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Veja três motivos que atraem investidor gringo ao Brasil, na visão da gestora Western

Veja três motivos que atraem investidor gringo ao Brasil, na visão da gestora Western

Bancos, petroleiras, mineradoras e siderúrgicas têm sido as mais atrativas para os "gringos", diz gestor

Projeção de globo terrestre

Foto: Shutterstock

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O cenário mais claro para os juros, a Bolsa relativamente barata e as tensões geopolíticas em outros países emergentes tornam o Brasil um destino atraente para os investidores estrangeiros, segundo Cesar Mikail, gestor de renda variável da Western Asset. A instituição gerencia US$ 493,6 bilhões em ativos mundialmente.

O fluxo de investimento estrangeiro no mercado brasileiro, que vem subindo desde outubro do ano passado, disparou em janeiro deste ano, quando R$ 28 bilhões vindos do exterior entraram no Brasil. E é este fluxo que tem sustentado o Ibovespa.

O principal índice da Bolsa de valores brasileira acumula alta de 10% desde o início do ano – na contramão de seus pares no exterior, que têm demonstrado tendência de queda. O S&P 500, por exemplo, principal índice de ações dos Estados Unidos, apresenta desvalorização de 6% neste ano.

Ainda que o Ibovespa venha registrando altas, a performance dos ativos não é homogênea. As maiores altas do índice desde o início do ano são dos papéis de maior peso, os chamados large caps, que atraem o investidor estrangeiro por estarem descontadas em relação a seus pares internacionais; por sua exposição a commodities, que vivem um bom momento; e por seu histórico comprovado, segundo Mikail.

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A B3 (B3SA3), por exemplo, lidera as altas do Ibovespa, com valorização de 31,5% desde o início do ano, acompanhada no top 5 por outros pesos-pesados como Itaú (ITUB4), que ganhou 26,5%, e Banco do Brasil (BBAS3), com avanço de 22,5%.

Veja a seguir a entrevista completa com o gestor.

O que explica esse movimento do fluxo estrangeiro para o Brasil?

Alguns pontos, não necessariamente nessa ordem. O primeiro deles é que o Brasil fez a lição de casa antes. Não só o Brasil, mas alguns emergentes fizeram a lição de casa, no sentido de antecipar o ciclo de aperto monetário.

Nós entramos em 2021 com uma taxa de juros próxima a 2%, terminamos 2021 com uma taxa próxima a 10% e estamos indo, provavelmente, para 12% ou 12,5%.

Isso dá um conforto para o investidor, que não teria surpresa com juros, porque já está no preço. A bolsa já caiu, já houve correção por conta dos ajustes e de desaceleração econômica.

O segundo aspecto é que a nossa bolsa vem descontada desde o meio do ano passado, e um dos motivos é que começamos a fazer o ajuste. Então os ativos corrigiram. Com essa correção, ficamos dois desvios padrões abaixo da média de desconto do EWZ, que é nada mais do que o Ibovespa em dólar, contra o S&P 500.

E o investidor olha dessa maneira. Ele olha para a quanto a bolsa brasileira está sendo negociada em relação não só ao S&P 500. Quando olhamos contra o S&P, que é o mais observado, vínhamos com dois desvios padrões abaixo de desconto.

Isso também está nas ações. Quando olhamos para bancos, Petrobras, PetroRio, 3R, Vale, mineradoras, siderúrgicas… Todas as empresas que não são de growth, mas de value, estavam bem descontadas. Ainda estão. Esse é mais um ponto que atrai o investidor.

Tem um outro ponto ainda, que é a alocação entre países. Falando do investidor europeu: quando começaram os movimentos das tropas da Rússia para cima da Ucrânia, aumentou a chance de guerra e o investidor começou a fazer um movimento de baixar a alocação dele em Rússia, que é um país emergente, para se deslocar para outros países emergentes. Lembrando que México andou bem.

Então os investidores pensam: qual é outro país grande, que tem liquidez, para eu entrar? Brasil. E ainda por cima está descontado. Tem um movimento vindo da China também.

E por último, falando da eleição, que deveria trazer volatilidade. Os investidores conhecem os dois candidatos que têm alta probabilidade de estar no segundo turno, e acreditam que os dois devam caminhar para o centro. Esse é o discurso do investidor estrangeiro. Então tira aquela preocupação com a eleição, porque eles já sabem mais ou menos o que esperar.

Tem uma outra linha de argumentação, mas aí eu tenho as minhas dúvidas, que diz que os investidores estão desalocando do mercado desenvolvido, que andou bem, para alocar um pouco mais em emergentes.

Falando em Bolsa de valores, para onde está indo esse capital?

Os setores que estão recebendo mais investimento são aqueles que chamamos de large caps. Aí entra o setor de bancos, com muito alocação em Bradesco, Itaú, Santander, todos os bancos. Também teve muita entrada na B3, que estava muito descontada em relação às bolsas do mundo.

Tem muito fluxo também para ativos relacionados com commodities. Por que commodities? Primeiro que o preço do petróleo está lá em cima.

Temos visto negociações, inclusive, dos Estados Unidos com o Irã, para tirar algumas sanções para que entre mais petróleo no mercado. Mas eu não vejo isso dando um grande alívio em um curto espaço de tempo, então acho que o preço ainda vai ficar pressionado, o que sustenta as empresas de petróleo, que estão descontadas.

Outro fator é a China, que está em um contraciclo, estimulando a economia, e vimos o preço de minério voltar a patamares fortes novamente. O minério de ferro chegou a bater US$ 80, hoje está ao redor de US$ 150. Isso sustenta as empresas de minério. Com o governo estimulando o setor, é natural que o investidor vá nesses ativos. Em proteínas é a mesma coisa. Tem um deslocamento também para outras large caps de que o investidor gosta, como Ambev e Lojas Renner.

Por outro lado, o investidor ainda está reticente com as empresas de growth, como as empresas de e-commerce, que têm um fluxo de caixa mais longo que, trazendo a valor presente, com a subida de juros, foram bem penalizados, não só aqui como lá fora também.

O investidor tem ido muito mais para essas companhias que chamamos de value, que já estão aí há bastante tempo, que já têm o fluxo de caixa certinho. E como essas empresas têm um peso grande no índice Ibovespa, acabaram puxando o índice para cima.

Foram essas empresas que puxaram o índice. Desde o início do ano, em um mês e pouco, os bancos subiram cerca de 15% a 16%. Petrobras subiu 16% no ano. Então é praticamente isso.

E ainda, esses papéis estão descontados. Realmente está atrativo. Quando começamos a ter a puxada de juros, houve um deslocamento do investidor de renda variável, de ações, para a renda fixa. Então houve saques nos fundos dedicados a ações, desde a metade do ano passado, o que abriu esse desconto da Bolsa contra o S&P.

Considerando que os papéis continuam descontados, esse fluxo deve continuar?

Os desvios fecharam um pouco, mas estamos a pelo menos um desvio da média histórica do S&P contra o EWZ. E alguns papéis estão com dois desvios para baixo.

O fluxo deve continuar. Pode não ser na mesma magnitude de janeiro, em fevereiro pode ser menos, mas deve continuar.

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