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Universidades pegam gosto pelo EAD e querem reforçar estratégia online

Universidades pegam gosto pelo EAD e querem reforçar estratégia online

O ensino à distância, porém, gera uma receita menor e pode resultar em uma maior evasão de alunos

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Há dois anos, quando a pandemia começou e a maior parte das pessoas foi forçada a ficar em casa, as empresas de educação tiveram de se “virar nos 30” e improvisar às pressas uma estrutura mais robusta de ensino a distância, o chamado EAD. 

O que no início parecia uma solução provisória, contudo, representou a antecipação de uma tendência, em especial para o ensino superior, e se transformou em um negócio estratégico. 

Ainda que a pandemia pareça estar perto do fim e as pessoas já tenham voltado às ruas, as companhias estão dispostas a seguir com força no ensino a distância, mas sem deixar de lado o ensino presencial e o modelo que surgiu da mistura dos dois, o chamado híbrido. 

O EAD se tornou uma alternativa mais prática para muitos alunos. E as companhias perceberam que o ensino a distância proporcionava margens de lucro maiores, pelo custo reduzido de infraestrutura.

Mas como fica o vínculo?

A aposta no EAD, porém, não é uma garantia de resultados melhores. Caso não ofereça algum tipo de experiência presencial aos estudantes, pode ser um tiro no pé, com um maior estímulo a desistências de alunos ao longo dos cursos, e a consequente queda na receita.

“Muitas vezes o aluno entra no EAD porque é mais barato, mas não se engaja, não vai à faculdade e, quando tem qualquer problema de renda, desiste”, afirmou o gestor de ações Conrado Rocha, sócio da Polo Capital, em entrevista à Agência TradeMap. 

Segundo Rocha, em um modelo 100% online, no qual o aluno vai à faculdade apenas uma vez por semestre, para fazer provas, 40% a 50% dos estudantes abandonam o curso antes do fim do primeiro ano. 

“Mas se existe um componente presencial mais significativo, com o aluno indo à faculdade pelo menos uma vez por semana, eu diria que a evasão é a metade disso”, compara o gestor. Ele acredita que o modelo vencedor do mercado tende a ser o híbrido. “Além de ter uma evasão menor, a empresa pode cobrar uma mensalidade maior.”

Margem ou receita?

O EAD, apesar de ter salvado o setor na pandemia, reacendeu um dilema antigo no setor. Embora o ensino a distância proporcione margens maiores, gera uma receita menor. A Cogna Educação, que atua no ensino superior por meio da Kroton, é um caso emblemático. 

A companhia, que saiu do lucro para o prejuízo no primeiro ano da pandemia, decidiu que o foco era recuperar a rentabilidade e por isso reforçou a aposta no EAD, mesmo que a estratégia represente uma diminuição do faturamento. 

No último trimestre, enquanto a base de alunos da Kroton no modelo presencial caiu 19,7% em relação a igual período do ano anterior, a base de EAD cresceu 15,1%. O crescimento no ensino a distância mais do que compensou a queda vista no presencial e fez a base total da empresa aumentar 5,2%, para 860 mil.

Como consequência, a margem da empresa em relação ao Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) deu um salto de 25 pontos percentuais, para 28,7% no quarto trimestre. “Entramos em um novo patamar de rentabilidade”, disse o então CEO da Cogna, Rodrigo Galindo, em sua última teleconferência no cargo, em março, antes de dar lugar a Roberto Valério.

A empresa, embora continue no prejuízo, conseguiu reduzi-lo. Em 2021, as perdas foram diminuídas em 75,1%, para R$ 210 milhões.

Por outro lado, a receita da Cogna tem encolhido, como era de se esperar. Em 2021, o faturamento total caiu 13,4% em comparação a 2020 e, segundo a própria empresa, deve recuar mais uma vez em 2022, uma vez que o EAD deve continuar ganhando espaço em relação ao modelo presencial. 

A tendência, disse a Cogna, é que a receita só volte a subir a partir de 2023, quando boa parte das bases antigas de alunos presenciais já terá ficado para trás e não afetará mais a comparação estatística entre um ano e outro. 

