Esfiha de juros: Habib’s entra em RJ com dívidas de R$ 265 milhões

Até a esfiha azeda neste País.
Dois meses depois de entrar com uma cautelar contra os credores, o Grupo Gennius – dono das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendal – entrou em recuperação judicial listando R$ 265,2 milhões em dívidas.
O pedido foi feito no domingo e foi deferido ontem pelo juiz Jomar Juarez Amorim, da 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
Segundo uma fonte próxima à companhia, o Bradesco é o principal credor da RJ, concentrando cerca de 40% dos créditos. Outros bancos incluem Daycoval, Original e Inter.
O Gennius agora terá 60 dias para apresentar seu plano, quando deverá detalhar como pretende reestruturar as dívidas e quais condições serão oferecidas aos credores.
A recuperação é um desdobramento da tutela cautelar que o grupo havia pedido no final de junho para ganhar tempo e negociar uma reestruturação com os bancos.
A cautelar deu a proteção que o Gennius buscava, mas não foi suficiente para chegar a uma solução para a dívida. “É muito difícil uma empresa que entra com cautelar não entrar em RJ, então foi um caminho natural,” uma fonte disse ao Brazil Journal.
A RJ também deve mudar a dinâmica das conversas com os bancos.
Até agora as negociações eram feitas individualmente com cada credor, num processo que pessoas próximas à companhia consideravam “pouco produtivo”.
Com a recuperação, os principais credores passam a negociar dentro de um processo coletivo. Uma fonte disse que as conversas com os bancos já estão bastante avançadas.
A tese de pessoas próximas ao processo é de que o Habib’s tem um problema financeiro e não operacional.
Segundo essas fontes, a companhia continua gerando caixa e não prevê um grande plano de fechamento de lojas.
A dona do Habib’s sempre foi conhecida por sua estrutura verticalizada – e essa complexidade pode ser vista na RJ.
Entraram na recuperação 10 franqueadoras e holdings, 17 empresas operacionais, seis churrascarias Tendal, 119 lojas Habib’s e 26 Ragazzo.
A estrutura vai muito além dos restaurantes. O Gennius tem indústrias, laticínios e panificadoras e mantém dentro do grupo atividades que vão da produção de insumos ao delivery, call center e marketing.
Também entraram na RJ Antonio Alberto Saraiva, fundador do Habib’s, e seu irmão Belchior Saraiva Neto, incluídos no processo como produtores rurais.
Os irmãos são donos da Estância Santa Edina, uma propriedade rural herdada em 1977 onde criam gado. Segundo o grupo, a atividade rural é integrada à operação do Gennius.
Alberto e Belchior também deram aval a diversas operações financeiras da companhia. Segundo uma fonte próxima ao grupo, a inclusão dos dois na recuperação busca proteger ativos em seus nomes que são vinculados à operação de eventuais execuções dos credores.
O Gennius atribui sua crise a uma combinação de pandemia, mudança nos hábitos de consumo e, principalmente, alta dos juros.
Boa parte das dívidas foi contraída durante a pandemia e ficou muito mais cara com a alta da Selic.
Com isso, uma parcela cada vez maior do caixa gerado pela operação passou a ser consumida pela dívida, reduzindo o capital de giro e chegando a provocar atrasos com alguns fornecedores.
O avanço do delivery também mudou a dinâmica do negócio. Durante e depois da pandemia, uma parcela maior das vendas migrou para plataformas como o iFood, pressionando especialmente as lojas próprias por causa do take rate das companhias de delivery.
Para completar, um dos principais embates durante a reestruturação envolveu as chamadas “travas bancárias.”
Em algumas operações de crédito, o Gennius deu recebíveis – como o dinheiro das vendas feitas com cartão – como garantia aos bancos. Na prática, parte desse dinheiro passa pelas instituições financeiras e ficava retido para amortizar as dívidas.
O grupo tentou impedir que esses recursos fossem tomados pelos bancos durante a reestruturação. O pedido foi inicialmente negado em primeira instância, mas a companhia conseguiu reverter a decisão no Tribunal.
Na petição, o Gennius cita o risco de interrupção de serviços de água, energia, telefone, internet, planos de saúde e até dos serviços de nuvem da Oracle, usados para armazenamento e processamento de dados da companhia.
A reestruturação deve ser mais amigável com os fornecedores. Segundo uma fonte, para aqueles que continuarem abastecendo o grupo, a ideia do plano em discussão prevê zero haircut, com um alongamento dos pagamentos.
O Gennius também diz que pretende reorganizar sua estrutura societária e continuar abrindo pontos e novos formatos de loja mais adaptados ao delivery, drive e consumo em viagem.
Os R$ 265,2 milhões sujeitos à RJ, no entanto, não representam todo o endividamento financeiro do grupo: a própria companhia diz ter mais de R$ 300 milhões em dívidas bancárias.
Parte dessa diferença está numa dívida imobiliária estruturada por meio de um CRI administrado pela JiveMauá, que ficou fora da recuperação e continuará sendo paga normalmente. A operação tem fluxo próprio de aluguéis, prazo longo e uma taxa abaixo do CDI.
O CRI já tinha prazo longo e condições consideradas favoráveis pelo grupo, e seus credores deram waiver tanto para a cautelar quanto para a recuperação judicial.
A KPMG foi nomeada administradora judicial e terá 15 dias para apresentar um primeiro diagnóstico da situação das empresas.
O Gennius está sendo assessorado juridicamente pelo Galdino Advogados. A Laplace é a assessora financeira da reestruturação.
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