As ações da Alpargatas (ALPA4) têm passado por fortes quedas nos últimos pregões, somando desvalorização de 9,5% só nesta semana. Os motivos principais, segundo analistas ouvidos pela Agência TradeMap, são as perspectivas de alta de juros e manutenção dos patamares elevados de inflação.
Os juros mais altos prejudicam a empresa em duas frentes. Primeiro, encarecem o custeio da dívida, que no caso da Alpargatas é, em grande parte, atrelado às taxas de mercado. Ou seja: se os juros sobem, cresce também a remuneração que a empresa precisa pagar para os credores.
A segunda frente é no consumo. Juros maiores encarecem o crédito à pessoa física, o que reduz o poder de compra da população, principalmente entre as pessoas de baixa renda.
As perspectivas para a inflação, que se mantêm elevadas e alimentam a expectativa de alta de juros, também prejudicam o papel. Na segunda-feira, a mais recente edição do Boletim Focus do Banco Central (BC) mostrou que o mercado projeta alta de 5,09% no IPCA em 2022, ante 5,03% na edição anterior da pesquisa. A inflação alta também afeta o poder de compra da população, o que, por sua vez, pressiona as ações do setor de varejo.
Para Felipe Vella, analista técnico da Ativa Investimentos, estes fatores e a preferência dos investidores por manter em carteira ações de empresas consideradas mais capazes de contornar o cenário negativo podem explicar o movimento dos papéis da Alpargatas.
“Quando o Ibovespa começa a cair, o investidor vende muito mais as ações que não são tão sólidas. Ele costuma manter as blue chips e vender as small caps”, explica. “Nós creditamos isso muito mais ao desespero do que qualquer outra coisa.”
Heitor de Nicola, assessor de renda variável da Acqua-Vero, aponta a pesquisa mensal de comércio do IBGE, divulgada na última sexta-feira, como um dos fatores por trás do aumento da pressão sobre ALPA4. De acordo com os dados, as vendas do setor de vestuário se encontram 7,5% abaixo dos níveis pré-pandemia. “Esses dados deram uma abalada na confiança do investidor, então o preço da ação sente”, explica.
Além disso, aponta Nicola, as expectativas para o balanço do quarto trimestre também podem estar pesando. “Tanto a Black Friday quanto o Natal, eventos que normalmente são bons para o comércio, vieram abaixo da expectativa. Então, é natural que o mercado comece a se preparar para um resultado não tão bom quanto se esperava”.
Vella, da Ativa, ressalta que a ação da Alpargatas está cerca de 75% acima da mínima de março de 2020, no pico da pandemia de coronavírus, e se mantém próxima de patamares de preço que tinha antes da crise sanitária. Ele se diz otimista com o papel no médio prazo.
A maioria do mercado concorda com ele, segundo dados compilados pela Refinitiv e disponibilizados na plataforma do TradeMap. Das cinco casas de análise consultadas, quatro recomendam compra de ALPA4, enquanto uma tem classificação neutra. A mediana de preço-alvo dos analistas é de R$ 50, o que representa alta de cerca de 61,4% em relação ao valor do fechamento de segunda-feira, 17.
Por volta das 16h45 (de Brasília), os papéis ocupavam a quarta posição entre as maiores quedas do Ibovespa, em baixa de 6,33%, a R$ 29,02.