Menor abertura de vagas de trabalho aponta para PIB mais fraco, dizem economistas

O mercado de trabalho abriu 58,6 mil vagas formais, metade das 115 mil projetadas para o mês de julho, o que, segundo economistas, aponta para uma perda de fôlego na atividade. O dado reforça a projeção de baixo crescimento a partir do terceiro trimestre, avalia a XP, mas ainda é cedo para afirmar que aponta uma desaceleração econômica, segundo João Mário de França, pesquisador do FGV Ibre. O resultado do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged) , foi divulgado nesta sexta-feira (28).
Segundo André Valério, economista sênior do Inter, este foi o pior desempenho para um mês de julho desde 2019 e o resultado mais fraco desde dezembro de 2025, período tipicamente afetado por sazonalidade.
“Isso indica que as empresas estão mais cautelosas, mais prudentes. Elas estão vendo que a atividade econômica está caindo, e a demanda pelos seus produtos também começa a se estabilizar ou até cair. O ritmo de contratação começa a ser mais prudente”, explica França, da FGV. Segundo ele, a desaceleração já era esperada para o segundo semestre, mas não nos dados de julho.
Apesar da forte frustração com os números absolutos, o mercado de trabalho ainda não está no vermelho. No acumulado do ano, foram gerados 972 mil postos, o que sustenta a expansão. Leonardo Costa, economista do ASA, pondera que os dados reforçam “a visão de um mercado de trabalho ainda resiliente, mas em processo gradual de arrefecimento”, especialmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico.
A surpresa negativa com a criação de vagas abaixo da projeção reacende as apostas do mercado sobre os próximos passos do Comitê de Política Monetária (Copom). Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, avalia que os dados mais fracos podem fazer aumentar as apostas para uma queda de juros de 0,25 p.p. na próxima reunião do Copom, no fim de setembro, e até mais outra queda de mesma magnitude numa das reuniões seguintes. O Inter compartilha de visão similar, projetando condições para que a taxa Selic seja cortada para 13,25% até dezembro.
Pelo lado da atividade, as projeções de Produto Interno Bruto (PIB), que será divulgado na próxima terça-feira (1), estão sendo revistas para baixo. Margato, da XP, destaca que a perda de fôlego nas admissões corrobora o cenário de estagnação iminente.
“Em nossa avaliação, o crescimento do PIB total ficará próximo de zero no segundo semestre deste ano, após a expansão robusta observada no primeiro semestre”, afirma Margato. A XP projeta que o ritmo médio de criação de vagas cairá de 110 mil ao mês, registrados em 2025, para cerca de 80 mil mensais em 2026.
Comércio é destaque negativo
O enfraquecimento das contratações ocorreu de forma disseminada, mas o destaque ficou com o comércio, que registrou saldo negativo líquido de 2.056 postos de trabalho no mês. A consultoria 4intelligence aponta que o setor comercial já apresenta o pior desempenho no acumulado do ano, pressionado pelo encarecimento do crédito financiado devido aos juros elevados, o que afeta bens duráveis. Entre os fatores estruturais, o avanço do e-commerce, o possível fim da “taxa das blusinhas” e a expansão das bets também ajudam a explicar a retração.
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Na ponta oposta, o setor de serviços liderou a abertura de vagas (24.098 postos), seguido pela construção civil (12.691), agropecuária (12.523) e indústria (11.315).
A região Sul foi a única a registrar saldo negativo no mês, destaca João Mário de França, da FGV, após resultados mais baixos anteriormente. Para ele, o cenário reflete o resultado do embate entre os impulsos fiscais do Governo Federal, que tentam manter a demanda aquecida, e a taxa de juros do Banco Central para conter a inflação.
A XP destaca que os desligamentos avançaram 1,5% na comparação mensal e 0,7% frente ao trimestre anterior. O salário médio de admissão teve leve aumento, de 0,2% na comparação mensal, e de 2% na comparação anual.
A perspectiva é de cautela, segundo Rodolfo Margato, economista da XP. “As incertezas em relação à condução da política econômica a partir de 2027 e eventuais mudanças na escala de trabalho 6×1 podem levar as empresas a adotarem uma postura mais cautelosa, adiando decisões de investimento e contratação”, afirma.
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