Ao divulgarem seus balanços do quarto trimestre de 2021 na semana passada, os bancos Itaú (ITUB4) e Bradesco (BBDC4) também publicaram seus guidances, ou projeções, para o ano de 2022. As expectativas dos dois bancos chamaram a atenção do mercado principalmente por suas diferenças – nas contas do mercado, as estimativas do Itaú Unibanco implicam crescimento de 16% no lucro, enquanto as do Bradesco apontam expansão de 8%.
De acordo com as equipes de analistas do Bank of America (BofA) e do UBS-BB Investment Bank, em relatórios distribuídos nesta segunda-feira (14), a diferença decorre das despesas com provisões – e da expectativa de ajustes futuros na estimativa – e da forma como é calculada a margem financeira (NII).
A margem financeira é a diferença entre a receita obtida pelos bancos com a cobrança de juros em empréstimos e as despesas deles com a remuneração a poupadores.
O Bradesco espera uma expansão entre 8% e 12% na NII com clientes, abaixo do crescimento projetado para os empréstimos, entre 10% e 14%. O Itaú, por sua vez, prevê um crescimento de 20,5% a 23,5% na NII, expansão maior que a de 9% a 12% prevista para os empréstimos.
Isso, segundo a análise do BofA, se deve ao fato de o Itaú incluir a remuneração do capital de giro nesta métrica, diferentemente do Bradesco. Quando esse ponto é considerado, diz o banco, o guidance do Itaú aponta para um crescimento de 12% na margem financeira, pequena alta em relação aos 10% esperados pelo Bradesco.
O outro ponto de divergência é a expectativa de despesas com provisões contra perdas por inadimplência: o Bradesco espera que estas despesas cresçam em 13%, enquanto o Itaú projeta 34%.
Essa disparidade pode ser explicada pelos comentários da administração dos bancos nas teleconferências com investidores: o Itaú descartou a necessidade de fazer mais projeções do que estimou, enquanto o Bradesco disse que pode precisar fazer mais provisões do que previu.
O UBS-BB menciona que o Itaú tem uma taxa de cobertura para crédito não produtivo de 241%, abaixo dos 261% do Bradesco, outro fator que explica a previsão mais conservadora feita pelo Itaú.
Em termos de crescimento de empréstimos e de despesas operacionais, as expectativas dos dois bancos são semelhantes. No ponto médio da projeção, o Itaú espera expansão de 13% no portfólio de crédito, enquanto o Bradesco projeta crescimento de 12%. Os dois bancos esperam que as taxas de serviço e as despesas operacionais cresçam um pouco abaixo da inflação.
O que os guidances sugerem?
Em suma, a expectativa do UBS-BB, analisando os balanços, é que o crescimento do crédito siga sólido neste ano, com rotação do mix em direção ao varejo, assim como a expansão das receitas.
A qualidade dos ativos, por outro lado, pode apresentar certa deterioração. Porém, segundo o UBS-BB, o alto nível de reservas deve proteger os bancos de uma potencial alta na inadimplência.
Essa dinâmica de crédito, combinada com as taxas de juros mais altas, deve afetar positivamente a margem dos bancos, na visão do UBS-BB.
“Depois de ajustar os guidances pelo capital de giro considerando as diferenças e as provisões adicionais que o Bradesco tem, as diferenças não são tão altas como indicado na primeira leitura, mas mantemos nossa visão de que o guidance do Itaú foi mais forte do que o do Bradesco”, afirma o UBS-BB, que espera que o mercado revise para cima sua projeção para o Itaú, e ajuste para baixo a do Bradesco.
O BofA também tem uma visão mais positiva sobre o Itaú, que considera estar “estruturalmente melhor posicionado para taxas mais altas, enquanto seu guidance parece mais conservador e deixa espaço para surpresas positivas”.
Como o mercado enxerga as ações?
Bradesco e Itaú são os top picks do UBS-BB entre os bancos brasileiros, e os analistas recomendam compra para os dois, com preços-alvo de, respectivamente, R$ 29 e R$ 30. O BofA também recomenda compra para ambos os ativos, os dois com preço-alvo de R$ 29.
O mercado parece otimista em relação às ações dos grandes bancos brasileiros. De acordo com dados da Refinitiv disponíveis na plataforma TradeMap, 11 das 16 casas de análise consultadas recomendam compra para a ação do Itaú, enquanto as cinco restantes indicam a manutenção do papel na carteira. A mediana dos preços-alvo dos analistas é de R$ 31, o que representa alta de 17% em relação ao valor do fechamento de sexta-feira (11), de R$ 26,53.
Já para o Bradesco, 13 das 15 casas de análise consultadas indicam compra para o papel, enquanto duas recomendam manter o ativo em carteira. A mediana de preços-alvo é de R$ 29, ou 38% maior que o preço do último fechamento, de R$ 21,14.
Os maiores riscos para a performance do Itaú, na visão do BofA, são um ambiente econômico mais lento do que o esperado; uma deterioração mais rápida na qualidade dos ativos, devido à alta de juros e da inflação; um aumento na concorrência; e mudanças regulatórias, que podem pressionar a geração de receita.
Já para o Bradesco, os principais riscos listados pelo BofA são um aumento na concorrência de fintechs e grandes empresas de tecnologia, pressionando as receitas; uma atividade econômica mais lenta, que pode impactar o crescimento do crédito; e mudanças regulatórias, que podem afetar a lucratividade.
Segundo o UBS, ambos os bancos, assim como as demais instituições financeiras da América Latina, estão expostos a riscos ligados às condições econômicas locais, à taxa de juros, ao câmbio, a mudanças regulatórias e à concorrência.