Por que o crédito para consumo deve subir mesmo com a alta da inadimplência

Federação Brasileira de Bancos estima que concessões de crédito para pessoas físicas vão ter crescimento de 8,5% em abril, após trimestre marcado por avanço de calotes

Foto: Shutterstock

O investidor que se deu o trabalho de ler um pouco sobre os resultados dos bancos no primeiro trimestre certamente percebeu que os brasileiros estão atrasando mais os pagamentos de dívidas. No período, quase todas as instituições financeiras, incluindo as fintechs, relataram aumento da taxa de inadimplência — um indicador que considera apenas os atrasos que superam o prazo de 90 dias após o vencimento.

Os calotes têm aumentado basicamente porque os juros estão cada vez maiores, com a Selic a 12,75% ao ano, e a inflação tem se mantido alta de modo persistente, com o IPCA de 12 meses acima de 10% há oito meses. Resultado: o consumidor vai vendo o dinheiro perder valor e precisa coçar os bolsos para honrar seus compromissos.

Era de se esperar, portanto, que os bancos pisassem no freio na hora de conceder novos empréstimos para as famílias, em especial aqueles destinados a consumo e uso de cartões de crédito. Mas isso não será constatado quando o Banco Central (BC) publicar os números do setor referentes a abril — o primeiro mês depois do período de janeiro a março deste ano, marcado pelo aumento dos atrasos.

Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), as novas concessões de crédito para pessoa física devem apresentar crescimento de 8,5% em abril em relação a março, em uma comparação que considera a média diária, em uma tentativa de evitar que a diferença de dias úteis entre um mês e outro gere uma distorção na análise.

A projeção da entidade, divulgada nesta quarta-feira (18), é considerada pelo mercado uma espécie de “prévia” do dado oficial do BC (que ainda não tem data para ser apresentado) e leva em consideração os resultados consolidados dos principais bancos do país e as variáveis macroeconômicas que mais influenciam o mercado de crédito, como juros, inflação e mercado de trabalho.

No próprio material que divulga a projeção, a Febraban afirma que o crédito para pessoa física deve ser impulsionado principalmente pelas concessões destinadas a consumo e cartão de crédito — aquelas que mais estão relacionadas à inadimplência. No Banco Inter, por exemplo, a inadimplência do cartão de crédito foi a que mais subiu, de 4,3% para 6,6% — o que fez a instituição financeira desacelerar as emissões de cartões.

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Motivos

Apesar da cautela do Inter e de outros bancos, o avanço do crédito no setor como um todo deve ocorrer basicamente por duas razões, segundo a Febraban.

Em primeiro lugar, porque as pessoas estão voltando às ruas, uma vez que as restrições da pandemia estão mais flexíveis, com o menor número de casos de morte e com o avanço da vacinação. Ainda que a inadimplência esteja em alta, a reabertura da economia tende a impulsionar o consumo com cartão de crédito.

Em segundo lugar, porque o INSS aprovou o aumento da chamada margem consignável para aposentados e pensionistas — parcela máxima do dinheiro da aposentadoria e da pensão que pode ser comprometida em dívidas contraídas por meio de crédito consignado, aquele em que a instituição debita parte do seu salário mensalmente para pagar a prestação do empréstimo.

A margem consignável foi elevada em março de 35% para 40%. A medida do INSS também autoriza beneficiários de programas sociais a participarem da modalidade de crédito.

Já o volume de concessões de crédito para as empresas deve ir pelo caminho contrário e apresentar queda de 8,3% em relação a março, tanto nas operações com recursos livres (sem subsídios do governo) quanto nas operações direcionadas (com subsídios).

“As operações com recursos livres devem ser negativamente afetadas por questões sazonais (linhas relacionadas ao fluxo de caixa), enquanto as operações com recursos direcionados devem seguir perdendo ímpeto com a redução dos programas públicos”, afirma a Febraban.

No total, na conta que inclui pessoas físicas e empresas, as concessões de crédito devem ficar praticamente estáveis em abril, com um ligeiro aumento de 0,1% em relação a março. Em 12 meses até abril, a federação estima avanço de 25,4% para a concessão total, com alta 26,1% para pessoa física e de 24,6% para empresas.

Por volta das 12h40, as ações dos bancos caíam em bloco. O Inter (BIDI11) tinha a maior queda do Ibovespa, com baixa de 7,79%. O Bradesco (BBDC4), por sua vez, tinha recuo de 1,45%, e o Itaú Unibanco (ITUB4) registrava desvalorização de 0,40%.

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