A guerra entre Rússia e Ucrânia, que já se estende por mais de um mês, gerou uma situação nada confortável para as empresas brasileiras do agronegócio que utilizam fertilizantes em suas operações.
Embora seja o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo, com 8% do consumo mundial, o Brasil não é um grande produtor e depende principalmente das importações, especialmente após o fechamento de quatro fábricas da Petrobras que produziam o insumo.
Hoje, cerca de 80% do fertilizante que é utilizado no mercado brasileiro é importado. O problema é que 30% vem de dois países afetados pela guerra: a própria Rússia, que é alvo de sanções econômicas internacionais e tem dificuldades para exportar, e da vizinha Bielorrúsia, aliada dos russos.
E em 2021, após o fechamento das fábricas da Petrobras, que ocorreu entre 2016 e 2020, a importação de fertilizantes pelo Brasil cresceu 21,4%.
Por ser um insumo diretamente ligado à cadeia produtiva do agronegócio, o fertilizante tem grande influência nos custos de todas as áreas, o que pode resultar em uma disparada dos preços dos produtos para o consumidor final.
Por exemplo, a redução da oferta de fertilizantes afeta diretamente a quantidade de soja a ser produzida. Em um cenário de escassez de soja, o preço do produto sobe. Como consequência, todos os produtos que usam a soja como insumo tendem também a ter custos maiores e preços pressionados.
Nesse contexto, a JBS fez um movimento estratégico, ao anunciar, na semana passada, a entrada no mercado de fertilizantes. A companhia investiu R$ 135 milhões para criar, no interior de São Paulo, Campo Forte, empresa especializada na produção de fertilizantes, com capacidade de produzir 150 mil toneladas ao ano.
O que esse negócio representa?
Por meio de uma estratégia de integração vertical, a Campo Forte utilizará resíduos orgânicos resultantes de outras operações da JBS para gerar um fertilizante com maior valor agregado. Assim, o processo de produção se torna mais eficaz, aumentando a competitividade da empresa.
A partir da iniciativa, a empresa espera maximizar o desempenho da economia circular em linha com o compromisso de zerar o balanço líquido de suas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2040.
A Campo Forte deve atender tanto o produtor pessoa física (B2C) quanto as empresas (B2B), mas o primeiro grupo será a prioridade do negócio, principalmente na produção das culturas de milho, soja, cana-de-açúcar, café, hortifrútis, pastagens e florestas.
Mesmo que o objetivo inicial esteja voltado para o ESG, este é também um passo importante para a JBS do ponto de vista de expansão. A companhia, a segunda maior de alimentos do mundo, está entrando em um segmento com alto potencial de crescimento, principalmente pela robusta necessidade do Brasil em utilizar estes insumos.
Já em um contexto macro, a abertura da empresa de fertilizantes não trará impactos relevantes, no curto prazo, para combater a escassez do insumo, uma vez que a companhia tem capacidade produtiva de 150 mil toneladas ao ano e o Brasil importou cerca de 41,6 milhões de toneladas no ano de 2021.
E ainda que o Brasil produza pouco em relação ao que consome, não significa que a JBS terá vida fácil ao entrar no mercado de fertilizantes, que se concentra em poucas empresas, como Yara Brasil, Mosaic e Heringer (FHER3).
A produção nacional de fertilizantes no Brasil, em 2021, foi de 6,99 milhões de toneladas. A Heringer, por exemplo, entregou de 1,49 milhões de toneladas, o que representa 21,31% do total produzido no Brasil. Globalmente, o setor também é concentrado. As 10 maiores empresas são donas de 63% do mercado.
Por um outro lado, investimentos da JBS em pesquisa e desenvolvimento (P&D) podem contribuir para o surgimento de novas tecnologias que possam aumentar a eficiência do fertilizante, o que reduziria a necessidade de potássio, fósforo e nitrogênio, que são os principais insumos importados pelo Brasil.