Eles parecem reais, mas são de IA: os novos influenciadores da eleição brasileira

Quando a influenciadora política Dona Maria se senta diante de um microfone para contar aos brasileiros o que está errado no país e como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria piorando a situação, seus seguidores prestam atenção a cada palavra.
As contas do supermercado estão disparando, afirma ela. As negociações com Donald Trump revelam incompetência na política externa. Nenhum assunto é proibido para Dona Maria, cujos vídeos acumulam milhões de visualizações e milhares de curtidas.
Vestida de forma simples, a idosa negra parece fazer parte de um grupo demográfico historicamente associado ao eleitorado de Lula. Em vez disso, ela conquistou seguidores no TikTok e no Instagram ao criticar repetidamente o presidente, ampliando seu alcance por meio de entrevistas a veículos de direita e chegando até a motivar aliados de Lula a defenderem a remoção de seu conteúdo.
Há apenas um detalhe: ela não é humana.
Dona Maria é inteiramente criada por inteligência artificial e, faltando apenas dois meses para a eleição presidencial brasileira, ela está longe de ser um caso isolado.
Leia também Banco americano diz que o mercado está otimista demais com o pós-eleição e projeta uma reação em cadeia de desconfiança, dólar mais alto e juros elevados caso o próximo governo apresente um plano fiscal fraco A demanda por opções sobre o Ibovespa e sobre o ETF iShares MSCI Brazil, negociado nos Estados Unidos sob o ticker EWZ, disparou nos últimos dias
Dólar a R$ 6? Morgan Stanley traça cenário negativo sem ajuste fiscal pós-eleições

Operadores ampliam aposta em ações do Brasil conforme cai vantagem de Lula na eleição
O Brasil, que já esteve no centro do debate sobre o uso do X e do WhatsApp na política, tornou-se agora um importante campo de testes para a inteligência artificial durante a campanha eleitoral. A tecnologia já afetou eleições da Europa à Índia, alimentando preocupações com deepfakes e outros conteúdos maliciosos.
A maior economia da América Latina se destaca porque também é uma das democracias mais conectadas e polarizadas do mundo, o que significa que criadores artificiais disfarçados de seres humanos, como Dona Maria, representam um desafio sem precedentes para as autoridades eleitorais.
“A inteligência artificial está levando a política para um território desconhecido”, disse Joscimar Silva, professor de ciência política da Universidade de Brasília. “Ela está tornando as campanhas mais artificiais do que nunca, ao mesmo tempo em que torna mais tênue a linha entre realidade e ficção.”
Os influenciadores criados por IA assumem a aparência de pessoas comuns, como Dona Maria, ou de analistas profissionais. Com Lula e seu rival de direita, Flávio Bolsonaro, a caminho de uma disputa acirrada em outubro, esses perfis se posicionam sobre temas centrais, como criminalidade e economia, além de comentarem sobre os próprios candidatos, alternando entre elogios entusiasmados e críticas severas.
Esses influenciadores são os mais novos integrantes de um ecossistema digital em que criadores de conteúdo se tornaram mensageiros poderosos. No Brasil, o impacto é particularmente relevante devido ao tamanho do mercado de influenciadores e à conhecida paixão nacional pelas redes sociais.
Mais de 150 milhões de brasileiros estão conectados à internet, e 63% seguem influenciadores para se informar sobre notícias e política, segundo a pesquisa LatAm Pulse, realizada pela AtlasIntel em julho para a Bloomberg News. Mais de 70% dos entrevistados disseram acreditar que criadores digitais podem influenciar a forma como as pessoas votam.
De vídeos de compras a tutoriais de cuidados com a pele, os influenciadores se tornaram parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Muitos deles também estão migrando para a política, testando se conseguem moldar não apenas o que as pessoas compram, mas também como votam.
No Brasil, encontram terreno fértil entre eleitores que consomem conteúdo político online regularmente, como Lucianna Lima, estudante de medicina de 23 anos em Brasília. Ela segue vários influenciadores políticos e não perde uma publicação.
“Se for um influenciador político cujas opiniões estejam alinhadas às minhas e com cuja mensagem eu concorde, vou passar a acompanhar suas postagens e vê-lo como uma fonte confiável”, afirmou.
Regras eleitorais
No início deste ano, pesquisadores do Observatório IA nas Eleições identificaram 18 avatares gerados por inteligência artificial participando do debate político online brasileiro.
Pode parecer pouco, mas, diferentemente dos influenciadores humanos, os avatares virtuais não dormem, não precisam de contratos e nem sequer precisam permanecer iguais. Eles podem ser copiados entre várias contas, modificados em poucos minutos e utilizados para produzir infinitas variações da mesma mensagem política.
