Aos 240 anos, BNY quer levar serviços que movimentam US$ 8,6 tri para blockchain
Com US$ 62,6 trilhões em ativos sob custódia e administração, o banco BNY é uma das instituições financeiras mais antigas do mundo. Fundado em 1784 e primeira empresa listada na Bolsa de Nova York, em 1792, ele agora acelera sua atuação na infraestrutura de ativos digitais, num momento em que blockchain, tokenização e stablecoins avançam sobre o mercado financeiro tradicional.
Um dos movimentos recentes envolve a transferência para blockchain de parte de sua infraestrutura de serviços para fundos, negócio que atende cerca de US$ 8,6 trilhões em ativos e 7,6 milhões de contas. Gestoras como BlackRock, Baillie Gifford e Dreyfus estão entre as instituições envolvidas na iniciativa.
Em entrevista exclusiva à jornalista do BeInCrypto, Aline Fernandes, Carlos Xirau, Managing Director e Head of Latin America do BNY, afirma que o debate institucional sobre ativos digitais entrou em uma nova fase.
“A conversa amadureceu. É menos sobre experimentação e mais sobre resolver desafios reais”, afirmou.
Para o banco, ativos digitais já fazem parte de uma transformação mais ampla na forma como os ativos são movimentados, liquidados e administrados. Nesse cenário, blockchain deixa gradualmente de ser tratada como um produto isolado para se tornar parte da infraestrutura que conecta as finanças tradicionais à nova economia digital.
Confiança do mercado e estratégia digital
Aline Fernandes: Quanto do desempenho do BNY você atribui à expansão em ativos digitais? Você acredita que os investidores estão começando a precificar a infraestrutura blockchain como um vetor de crescimento de longo prazo para as instituições financeiras tradicionais?
Carlos Xirau : O que importa é que os investidores percebem, cada vez mais, que os mercados financeiros estão evoluindo e que as instituições capazes de ajudar seus clientes a navegar por essa transformação tendem a estar bem posicionadas.
Para nós, os ativos digitais fazem parte de uma mudança mais ampla na forma como os ativos são movimentados, liquidados e administrados. Nosso foco está em construir a conectividade e a resiliência de que os clientes precisarão à medida que os mercados se tornarem mais integrados e operarem cada vez mais em tempo real.
Mudança não aconteceu só por conta da tecnologia
Aline Fernandes: O BNY foi a primeira empresa listada na Bolsa de Valores de Nova York, em 1792. Hoje, também é uma das principais instituições financeiras do mundo a adotar infraestrutura blockchain. Em que momento o banco percebeu que blockchain havia deixado de ser um experimento para se tornar uma decisão estratégica de negócios?
Carlos Xirau: Essa mudança não ocorreu apenas por causa da tecnologia. Ela veio do reconhecimento de que a estrutura dos mercados está evoluindo e de que os clientes precisam de uma infraestrutura capaz de oferecer suporte a novas formas de movimentar e administrar ativos.
Quando a inovação começa a atender necessidades institucionais concretas — eficiência, transparência e mobilidade dos ativos —, ela se torna estratégica. É dessa forma que enxergamos blockchain: como parte de uma modernização mais ampla dos mercados financeiros.
A oportunidade está em conectar o tradicional com o digital
Aline Fernandes: A história do BNY se estende por mais de dois séculos, enquanto a indústria cripto nasceu a partir da ideia de descentralização e da redução da dependência de intermediários. Como você enxerga a convergência entre esses dois mundos? Como será a relação futura entre as finanças tradicionais e blockchain?
Carlos Xirau: Não enxergamos essa transformação como uma disputa entre o tradicional e o digital. Vemos uma oportunidade de combinar os pontos fortes de ambos de maneira a atender os clientes e preservar a integridade dos mercados.
As finanças tradicionais oferecem confiança, escala e resiliência. As tecnologias digitais proporcionam velocidade, transparência e programabilidade. A oportunidade está em conectar essas forças por meio de uma infraestrutura que permita aos clientes operar com confiança nos ambientes.
