Meta de inflação deve mudar o quanto antes, defende Xavier, da SPX

Gestor condiciona movimento a acenos do governo federal em manter o equilíbrio fiscal

Foto: Shutterstock/Deemerwha studio

Rumores de que o Banco Central (BC) sinalizou ao governo federal subir a meta de inflação para 2023 de 3,25% para 3,50% causaram forte estresse no mercado financeiro nos últimos dias, refletindo na queda da Bolsa e na disparada do dólar e das taxas de contratos de juros futuros.

Apesar do temor dos investidores, Rogério Xavier, fundador e sócio da SPX Capital, uma das gestoras mais respeitadas do mercado brasileiro, defende que o alvo de inflação perseguido pelo BC seja alterado o quanto antes.

“Para o sistema de metas de inflação funcionar, precisamos ter metas factíveis e as atuais são ambiciosas demais. Nesse sentido, acho um erro o CMN [Conselho Monetário Nacional] não revisitar o tema e reavaliar o custo para sociedade de perseguir uma meta de inflação tão difícil de ser alcançada. Será que realmente a sociedade quer buscar uma inflação de 3% ao ano com um custo tão elevado? Eu acho que não”, escreveu em sua carta mensal endereçada aos investidores do fundo multimercado Nimitz.

Xavier enfatizou que o ideal é não esperar até junho para alterar a meta de inflação. “Quanto mais tempo o governo demorar para definir as novas metas, mais difícil será para ancorar as expectativas em torno desse novo valor.”

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A medida, porém, deve vir acompanhada de uma contrapartida do governo federal na direção de compromisso com o equilíbrio das contas públicas, sobretudo com a definição do próximo arcabouço fiscal.

“Sem isso, a ideia de mudar a meta de inflação pode acabar tendo efeitos bem negativos sobre expectativas, câmbio e inflação”, afirmou o gestor.

Lula x Banco Central

O atual debate sobre mudanças na meta ocorre na esteira dos embates entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a autoridade monetária. Desde a semana passada, o petista contesta a decisão do BC em manter a taxa de juros – principal instrumento para conter a inflação – em 13,75% ao ano.

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Outros membros do governo federal e da base aliada no Congresso também se manifestaram contra a taxa Selic, afirmando que os juros pressionados prejudicam os projetos de crescimento da economia propostos pelo novo governo.

Atual meta de inflação não é crível

O BC tem como meta entregar o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) em torno de 3,25% ao fim deste ano, com margem de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Para Xavier, esse número não é factível com o atual cenário brasileiro e global, após os episódios da pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia.

Vale lembrar que a meta da inflação é definida pelo CMN com aproximadamente três anos de antecedência.

“Para o sistema de metas de inflação funcionar, precisamos ter metas factíveis e as atuais são ambiciosas demais”, destacou o gestor.

O CMN se reúne pela primeira vez neste ano na próxima quinta-feira (16). Além de Campos Neto, o colegiado é composto pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e pela ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet.

Governo também deve colaborar

O afrouxamento da meta, seguiu Xavier, arrisca tirar a credibilidade do BC em cumprir com o seu papel de controlar a inflação e abre brecha para que novas concessões sejam feitas futuramente.

Vale lembrar, contudo, que a medida não é excepcional e já foi feita antes, em 2003, quando o BC era comandado por Henrique Meirelles.

A alteração foi reflexo de uma sequência de choques que desestabilizaram a economia. À época, lembrou Xavier, o BC teve auxílio do Tesouro Nacional para controlar a dívida pública.

Essa sinergia entre o governo federal e a autoridade monetária é fundamental para que a mudança no alvo da inflação seja eficaz.

“O equilíbrio fiscal é um ponto crucial para que a mudança de meta ocorra de forma organizada e sem gerar uma desancoragem de expectativas. O governo precisa ter um plano crível de estabilização da dívida”, pontuou.

Nimitz rende 1,8% em janeiro

O fundo Nimitz rendeu 1,81% em janeiro, acima do CDI (1,12%) do período. Segundo a gestora, a contribuição positiva partiu do mercado de juros, enquanto as negativas vieram dos mercados
de ações, crédito, commodities e moedas.

Atualmente, na parte de juros, o fundo está aplicados em países onde a gestora acredita que o próximo grande movimento será de queda dos juros, mantendo algumas posições tomadas em taxas nos países atrasados no ciclo de aperto monetário.

Nos mercados de moedas, a SPX tem posições relativas em países emergentes e desenvolvidos. Já no book de ações, as alocações estão concentradas em posições relativas em mercados emergentes, enquanto, nas commodities, a gestora não tem posições relevantes.

Por fim, nos mercados de crédito desenvolvidos, a SPX segue comprada em papéis de duração curta e do tipo high yield, que são os mais arriscados, de alta qualidade. Nos países emergentes, a gestora elevou o risco via bonds com valuation atrativo e continua focando nos setores de energia/petróleo.

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