Isso se tornou uma dor de cabeça para as autoridades brasileiras.
Os reguladores passaram anos endurecendo as regras para influenciadores humanos, incluindo a proibição de campanhas eleitorais pagarem criadores de conteúdo por apoio político. Mas um avatar de IA não pode ser multado, processado ou responsabilizado publicamente. Quando há violação das regras, as autoridades precisam rastrear o conteúdo até as pessoas que o criaram, financiaram ou distribuíram, uma tarefa muito mais difícil quando o mesmo personagem pode ser replicado por toda a internet.
A Justiça Eleitoral brasileira tenta acompanhar esse avanço. As regras exigem que conteúdos eleitorais gerados ou manipulados por inteligência artificial sejam claramente identificados e ampliam o conjunto de materiais que as plataformas devem remover mesmo sem ordem judicial, incluindo alegações falsas sobre urnas eletrônicas, ataques à democracia e violência política contra mulheres.
Ainda assim, os limites dessas regras já começam a aparecer.
Dos 18 avatares identificados pelo Observatório IA nas Eleições, 11 não traziam qualquer aviso informando que o personagem ou seu conteúdo haviam sido criados com inteligência artificial. Além disso, como um único avatar pode ser copiado e reutilizado repetidamente, esses 18 personagens provavelmente representam apenas uma fração do conteúdo político sintético ao qual os brasileiros serão expostos antes da votação.
De avós idosas e mães evangélicas a especialistas em finanças e comentaristas conservadores, personagens criados por IA começam a ocupar nichos antes dominados por humanos, frequentemente dificultando a distinção entre ficção e realidade.
Embora Dona Maria não seja humana, quem controla a personagem é: Daniel Santos, motorista de aplicativo de 38 anos, morador do Rio de Janeiro.
Em um país onde homens como Santos estão migrando rapidamente para a direita, motoristas de aplicativo anti-Lula são relativamente comuns. A IA permitiu que ele adotasse uma identidade capaz de se destacar sem precisar revelar o próprio rosto.
“Posso ser uma personagem, mas os sentimentos são reais”, diz Dona Maria em um vídeo.
Na conta de Instagram onde publica os conteúdos da personagem, Santos também anuncia vídeos produzidos por IA para empresas e oferece cursos ensinando outras pessoas a criar esse tipo de conteúdo. Ele não respondeu a um pedido de entrevista para esta reportagem.
A inteligência artificial também vem ganhando espaço em grandes eventos políticos.
Uma versão digital de Jair Bolsonaro apareceu em um telão durante o lançamento da campanha presidencial de seu filho Flávio, em julho, uma cena marcante considerando que o ex-presidente está inelegível e em prisão domiciliar após ser condenado por envolvimento em uma tentativa de golpe.
“O que vocês estão vendo aqui não sou eu”, disse um Jair Bolsonaro gerado por IA em um vídeo de 46 segundos. “É uma simulação da minha imagem e da minha voz.”
O episódio chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), onde o PT questiona a campanha de Flávio Bolsonaro pelo suposto uso de vídeos, imagens e áudios produzidos por inteligência artificial. Segundo o partido, parte desse material é inicialmente impulsionada por contas anônimas antes de chegar a páginas ligadas a parlamentares e ao próprio candidato.
O caso é visto como um teste para mostrar como a Justiça Eleitoral pretende fiscalizar o uso da inteligência artificial nesta campanha. Uma decisão, esperada para breve, poderá estabelecer um precedente importante para futuras disputas envolvendo conteúdo político gerado por IA, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.
Mais caos
Para alguns brasileiros, a capacidade de influência do conteúdo político online afeta apenas outras pessoas. A pesquisa LatAm Pulse mostrou que dois terços dos entrevistados acreditam que influenciadores não terão impacto sobre seus próprios votos neste ano.
Ainda assim, para a psicóloga comportamental Débora Gonçalves, que mantém consultório em Curitiba, a ideia de que as pessoas são imunes às mensagens online é mais mito do que realidade.
Segundo ela, os seres humanos são constantemente moldados pelas informações e pelos ambientes aos quais estão expostos. A diferença atual é que conteúdos que antes chegavam por jornais, rádio ou televisão agora são transmitidos por personalidades digitais.
“Todo ambiente ao qual somos expostos nos influencia, e nem sempre percebemos até que ponto”, afirmou.
José Henrique Lavocat, advogado especializado em legislação eleitoral, avalia que ainda é cedo para saber se a inteligência artificial fortalecerá ou enfraquecerá a democracia.
“No curto prazo, porém, há pouca dúvida de que ela tornará a fiscalização eleitoral mais complexa e a vida cívica mais caótica”, disse
© 2026 Bloomberg L.P.


















