Para C&A, clima vai exigir mudanças mais rápidas nas coleções
Ondas de calor e frio fora de época mexem com o guarda-roupa de qualquer pessoa e, invariavelmente, afetam as vendas de varejistas de moda. Para a C&A, esse fator foi quantificado como um dos principais riscos que a mudança do clima impõe para a empresa.
A varejista de moda divulgou nesta segunda-feira (31), pela primeira vez, o relatório financeiro que mapeia os riscos e as oportunidades das mudanças climáticas para seus negócios, segundo o padrão internacional IFRS S1 e S2.
Como sua concorrente Renner, a C&A observou que, no longo prazo, o impacto financeiro das oportunidades será maior do que as perdas estimadas. A empresa estimou quatro riscos e três oportunidades. Nem todos puderam ser calculados quantitativamente, mas os que foram mostram uma estimativa de ganho de R$ 455,6 milhões com oportunidades nos próximos anos, ante uma perda de R$ 84,6 milhões.
Entre as principais oportunidades climáticas identificadas pelo relatório estão ganhos de eficiência e adoção de tecidos mais sustentáveis.
A empresa prevê ganhos de R$ 328 milhões ao longo dos próximos dez anos com a adoção de critérios de eficiência energética e o melhor uso de recursos na expansão e reforma de lojas.
A C&A anunciou na semana passada um plano estratégico que prevê a construção de 60 a 80 novas lojas e a reforma de pelo menos 100 unidades até 2030. A previsão é investir anualmente cerca de 7% da receita líquida na expansão. O grupo hoje tem 340 lojas no Brasil.
“Dentro desse plano tem uma grande oportunidade de usar materiais e sistemas de energia sustentáveis, na refrigeração e iluminação, além de reaproveitamento de materiais entre lojas”, diz Laurence Gomes, CFO e diretor de relações com investidores da C&A.
A empresa tem a meta de usar 100% de fontes renováveis de energia até 2030, e alcança hoje 95%, principalmente da geração solar e eólica. A maioria das lojas opera no mercado livre de energia, e a ampliação dessa parcela é vista como potencial de aumentar a economia e reduzir o impacto climático.
A empresa também prevê um ganho de R$ 127 milhões nos próximos anos por meio de otimização operacional para obter mais resiliência climática, flexibilidade logística e redução no descarte de peças. A companhia tem a meta de chegar a 2030 com metade dos produtos com princípio de circularidade, como reciclagem de roupas — em 2025, essa parcela alcançou 37%.
A empresa tem a meta de cortar 42% das emissões absolutas de CO2 de todos os escopos até 2030, a partir dos valores de 2023. Em 2026, a empresa deve investir R$ 9,6 milhões com esse fim.
Outra oportunidade mapeada é dar mais escala a produtos com origem considerada sustentável, o que inclui tecidos certificados e com rastreabilidade da cadeia. Embora afirme estar em estágio avançado nessa estratégia, a companhia não mensurou o potencial de ganho para a oportunidade por considerar difícil estimar os preços dos tecidos no longo prazo.
“Temos uma escalabilidade que consegue fazer com que o custo da matéria-prima sustentável seja quase equivalente ao tradicional”, diz Cyntia Kasai, gerente sênior ASG da C&A. “Não temos a intenção de repassar o custo da sustentabilidade ao consumidor, mas dar mais acessibilidade para a sustentabilidade.”
A empresa tem a meta de atingir 80% de matérias-primas sustentáveis até 2030, e em 2025 alcançou 72% de tecidos com esse perfil. As porcentagens variam de 98% no caso do algodão a 6% no caso do poliéster.
Riscos mapeados
A empresa estima que, nos próximos dez anos, poderá ter um impacto de R$ 64 milhões no fluxo de caixa decorrente do desalinhamento entre oferta e demanda de produtos por causa da volatilidade do clima. Em 2025, esse efeito representou uma perda de R$ 14 milhões no lucro líquido.
A estimativa de perda foi calculada a partir de comparações do crescimento de vendas nas regiões Sudeste e Sul com regiões em que há menos variabilidade de temperatura. A companhia reportou lucro líquido de R$ 587,1 milhões no ano passado.
Uma das formas de mitigar esse risco é ter mais flexibilidade, permitindo ajustes pontuais nas coleções, ciclos mais curtos de produção de itens e, no longo prazo, uma reconfiguração estrutural dos lançamentos.
Gomes diz que a empresa vem adaptando seus processos de produção para ter mais agilidade. Antes de fazer grandes encomendas de peças para fornecedores, a empresa testa os produtos em quantidades menores para avaliar o sucesso dos designs. “Isso envolve um esforço de integração com fornecedores, mas deixa a cadeia mais responsiva, e pode mitigar esse tipo de efeito do clima”, diz Gomes.
Outro risco mapeado é o fechamento de lojas por causa de eventos climáticos, estimado em um impacto negativo de R$ 21 milhões no fluxo de caixa na próxima década. Em 2025, a perda identificada foi de R$ 1,2 milhão. A empresa avaliou que 22% dos ativos estão expostos a alguma ameaça física climática, como chuvas fortes, inundações e estresse hídrico. A maior parte está na região Sudeste, que concentra a operação.
Desafios de medição e investimentos
Problemas de logística decorrentes de eventos climáticos também foram mapeados como um risco alto para os próximos anos, mas a falta de dados não permitiu estimar de forma quantitativa as possíveis perdas futuras. O mesmo aconteceu com o risco de identificar a pressão climática e possíveis problemas regulatórios de fornecedores, como a necessidade de ter mais rastreabilidade na cadeia para garantir que os produtos estejam em conformidade com regras climáticas nacionais e internacionais.
“Existem limitações de acesso a informações, principalmente na cadeia, mas estamos evoluindo”, diz Gomes. A empresa está aprimorando formas de mensuração para incluir mais dados relacionados a fornecedores nos próximos relatórios. A companhia contabilizou 946 fornecedores diretos e 816 indiretos em 2025.
A C&A é uma de poucas companhias abertas que se comprometeram, no início do ano, a publicar o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e clima com dados referentes a 2025, um ano antes de elas se tornarem obrigatórias. Em maio, porém, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) derrubou a obrigatoriedade do reporte — a decisão está sendo contestada na Justiça.
Gomes diz que a C&A fez revisões de toda sua materialidade, da matriz de risco e de processos de gestão de riscos para formular as avaliações do relatório. “É um avanço importante que acaba se refletindo em toda a organização. O que você mede você consegue controlar”, diz.
As conclusões devem ser usadas em decisões financeiras. A companhia tem um comitê de investimentos que aprova todos os aportes financeiros e faz avaliação dos retornos. Desde o ano passado, essas decisões passaram a incluir entre os indicadores o critério de impacto de sustentabilidade.
“Hoje todo projeto precisa explicitar qual o impacto social, ambiental e de sustentabilidade e, se não tiver, explicar por quê”, diz Gomes. Metas ESG também fazem parte da remuneração variável dos executivos desde 2024. O percentual pode chegar a 15% no caso de cargos de alto escalão.
Mesmo com o fim da obrigatoriedade, a C&A afirma que vai continuar a publicar o relatório, e pretende incluir os dados de sustentabilidade no ano que vem — o relatório de 2026 trouxe apenas informações sobre o clima, uma prerrogativa que o padrão IFRS S1 e S2 dá para a primeira publicação.





