Stablecoins e dinheiro digital
Aline Fernandes: Após a integração com a Circle, o banco afirmou que pretende oferecer suporte a outros emissores de stablecoins ao longo do tempo. Quais critérios vocês utilizam para avaliar novos emissores? A Tether (USDT) está entre as empresas consideradas?
Carlos Xirau: A principal questão é saber se a solução atende a uma necessidade institucional concreta. Isso significa melhorar a movimentação de valor, reduzir fricções e dar suporte à liquidez de uma forma que esteja alinhada aos padrões institucionais.
De maneira mais ampla, o dinheiro digital é importante porque pode contribuir para mercados mais integrados, programáveis e capazes de operar em tempo real. Nossa perspectiva está baseada em utilidade, resiliência e relevância de longo prazo.
A conversa cripto amadureceu
Aline Fernandes: O BNY lançou recentemente o serviço Stablecoin Mint/Burn Enablement. Como os clientes reagiram até agora? Quais casos de uso estão gerando maior demanda e que tipo de feedback mais surpreendeu vocês?
Carlos Xirau: Os clientes estão olhando além das manchetes e concentrando-se em resultados práticos. Eles querem entender onde essas capacidades podem reduzir fricções, aumentar a eficiência e a previsibilidade da liquidação, além de fortalecer a liquidez e a transparência.
A conversa amadureceu. Hoje, trata-se menos de experimentação e mais de resolver desafios concretos nos fluxos operacionais de liquidação, garantias, serviços de ativos e financiamento.
Clientes vão continuar precisando de infraestrutura mais tradicional
Aline Fernandes: À medida que as stablecoins evoluem de instrumentos do mercado cripto para uma infraestrutura financeira essencial, qual papel você acredita que custodiantes globais como o BNY vão desempenhar? Os bancos acabarão se tornando a principal porta de entrada para a adoção institucional ou fintechs e empresas nativas de cripto continuarão liderando a inovação?
Carlos Xirau: Os custodiantes globais podem atuar como facilitadores confiáveis dessa evolução. À medida que os mercados se tornam mais digitais, os clientes continuarão precisando de infraestrutura de nível institucional, resiliência operacional e forte conectividade entre diferentes modelos de mercado.
Enxergamos nosso papel como o de ajudar a transformar a inovação em algo que os clientes possam utilizar em escala, com a confiança e a confiabilidade exigidas pelos mercados institucionais.
Adoção regional e desenvolvimento do mercado global
Aline Fernandes: Recentemente, o banco apoiou o programa de American Depositary Receipts (ADRs) da OranjeBTC no Brasil. Como você avalia o grau de maturidade do mercado latino-americano para produtos financeiros tokenizados? Existem planos para ampliar iniciativas semelhantes com outras empresas na região?
Carlos Xirau: A adoção acontecerá de maneiras diferentes em cada mercado, e isso é natural. As regiões apresentam diferenças em termos de regulação, maturidade da infraestrutura e demanda dos clientes.
No entanto, a direção mais ampla é consistente: os clientes querem acesso mais eficiente, melhores modelos operacionais e maior conectividade. A oportunidade de longo prazo é global, mesmo que a adoção avance em velocidades diferentes em cada mercado.
BNY de olho no futuro dos RWAs
Aline Fernandes: Olhando para os próximos três a cinco anos, qual papel você espera que vocês desempenhem na tokenização de ativos do mundo real (RWAs)? Quais classes de ativos você acredita que alcançarão escala institucional primeiro e quais marcos o mercado deveria acompanhar?
Carlos Xirau: Enxergamos a tokenização como parte de uma transformação mais ampla dos mercados em direção a sistemas financeiros mais digitais, interoperáveis e capazes de operar em tempo real.
O papel da BNY é ajudar os clientes a navegar por essa transformação, oferecendo a infraestrutura e as capacidades necessárias para operar tanto em ambientes tradicionais quanto digitais. Os principais marcos a serem acompanhados são uma regulação mais clara, maior interoperabilidade, avanço da prontidão operacional e adoção mais ampla de casos de uso que ofereçam valor concreto aos clientes.
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