Enchente no Nepal pode ter sido provocada por ruptura de geleira, dizem cientistas

As enchentes fatais que atingiram o Nepal nesta quarta-feira (26) provavelmente foram desencadeadas, ao menos em parte, pelo desprendimento de um enorme bloco de gelo de uma geleira, que despencou milhares de metros até o vale abaixo, segundo uma avaliação preliminar de um grupo de geólogos e glaciologistas. O fenômeno é conhecido como avalanche de gelo.
“Parece que uma geleira na região simplesmente se rompeu de forma limpa, permitindo que uma enorme massa caísse por mais de um quilômetro em linha vertical até o fundo do vale”, disse Daniel Shugar, geólogo da Universidade de Calgary, no Canadá, que analisou imagens de satélite para investigar o ocorrido.
“A parte inferior parece o local onde uma bomba explodiu. O que se vê são apenas depósitos deixados pela geleira fragmentada”, afirmou.
Shugar ressaltou, no entanto, que ainda é cedo para descartar outros fatores que possam ter contribuído para as enchentes repentinas. Centenas de pessoas seguem desaparecidas no Nepal e no Tibete, território chinês, após as águas avançarem pelos vales fluviais na manhã de quarta-feira. Cientistas disseram que o aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas pode ter acelerado o colapso da geleira, mas ainda não é possível determinar a causa exata.
Em toda a cordilheira do Himalaia, que aquece rapidamente, o derretimento das geleiras tem ampliado os riscos de avalanches e terremotos provocarem destruição ao liberar enormes volumes de água.
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Na quarta-feira, um bloco de gelo com cerca de 600 metros de largura se desprendeu da geleira, segundo Shugar, lançando uma mistura de gelo e água para o fundo do vale. Pelos cálculos dele, a massa de gelo caiu de uma altitude de cerca de 5.180 metros, despencando aproximadamente 1.200 metros.
“Trata-se de uma enorme quantidade de gelo armazenada em grande altitude, com enorme energia potencial acumulada”, disse Simon Cook, glaciologista da Universidade de Dundee, na Escócia, que também participou da análise das imagens de satélite. Quando a massa se desprende, acrescentou, a força da queda transforma o gelo em uma mistura extremamente perigosa e veloz.
“Esse gelo é praticamente pulverizado e se transforma em água”, afirmou.
De acordo com a análise do grupo, o fluxo de gelo avançou para noroeste ao longo do vale em direção ao rio Bhotekoshi, na fronteira entre o Nepal e o Tibete.
Cook afirmou que a avalanche de gelo lembra um evento semelhante ocorrido na Índia em 2021, quando o rompimento de uma geleira no Himalaia provocou grandes inundações no estado de Uttarakhand e matou mais de 100 pessoas.
Kristen Cook, geomorfóloga da Universidade Grenoble Alpes, na França, afirmou que sensores sísmicos da região registraram o deslocamento repentino de uma grande massa por volta das 8h40 no horário local. Logo em seguida foi detectado um “sinal de fluxo”, típico de inundações.
“Vejo um sinal bastante forte no início do evento, mas não parece se tratar de um terremoto”, afirmou. “Quando combinamos essa informação com o que sabemos da região e com as imagens de satélite, chegamos à interpretação preliminar de que o mais provável é que tenha ocorrido uma avalanche de rocha e gelo, que se transformou em um fluxo de água à medida que avançava rio abaixo.”
Por volta desse horário, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou tremores de magnitude 4,4 na região. Os cientistas ainda analisam se a força da avalanche pode ter provocado esses tremores.
O USGS informou que avalia se existe alguma relação entre o abalo sísmico e o deslizamento.
William Barnhart, coordenador-adjunto do Programa de Perigos Sísmicos do USGS, afirmou que é possível que um terremoto tenha provocado o deslizamento ou que o próprio deslizamento tenha gerado um sinal sísmico semelhante ao de um terremoto.
“Também existe a possibilidade de ter ocorrido um terremoto e um deslizamento ao mesmo tempo, sem qualquer relação entre eles”, disse.
Embora os dados meteorológicos completos ainda não estejam disponíveis, Shugar afirmou que imagens de satélite mostram um rápido desaparecimento da cobertura de neve no dia anterior, indicando temperaturas mais elevadas que podem ter contribuído para o derretimento da geleira e para a avalanche de gelo.
Ele acrescentou que as condições de céu encoberto dificultam a obtenção de imagens de satélite mais recentes e que a compreensão das causas da tragédia deverá ficar mais clara nos próximos dias.
Shugar também destacou que ainda é cedo para descartar outros fatores.
“A quantidade de água vista nos vídeos é impressionante, uma ordem de magnitude superior à observada em outros desastres glaciais recentes”, disse. “É perfeitamente possível que exista outro fator envolvido.”
c.2026 The New York Times Company


























