disse o agricultor de 44 anos em uma entrevista à Bloomberg News na vila de Chensidaho, perto da fronteira com a Costa do Marfim. “Não estou tão confiante na próxima safra.”As dificuldades de Essah refletem a incerteza que se espalha pela África Ocidental, que inicia uma nova safra de cacau neste mês. O desafio representado pela umidade, pelas doenças e pela falta de produtos químicos também corre o risco de ser agravado por um El Niño excepcionalmente forte. ⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.O fenômeno é conhecido por intensificar os ventos secos do Harmattan, que varrem a região por volta de novembro, deixando os produtores à mercê das mudanças bruscas do clima.As safras ruins nos anos anteriores resultaram em três déficits consecutivos de oferta, levando os futuros de cacau de Nova York a níveis recordes no final de 2024. Os preços então despencaram à medida que os consumidores reduziram o consumo, e a demanda permaneceu irregular desde então, já que muitos fabricantes de chocolate ajustaram suas receitas no auge da alta.Simon Essah, cacauicultor de Gana: produção de cacau na África Ocidental deve cair e afetar preços e a oferta global. (Foto: Ekow Dontoh/Bloomberg)Mas os contratos futuros estão se recuperando novamente, com as perspectivas incertas para a África Ocidental reduzindo o excedente global projetado para a nova safra de cacau. Os preços subiram mais de 70% desde o início de junho, quando o El Niño foi confirmado. Os contratos futuros de cacau negociados em Londres atingiram na terça-feira (1°) o maior nível desde setembro de 2025, antes de recuarem.Leia também: Preços de commodities agrícolas têm maior salto em 14 anos com guerras e El NiñoA Costa do Marfim, maior produtora, pode registrar uma queda na produção de cerca de um quinto, para 1,75 milhão de toneladas, de acordo com uma pesquisa realizada no final de agosto com cinco traders e contadores de vagens. Gana, segundo maior produtor, deve registrar uma queda de cerca de 13% na produção na safra que começa no final deste mês, segundo fontes familiarizadas com a previsão no mês passado.(Fonte: Organização Internacional do Cacau)Juntos, os dois países da África Ocidental produzem mais da metade do cacau mundial. Em outras partes da região, os agricultores dos Camarões enfrentam escassez de produtos químicos necessários para combater pragas e doenças, enquanto na Nigéria as enchentes complicaram as condições de cultivo.A queda na produção tanto na Costa do Marfim quanto no Gana deve levar a um excedente global de cerca de 25 mil toneladas na safra de 2026/27, abaixo das expectativas anteriores, de acordo com a projeção média dos analistas de mercado consultados pela Bloomberg. As previsões das corretoras StoneX e Hedgepoint Global Markets também foram revisadas para baixo.Leia também: Empresas brasileiras se aproximam de acordo para cultivar 800 mil hectares em AngolaEssa é uma margem de segurança estreita caso a colheita enfrente mais dificuldades à medida que avança.“Estamos nesse ponto de inflexão em que, pelo menos no que diz respeito ao clima, estamos à espera para ver o que vai acontecer, pois tudo pode acontecer”, disse Oran Van Dort, analista do Rabobank em Utrecht.Podridão negra: as chuvas intensas prejudicaram o desenvolvimento das vagens de cacau. (Foto: Ekow Dontoh/Bloomberg)No sudoeste de Gana, onde Essah cultiva, o clima tem estado frio e nublado, com chuvas intermitentes e pouca luz solar — condições ideais para a podridão negra. Mesmo nos casos em que as árvores apresentavam um número promissor de vagens, estas tendiam a ser muito pequenas.Enquanto isso, na Nigéria, a produção cairá 2,4%, para 288 mil toneladas, segundo Mufutau Abolarinwa, presidente da Associação de Cacau da Nigéria.Enighe Tiku, que cultiva perto de Ikom, no sudeste do país, disse que meses sem chuvas foram seguidos por inundações e rajadas de vento que arrancaram as vagens em desenvolvimento e levaram muitas árvores de cacau.Leia também: Chuvas no Brasil reduzem oferta de café premium e pressionam Starbucks, Lavazza e Illy“Não há nada no horizonte que aponte para uma boa colheita na próxima safra”, disse ele.Camarões provavelmente colherá aproximadamente a mesma quantidade de cacau que no ano anterior, de acordo com o órgão regulador local do setor, mas os agricultores nas principais zonas de produção do país relatam um aumento nos casos de podridão negra, capsídeo e pragas.O alto custo de pesticidas e produtos químicos impulsionou a venda de produtos falsificados, que são menos eficazes, segundo Serah Nangeh Sunjo, proprietária de uma plantação de 25 hectares em Jerusalém, 220 quilômetros ao norte da capital dos Camarões, Yaoundé.Ainda assim, observadores do mercado alertaram que uma combinação de queda na demanda e uma recuperação prévia na produção resultou em estoques abundantes para levar para a nova safra.“Essa é uma boa margem de segurança para possíveis problemas em 2026-2027”, disse Jonathan Parkman, chefe de vendas agrícolas da corretora Marex Group.Leia também: De bebidas a pães: processadores de cacau buscam crescer em produtos além do chocolateA produção na Costa do Marfim continua sendo o fator-chave. Avaliações preliminares indicam que a safra principal poderá totalizar entre 1,55 milhão e 1,6 milhão de toneladas, com poucas variações em relação ao ano anterior, segundo fontes a par do assunto, que pediram para não serem identificadas ao discutir informações confidenciais.Ainda assim, só haverá mais clareza em novembro, quando a safra principal — a maior das duas — estiver em pleno andamento. Se o El Niño realmente intensificar os ventos do Harmattan, isso poderá prejudicar o final da safra.Uma porta-voz do órgão regulador do setor, o Conseil du Café-Cacao, não quis comentar.A chuva, que favoreceu o surgimento de doenças em algumas partes da região, também é motivo de otimismo entre alguns agricultores.“O solo está muito úmido no momento, o que é ideal para aplicar fertilizante na base das árvores”, disse Jean Kean, de 68 anos, que cultiva no oeste da Costa do Marfim. “Continuo otimista.”Veja mais em Bloomberg.comLeia tambémIA já responde por mais da metade da receita da Baidu e pode elevar margens, diz CFO



















