Coamo amplia financiamento a produtores para crescer diante de ‘tempestade perfeita’
O setor de grãos passa por uma "tempestade perfeita", com produção elevada de soja e milho, preços pressionados, custos que não recuaram na mesma proporção e juros ainda altos, segundo a avaliação de Airton Galinari, presidente da Coamo, uma das maiores cooperativas agroindustriais da América Latina.Em um momento em que juros elevados e margens menores restringem o crédito no agronegócio, a capitalização acumulada pelo grupo ao longo de mais de cinco décadas passou a funcionar como uma vantagem na cooperativa, sobretudo em duas frentes: no financiamento dos associados e na expansão dos negócios.A cooperativa mantém cerca de R$ 9 bilhões em sua conta corrente com os 33 mil associados, inclusive em operações relacionadas à compra de insumos com pagamento depois da colheita.“A cooperativa primou por uma estratégia de capitalização desde a sua origem”, disse Galinari em entrevista à Bloomberg Línea. ⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.Fundada em 1970, em Campo Mourão (PR), por 79 agricultores, a Coamo cresceu mantendo parte dos recursos dentro da própria cooperativa.“Essa capitalização, é claro, virou investimentos, viraram indústrias, viraram todas as unidades operacionais que a gente tem.”Outra frente passa pela maior industrialização da companhia com foco nos grãos. A cooperativa prepara duas novas fábricas, de etanol de milho e biodiesel, enquanto amplia sua estrutura de armazenagem e avança sobre ativos no Paraná, explica Galinari.Em 2025, a Coamo somou receita de R$ 28,7 bilhões e sobra líquida superior a R$ 2 bilhões, segundo dados já divulgados pela cooperativa. O recebimento de grãos cresceu 19,7% no período, para 9,6 milhões de toneladas.Na avaliação de Galinari, o contexto econômico complexo ajuda a explicar o aumento das recuperações judiciais e extrajudiciais no setor e uma postura mais seletiva dos bancos na concessão de crédito.“É um mercado de muita oferta, preços mais baixos, insumos não tão baixos assim, margens apertadas”, afirmou. “Em que o produtor tem que fazer muita gestão mais do que o usual”.Leia também: Crise da Raízen expõe limites do ciclo de investimentos em etanol no BrasilÉ justamente nesse ambiente que a Coamo tem ampliado seu papel no financiamento da safra dos associados. Para o ciclo 2026/27, parte dos produtores já comprou sementes, fertilizantes e outros insumos da cooperativa, com pagamentos que começam em dezembro e, em muitos casos, ficam concentrados em abril e maio de 2027, depois da colheita.“A cooperativa está, em grande parte, fazendo esse papel de suporte financeiro para os associados”, disse Galinari. Nós compramos insumos para eles, que pagam no futuro”, afirmou.A capitalização da cooperativa também abriu espaço para aproveitar ativos que chegaram ao mercado com as dificuldades financeiras de outros grupos. Em janeiro, a cooperativa pagou R$ 136 milhões por quatro estruturas de armazenagem no Norte do Paraná que pertenciam ao Pátria e eram utilizadas pela Belagrícola e também adquiriu uma unidade de beneficiamento de sementes em Tamarana.Leia também: Pressão do agro dos EUA por gasolina com mais etanol chega a votação decisiva“Muita gente entrou em dificuldade nesse período”, afirmou Galinari. “Tem muita oferta no mercado. Quem está capitalizado está bem para comprar agora.”Foco na soja, no milho (e no trigo)A operação da cooperativa está concentrada principalmente em soja, milho e trigo. Segundo Galinari, a Coamo recebe cerca de 6 milhões de toneladas de soja e 4 milhões de toneladas de milho por ano, além de 300 mil a 400 mil toneladas de trigo.A cooperativa industrializa cerca de metade da soja e pouco mais da metade do trigo. No milho, porém, a parcela processada ainda é pequena, - o que ajude a entender justamente o interesse da empresa no etanol.“Trouxemos o etanol para dentro da empresa como uma alternativa de verticalização do milho, de agregar valor, já que a gente não opera com proteína animal”, disse Galinari.A fábrica em construção em Campo Mourão, no Paraná, deverá consumir entre 600 mil e 650 mil toneladas de milho por ano, equivalente a aproximadamente a 16% do volume recebido dos cooperados.Leia também: Como a cooperativa vinícola mais antiga do Brasil quer escapar da lógica das commoditiesSegundo Galinari, pouco mais de metade da obra já foi executada e a conclusão é prevista para março de 2027.A Coamo também anunciou R$ 64,2 milhões em investimentos para ampliar a armazenagem, dos quais R$ 60,5 milhões serão financiados pelo BNDES. Parte será destinada a cinco novos silos em Campo Mourão, com capacidade conjunta de 32,7 mil toneladas e voltados ao abastecimento da nova indústria.A fábrica foi desenhada para permitir uma eventual duplicação, mas os planos ainda não foram completamente acertados. Segundo Galinari, a cooperativa pretende primeiro entender melhor o mercado de etanol e de DDG, coproduto usado na alimentação animal.“Nesses três primeiros anos, vamos entender bem o mercado de DDG, o mercado de etanol, avaliar se realmente é algo que vale a pena colocar”, afirmou. Em paralelo, a Coamo iniciou a construção de uma fábrica de biodiesel em Paranaguá, onde já processa soja. A unidade terá capacidade de mil toneladas por dia e foi dimensionada considerando uma futura ampliação do esmagamento no local.Ciclo completoA verticalização é parte de um modelo que tem ganhado forma na companhia e que combina fornecimento de insumos, originação, armazenagem, industrialização, comercialização, logística e exportação.“Temos um bom controle da originação, da logística e transformação e da exportação”, afirmou Galinari.Hoje, cerca de 60% do faturamento da Coamo está relacionado à venda de grãos, farelos e óleo bruto, para os mercados doméstico e externo. Outros 30% vêm do fornecimento de insumos aos cooperados, enquanto aproximadamente 10% correspondem aos negócios de varejo.A soja tem forte exposição ao mercado externo, inclusive à China, enquanto o milho tem destinos mais pulverizados entre mercado doméstico e exportação para Ásia, África e Oriente Médio, conta o executivo.A estrutura portuária é uma peça desse desenho. A Coamo opera terminal próprio em Paranaguá, onde renovou o contrato de arrendamento por mais 25 anos e prevê novos investimentos em armazenagem. A cooperativa também desenvolve um projeto portuário em Itapoá, em Santa Catarina.Para 2026, o executivo espera que a receita se mantenha em linha ou um pouco acima da registrada no ano passado, com contribuição das expansões recentes e, mais adiante, das novas indústrias.“Enxergamos um futuro de crescimento. Claro, um crescimento mais alinhado com a realidade do mercado”, disse.


















