Os investidores tiveram nesta quinta-feira (19) uma amostra do que a inflação disparada e custos elevados podem fazer com empresas ligadas ao consumo, e não gostaram nada do que viram.
Os balanços de duas gigantes do varejo americano, Target (TGTB34) e Walmart (WMT), vieram bem piores do que o esperado por analistas, e as fortes quedas das ações dessas companhias, somadas aos temores de altas maiores de juros pela frente, contaminaram os índices americanos e até os brasileiros.
A mega varejista Target tombou impressionantes 24,9% no pregão de ontem, perdendo em um dia um quarto do seu valor de mercado. A empresa apresentou resultados de primeiro trimestre muito abaixo das estimativas, informando um lucro ajustado por ação de US$ 2,19, mais de 40% abaixo do projetado por analistas.
“O crescimento foi desafiado pelos custos elevados de forma incomum, resultando em uma lucratividade bem abaixo do que esperávamos”, afirmou o CEO da empresa, Brian Cornell, durante teleconferência de resultados.
A Walmart, por sua vez, alertou que os custos de insumos estão mais altos, e reportou um lucro 24,8% menor do que no mesmo período do ano passado, o que levou seus papéis a fecharem em queda de 6,7%.
“O nível de inflação nos Estados Unidos, em especial em alimentos e combustíveis, criou mais pressão no mix de margem e custos operacionais do que esperávamos”, afirmou o diretor-presidente da rede, Doug McMillon.
Os resultados de ambas as empresas arrastaram para baixo outras companhias do setor, em meio à suspeita que a forte alta de custos por causa da pandemia e da guerra entre Rússia e Ucrânia não poderá ser totalmente repassada aos consumidores.
Para explicar o quanto isso preocupou os investidores, é só dizer que o Dow Jones teve ontem seu pior desempenho desde 2020, fechando o dia em queda de 3,57%, enquanto S&P 500 e o Nasdaq tombaram 4% e 4,7%, respectivamente.
“Estamos realmente em um cenário de inflação assustadora neste ano, e essencialmente o receio é que o Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] irá estrangular o crescimento da mesma forma que a inflação”, apontou Garrett Melson, estrategista de portfólio da Natixis Investment Managers, ao Wall Street Journal.
Em abril, a inflação ao consumidor dos Estados Unidos desacelerou, mas ficou acima das previsões do mercado, o que diminuiu a convicção dos investidores na possibilidade de os juros seguirem a trajetória sinalizada recentemente pelo banco central americano.
O índice de preços ao consumidor do país teve alta mensal de 0,3% em abril, e de 8,3% no acumulado em 12 meses.
Baixa confiança
Apesar dos dados de vendas no varejo nos EUA em abril terem mostrado recuperação – a alta foi de 0,9% em relação ao mês anterior – a confiança do consumidor americano está perto dos menores níveis desde o início de 2021, segundo dados da Conference Board.
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“Este é um resultado impressionante dado que a confiança do consumidor foi duramente atingida pelo fato de os salários não estarem acompanhando o aumento no custo de vida”, disse o banco ING em relatório, acrescentando que os números sugerem que as famílias americanas “parecem contentes em queimar parte da poupança para manter o estilo de vida”.
Ainda assim, segundo o Wells Fargo, o aparente “superpoder” de compra dos americanos deve terminar. O banco citou outro indicador de confiança do consumidor – o da Universidade de Michigan, que está no menor nível em uma década – para justificar esta visão.
“As vendas no varejo são reportadas em termos nominais e, portanto, não refletem a mordida da inflação, mas mesmo assim o fato de elas terem crescido em oito dos últimos nove meses não é exatamente o que se espera com a confiança despencando”, disse o banco.