Poupança tem retirada recorde de R$ 33 bilhões em janeiro

Inflação e juros em alta explicam a sangria; redução do saldo da caderneta pode afetar os financiamentos imobilários

Foto: Shutterstock/Andrii Yalanskyi

A poupança registrou resgate líquido de R$ 33 bilhões em janeiro, o maior volume já registrado para um único mês, segundo mostrou o Banco Central (BC) nesta segunda-feira (6). O recorde anterior havia ocorrido em agosto de 2022, quando saíram R$ 22 bilhões.

Essa sangria de janeiro é fruto dos saques de R$ 334,4 bilhões que superaram os depósitos, que foram de R$ 300,8 bilhões.

Os resgates da poupança ocorrem em volume elevado desde 2022, quando no ano houve R$ 103,2 bilhões de resgate líquido. Dos 12 meses de 2022, em dez os resgates superaram os aportes.

Tradicionalmente, janeiro é um mês em que os poupadores tiram dinheiro das contas, dado que as famílias têm que fazer frente a um número maior de compromissos financeiros, como o pagamento de viagem de férias, impostos e material escolar. No entanto, o volume de retiradas foi proporcionalmente acima do registrado em outros anos.

“Janeiro ser sempre deficitário explica só uma parte desse déficit. Há outros fatores. Um deles é o rendimento da poupança e o outro é a situação econômica do país”, diz Alberto Ajzental, professor do curso Desenvolvimento de Negócios Imobiliários da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

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Isso tem levado a uma migração de recursos da tradicional caderneta para outros instrumentos, como os papéis bancários (CDBs, LCIs e LCAs) e fundos de renda fixa.

Além disso, há um aperto na renda de parte das famílias como efeito da inflação, o que também faz com que elas recorram às economias.

“As pessoas precisam retirar da poupança para complementar renda. Já quem tem dinheiro, vai para aplicações melhores”, conclui.

Esses fatores explicam o mês de janeiro de 2023 ter tido um volume de saques tão alto. Os R$ 33 bilhões representam 3,36% do saldo da poupança em dezembro de 2022. Em janeiro do ano passado, o resgate líquido foi equivalente a 1,90% do saldo do mês anterior. Em outros meses de janeiro, a taxa também havia sido menor: de 1,75% em 2021 e de 1,46% em 2020.

Financiamento imobiliário

A poupança é a principal fonte de recursos para o financiamento imobiliário. Os bancos precisam obrigatoriamente destinar 65% do saldo da caderneta para esse fim. Se esse saldo cai, caem junto os recursos para a compra da casa própria.

Em janeiro, o saldo do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), que é a parte da poupança que vai para os financiamentos imobiliários, era de R$ 742,3 bilhões, uma queda de 4,65% em 12 meses, ou R$ 36,2 bilhões.

A continuidade dessa queda pode fazer com que os bancos coloquem um freio nos financiamentos imobiliários com essa fonte de recursos. A alternativa seriam os recursos de mercado, mais caros.

A taxa de juros do financiamento imobiliário com recursos direcionados, como o da poupança, era de 10,4% ao ano em dezembro. Já o com recursos de mercado, a taxa média era de 11,8%, segundo dados do BC.

“Se a retirada forte continua, ter uma alternativa à poupança fica mais urgente. Esses resgates fazem o SBPE se exaurir”, conta Ajzental.

A reversão dos saques da poupança, ou seja, voltar a entrar mais dinheiro do que sai, só deve ocorrer quando a inflação e Selic cederem, o que não está no horizonte de curto prazo.

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