Por que a Petrobras (PETR4) terá pelo menos mais quatro meses de turbulência; é hora de comprar?

Em meio à crise, o Congresso acelerou o passo para discutir duas propostas que podem diminuir o lucro da Petrobras

Foto: Shutterstock

O aumento que a Petrobras anunciou na sexta-feira (17) para os preços dos combustíveis, embora responda aos anseios dos investidores de ver a estatal tentando acompanhar as variações do mercado internacional, foi como jogar mais gasolina na crise institucional entre a empresa e o governo.

Tanto é que, em vez de as ações subiram no mesmo dia, como resposta a uma suposta demonstração de independência da companhia, o que se viu, na verdade, foi um tombo de 6,08% nas preferenciais (PETR4) e de 7,25% nas ordinárias (PETR3), com a empresa nos holofotes de uma turbulência política.

O presidente Jair Bolsonaro tem criticado os reajustes da empresa porque teme que a inflação seja um fator decisivo na eleição presidencial que se aproxima. Em declarações públicas, tem sugerido que a companhia aumenta os preços sem necessidade, uma vez que registra lucros bilionários — no primeiro trimestre, teve lucro de R$ 43,5 bilhões.

Após o último reajuste, Bolsonaro chegou a dizer que iria propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a empresa, e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), foi ao Twitter para pedir a renúncia do CEO da companhia, José Mauro Coelho, que já havia sido demitido por Bolsonaro, mas ficaria no cargo até que o novo indicado fosse aprovado pelo conselho de acionistas — nesta segunda, ele renunciou.

Em meio à crise, o Congresso acelerou o passo para discutir duas propostas que podem diminuir o lucro da Petrobras: uma que dobra a alíquota da CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido), de 9% para 18%, e outra que pode taxar as exportações, o que só aumenta o sentimento de indefinição sobre o futuro da empresa.

No pregão desta segunda, após a renúncia de Coelho, os papéis da Petrobras ensaiam uma recuperação — com alta de 1,47% para as preferenciais e 1,08% para as ordinárias, por volta das 16h50 –, mas o mercado ainda espera que a empresa continue rodeada de turbulências, enquanto o Congresso discute os projetos que podem afetar o negócio da companhia e enquanto não toma posse o novo indicado para assumir a Petrobras, Caio Mário Paes de Andrade, ex-secretário do ministro da Economia, Paulo Guedes.

Na visão de Frederico Nobre, líder da área de análise da Warren, a semana tende a ser “conturbada” para a petrolífera.”O governo federal realmente está decidido a colocar um fim nessa história, pois esse fator (o aumento nos preços) está sendo a principal ‘pedra no sapato’ do presidente Bolsonaro para a reeleição”, avalia Nobre, que lembra que os combustíveis foram responsáveis por 33% do IPCA no ano passado.

Para Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, a renúncia era esperada, “dado o desgaste”, mas não acredita que a partir de agora a empresa terá dias de paz. Afinal de contas, o preço do petróleo deve seguir em alta e continuará fazendo pressão para que a estatal realize novos reajustes nos combustíveis.

Na sexta, a Petrobras subiu o preço da gasolina vendida da refinaria para as distribuidoras em 5,2%. O diesel, por sua vez, teve alta de 14,3%. Ainda assim, ambos seguem defasados em relação ao que é praticado no exterior. Segundo dados da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), a defasagem em relação à gasolina é de 5% perante ao mercado internacional, enquanto o do diesel fica em 8%.

Na avaliação de Cruz, só haverá uma maior clareza sobre o futuro da Petrobras após a eleição presidencial. Para a Genial Investimentos, as ações da companhia devem seguir sobre pressão. “Vale lembrar que a incerteza representa um maior risco, e esse risco deve seguir fazendo preço na cotação da empresa”, diz a corretora.

Leia mais:
Petrobras (PETR4) eleva preço da gasolina em 5,2% e do diesel em 14,2%

O que ainda pode mudar

Com as discussões no Congresso para dobrar o imposto cobrado sobre o lucro da Petrobras (PETR4; PETR3) ou criar taxas que seriam aplicadas sobre o que é exportado pela estatal, ambas com o intuito de financiar um subsídio para os combustíveis, os analistas do BTG Pactual distribuíram um relatório a clientes nesta segunda-feira (20) no qual estimam os efeitos no balanço da empresa caso os projetos avancem.

A ideia de dobrar a CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido) para o setor de óleo e gás — de 9% para 18%, uma sugestão do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, aliado do presidente Jair Bolsonaro — geraria uma redução de 14% na previsão de lucro para a estatal em 2023, pelas contas dos analistas do BTG que acompanham a Petrobras, Pedro Soares e Thiago Duarte.

Veja o que mais diz o BTG:
BTG estima lucro menor na Petrobras (PETR4) e ironiza: “acorde-me quando outubro acabar”

Comprar ou vender?

Já que a discussão acerca da empresa não deve cessar, o investidor pode ficar na dúvida — é hora de aproveitar o risco mais elevado para possivelmente comprar na baixa ou o momento é de ficar longe de Petrobras?

Nobre, da Warren, recomenda a compra dos papéis da Petrobras. “Mesmo que você tenha tenha efeitos nocivos diante de práticas que não são de mercado, ainda é uma empresa que está gerando muitos resultados”, comenta.

Na avaliação do analista, mesmo que o projeto do CSLL vá para a frente, a companhia seguirá pagando dividendos “na casa dos dois dígitos, e acima dos 10%”, completa.

Para os analistas do BTG, é esperado que haja ruído político em torno dos preços dos combustíveis pelo menos até outubro, quando ocorrem as eleições. “Acorde-me quando outubro terminar”, escrevem os analistas, em uma referência à música “Wake me up when september ends“, da banda americana Green Day.

“Até lá, em termos de exposição [na carteira de investimentos], ainda pensamos que empresas petrolíferas juniores [como PetroRio e 3R Petroleum] são opções relativamente melhores (e mais seguras) – embora também sejam possivelmente impactadas pelas medidas do governo”, afirmam.

De acordo com dados compilados pela Refinitiv, apresentados na plataforma TradeMap, as recomendações são, em sua maioria, de compra dos papéis. Das 11 recomendações, oito são de compra e três para manter o papel. Avaliando a mediana dos preços-alvo — R$ 40, as ações da companhia podem valorizar 44,72% até o final de 2022.

Recomendações refinitiv sobre petrobras
Fonte: TradeMap

Compartilhe:

Mais sobre:

Leia também:

Destaques econômicos – 02 de abril

Nesta quarta (02), o calendário econômico apresenta importantes atualizações que podem influenciar os mercados. Confira os principais eventos e suas possíveis repercussões:   04:00 –

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.