Mercado Livre (MELI34) surfa otimismo e reforça caixa com US$ 1,5 bi, mas ações tombam; o que está em jogo?

Essa é a primeira oferta primária em quase três anos. Em 2019, companhia levantou US$ 1 bilhão para fomentar crescimento

Mercado Livre (MELI34). Foto: Divulgação

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Na calada da noite da última segunda-feira (15), o Mercado Livre (MELI34) anunciou que fará uma oferta subsequente de ações (follow-on). Segundo o site Brazil Journal, a operação atingirá até US$ 1,5 bilhão (cerca de R$ 8,17 bilhões na cotação atual).

Essa é a primeira oferta primária, quando a empresa vende novas ações, do Mercado Livre em quase três anos. Em 2019, a companhia levantou US$ 1 bilhão para fomentar seu crescimento — o que deu certo.

Desde então, o valor de mercado da companhia mais que triplicou, saindo de US$ 22 bilhões para US$ 80 bilhões, na Nasdaq. Recentemente, inclusive, o Mercado Livre ultrapassou a Vale (VALE3) e atingiu o posto de empresa mais valiosa da América Latina.

O mercado ainda digere a operação, realizando os recentes lucros. Por volta das 12h, as ações da empresa negociadas no mercado americano recuavam 5,29%, para US$ 1.546. Os BDRs da empresa, por sua vez, caíam 1,09% na B3, para R$ 70,70.

O que esperar do Mercado Livre?

A empresa não revelou como pretende alocar os recursos, mas, em um primeiro momento, ele virá para recuperar o caixa. 

O balanço da companhia mostra que, em 30 de setembro, o caixa era composto por US$ 1,42 bilhão entre recursos livres e restritos, ambos de curto prazo. O montante é menor que os US$ 2,50 bilhões de 30 de dezembro de 2020. 

Ao mesmo tempo, é esperado que o Mercado Livre não tire o pé do acelerador dos investimentos. Somente no Brasil, o objetivo é investir até R$ 10 bilhões até o fim deste ano. 

Por um lado, a operação é bem vista, pois reforça o caixa do Mercado Livre, que tem se mostrado efetivo na alocação de recursos. Por outro, as informações sobre a oferta ainda não estão claras, o que indica que os atuais investidores podem ser diluídos, o que nunca é uma boa notícia e pressiona as ações nesta sessão.

Leia também:   Magazine Luiza (MGLU3), Méliuz (CASH3) e Totvs (TOTS3): o que tem acontecido com as empresas de tecnologia na Bolsa?

Mercado livre faz uso da liquidez enquanto há tempo

Essa não será a primeira captação da varejista neste ano. As outras, porém, foram realizadas no mercado de dívida. Em janeiro, a empresa levantou US$ 400 milhões com um green bond. Também captou US$ 700 milhões com uma dívida simples, que vence em 2031. 

O anúncio do follow-on vem na esteira da divulgação do resultado da companhia no terceiro trimestre deste ano. Os números, apresentados no início de novembro, pegaram o mercado de surpresa positivamente, reforçando a tese de crescimento acelerado. 

Agora, o MELI, que disse que fará uso dos recursos “para propósitos corporativos gerais”, aproveita o bom momento das ações negociadas no mercado americano — que sobem mais de 10% no mês, embora recuem 5% no ano — para levantar dinheiro com investidores.

Ações do Mercado Livre nos últimos 18 meses

Ações do Mercado Livre nos últimos 18 meses. Foto: TradeMap
Fonte: TradeMap

Vale a pena pagar antes do crescimento?

O value investor que sentar para analisar o Mercado Livre ficará com uma pulga atrás da orelha. A varejista, que se confunde com uma empresa de tecnologia, negocia a múltiplos que, à primeira vista, assustam.

Hoje, a empresa de origem argentina é cotada a 1.034 vezes o lucro dos últimos 12 meses. O valor patrimonial por ação, resultado da relação entre o patrimônio líquido e o número de ações, está em 2,49 vezes, o que também não é uma barganha. 

Mas, para uma empresa de altíssimo crescimento, essas não são as métricas mais assertivas. O mercado tem olhado cada vez mais para o crescimento top line, ou seja, qual é a base de usuários e, consequentemente, como é gerada receita sobre essa base de clientes.

O Mercado Livre terminou setembro com 78,7 milhões de usuários únicos e ativos. O valor bruto de mercadoria (GMV, na sigla em inglês) subiu 23,9% em 12 meses, para US$ 7,31 bilhões. 

De acordo com as estimativas compiladas pelo Refinitiv, disponíveis na plataforma do TradeMap, de 24 analistas que acompanham a empresa, 21 recomendam a compra dos papéis — sendo que três deles indicam que os investidores o façam com urgência. Apenas três especialistas entendem que o melhor a se fazer é manter as ações em carteira.

Foto: TradeMap
Fonte: TradeMap

Porém, conforme mostram as estimativas compiladas pelo Refinitiv, o valor da empresa está no futuro. Mesmo no curto prazo, a resposta já deve aparecer. 

As avenidas de crescimento devem fazer com que o lucro por ação (LPA) da empresa atinja US$ 7,29 em 2022, segundo as projeções.

Com isso, atualmente as ações do Mercado Livre negociam a 201 vezes o lucro esperado para o ano que vem, múltiplo cinco vezes menor do que o vigente. O Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) estimado para 2022 aponta para robustos 60,44%. 

Mercado Livre quer consolidar liderança digital

A recomendação de compra de Mercado Livre leva em consideração o pacote completo. Não se trata apenas do intermédio entre compradores e vendedores de forma on-line. 

O valor total transacionado (TPV) foi um dos destaques do período entre julho e setembro. O crescimento foi de 43,93% frente ao terceiro trimestre do ano passado, atingindo US$ 20,87 bilhões. 

A métrica inclui o total transacionado utilizando o Mercado Pago, carteira digital da empresa, sendo no marketplace ou não. O crescimento contratado, sobretudo no âmbito digital, justifica o otimismo dos investidores e coloca a empresa à frente das concorrentes. 

No Brasil, principal mercado consumidor da empresa, o MELI compete diretamente com as varejistas Magazine Luiza (MGLU3), Via (VIIA3) e Americanas S.A (AMER3), que enfrentam problemas trabalhistas, de desaceleração dos resultados e transição operacional, respectivamente. 

No país, a receita do Mercado Livre mais do que dobrou de tamanho na comparação trimestral, em todos os trimestres desde o período entre julho e setembro do ano passado. No terceiro trimestre deste ano, o crescimento foi “pequeno”, de 69%. 

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