EAD é para quem pode

Investir em EAD, no entanto, não é para qualquer um. Trata-se de um negócio que demanda escala e bases expressivas de alunos, ressalta o sócio da JK Capital, Daniel Damiani. 

“Faz mais sentido para as grandes empresas, que conseguem estar em vários lugares e fazer um investimento em marketing nacional. Não é um jogo para instituições regionais”, disse ele à Agência TradeMap. 

De olho em se “nacionalizar”, a Ser Educacional, nascida no Recife e um dos principais nomes do mercado de ensino superior no Nordeste, concluiu em janeiro a compra da FAEL, uma companhia focada em ensino digital e sediada no Paraná. 

Com a aquisição, a Ser praticamente dobrou a base de alunos de ensino digital, saindo de 88 mil para 175 mil estudantes. Por outro lado, como a FAEL tem uma margem Ebitda menor, de 13%, a margem da Ser caiu de 36% para 26%, com base em números de 2021. 

A Ânima Educação, que estava praticamente fora do ensino online, conseguiu passar a ter uma base expressiva de alunos no EAD após a compra da Laureate, anunciada no fim de 2020. Com isso, a companhia, que tinha apenas 283 estudantes no online ao final daquele ano, agora possui 75,5 mil, o equivalente a 23,5% da sua base total. 

Espaço para “canibalização”?

Para o setor, uma das principais preocupações ao investir em EAD é a possível canibalização do mercado. Ao oferecer o ensino digital, em vez de ampliar a base de alunos, as empresas estariam apenas fazendo o estudante sair de um modelo para outro, que cobra menos?

Damiani, da JK Capital, acredita que esse é um risco reduzido. “A companhia não está trocando a receita do presencial pelo EAD. Está captando um aluno que não teria condições de ir para o presencial e não estaria estudando”, afirmou. 

Ainda que as pessoas estejam voltando às ruas e aos escritórios, o EAD segue com mais matrículas que o presencial. Na Ser, por exemplo, a captação para o ensino digital cresce 43,5% no acumulado de 2022, até o dia 22 de março, em comparação a igual intervalo do ano passado. Já a base de alunos avança em ritmo menor, a 35,2%. 

O sócio da Polo Capital ressalta que as pessoas ainda estão cautelosas em relação ao fim da pandemia, pela possibilidade de um novo lockdown, e essa insegurança pode estar retardando as matrículas para o presencial. “Vamos esperar os números finais das empresas para março para saber realmente como está sendo a captação”.

Presencial versus remoto

A volta do presencial, porém, embora represente uma receita maior, também pode ser uma barreira para quem está focado em garantir rentabilidade. 

A Cogna, por exemplo, disse que 2022 tende a ser um ano de rentabilidade estável ou com ligeira expansão. Além da inflação, que pressiona os custos da economia como um todo, a companhia ressaltou na teleconferência que o ensino presencial gera mais despesas. 

“São mais gastos com energia elétrica, água, segurança e limpeza, por exemplo”, ressaltou o CFO (Chief Financial Officer) da Cogna, Frederico Villa. O executivo ponderou que o grupo passou por uma reformulação da sua rede durante a pandemia e tem, hoje, uma estrutura mais leve. 

Para as empresas de educação, o presencial deve se concentrar em cursos que demandam uma estrutura física, como os de saúde, que utilizam laboratórios. 

Não à toa, as companhias têm apostado mais em cursos de medicina, que são mais caros para os alunos e contam com uma duração maior. É, portanto, um negócio no qual as empresas ganham mais e por mais tempo, o que faz valer a pena gastar mais no presencial. 

O problema é que investir em medicina virou uma obrigação para todas as companhias. Deixa, com isso, de ser um diferencial. “O desafio de médio e longo prazo é como as empresas vão conduzir as operações de medicina, de forma que sejam rentáveis e tenham bons índices de satisfação”, disse Damiani, da JK Capital. 

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