A indústria brasileira cresceu em julho após o tombo no mês anterior, puxada principalmente pelo segmento de alimentos. A despeito da recuperação das atividades, os quadros econômicos doméstico e global devem trazer desafios nos próximos meses.
Na cena local, os principais entraves são a baixa renda do trabalhador, o alto endividamento das famílias e a corrosão salarial pela inflação.
A resposta do Banco Central (BC) com alta dos juros para controlar os preços gera mais peso ainda sobre as atividades pela restrição do crédito.
O cenário externo também não ajuda. A alta sincronizada dos juros nas principais economias do mundo cria um cenário de maior restrição ao consumo e na demanda de produtos.
André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, cita o baixo salário dos trabalhadores brasileiros como um dos grandes entraves para o consumo. Apesar de a taxa de desemprego mostrar recuo há mais de um ano, apenas no trimestre encerrado em julho a renda média apresentou alta, quebrando um jejum de dois anos.
“É verdade que o desemprego está caindo e que a massa salarial está aumentando, mas o rendimento ainda está baixo. E isso bate direto na compra de bens duráveis. A pessoa tem emprego, dá para comprar comida, mas ela não vai trocar de televisão agora”, afirma.
É a mesma avaliação de Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos, que destaca as condições do mercado de trabalho como entraves para as atividades industriais.
“O mercado de trabalho está crescendo às custas do trabalho informal, e justamente por isso o trabalhador aceita ganhar menos”, afirma.
O poder de compra do salário fica ainda menor com a corrosão pela inflação, que em julho permaneceu em dois dígitos no acumulado de 12 meses.
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Os juros altos para combater a variação de preços traz mais dificuldades por dificultar o acesso ao crédito, impactando especialmente a compra de bens duráveis.
“São juros e inflação em patamares mais elevados. Isso aumenta os custos de crédito, diminui a renda disponível por parte das famílias e faz com que as taxas de inadimplência permaneçam em patamares mais elevados”, afirma André Macedo, gerente da pesquisa industrial mensal do IBGE.
Ano estável
Apesar dos desafios, os analistas acreditam que os próximos meses devem ser estáveis para a produção industrial, principalmente pela questão da sazonalidade de fim de ano, época que há maior consumo.
Jason Vieira, economista-chefe da Infinity, destaca a retomada do setor de bens intermediários, que cresceu 2,2% em julho, como um sinal de otimismo.
“Na média, o resultado não é ruim. Houve recuperação de bens intermediários, que estava fraco nesse ano, e é um importante prenúncio para os outros setores da indústria”, diz.
Para Perfeito, os números do terceiro trimestre também deverão refletir os efeitos da desoneração de medidas do governo federal, como o Auxílio Emergencial de R$ 600 e o corte de tributos.
“A atividade industrial deve seguir se recuperando um pouco, mas de uma forma frágil”, afirma.
Com uma visão mais negativa, Claudia Moreno, economista do C6 Bank, não descarta recuo das atividades diante das pressões locais e externas.
“Daqui para a frente, acreditamos que a indústria deve andar de lado, podendo até registar resultados negativos”, afirma. “Esse desempenho mais fraco é reflexo de três fatores: elevação da taxa de juros, que começa a ser mais fortemente sentida no segundo semestre, desaceleração da economia global e queda de preços de commodities”.