O Ibovespa fechou em alta pelo segundo pregão seguido, apoiado pelo esvaziamento do clima de tensão em Brasília e ignorando o mau humor dos mercados internacionais.
A expectativa que o novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passe por um “freio de arrumação” nesta sexta-feira (6) arrefeceu os juros futuros e deu força para o real bater o dólar.
No exterior, por sua vez, a situação foi oposta ao mercado brasileiro, com a volta do temor de recessão global e, por consequência, a possibilidade de aumento de juros nos Estados Unidos após dados do mercado de trabalho da maior economia do mundo surpreenderem para cima.
Diante disso, o principal indicador da Bolsa brasileira encerrou o pregão em alta de 2,19%, aos 107.641 pontos e R$ 22,12 bilhões em volume negociado.
O desempenho desta quinta-feira (4) faz a queda acumulada desde o início do ano ficar em 1,9%, conforme dados disponíveis na plataforma TradeMap.
“Nesta transição entre governos, essa volatilidade tem sido frequente e deve ser encarada com certa normalidade. Embora possa trazer certo desconforto para alguns investidores, surgem boas oportunidades para montar posições em boas empresas”, afirma Elcio Cardozo, sócio da Matriz Capital.
Alívio em Brasília
Após um início de governo turbulento e com bate-cabeça entre ministros, o presidente Lula deve chamar a atenção de todos os auxiliares na primeira reunião ministerial, marcada para esta sexta-feira (6).
O presidente deve determinar que anúncios das pastas devem ser previamente aprovados pelo gabinete do Executivo, justamente para evitar situações de constrangimento de ministros e a necessidade de o governo voltar atrás em declarações.
A expectativa de alinhamento entre os membros do Executivo levou a queda dos juros futuros. Os contratos com vencimento em 2026 perderam 13 pontos-base, a 13,07%, enquanto os contratos com encerramento em 2029 caíram 14 pontos-base, a 13,10%.
O efeito também foi sentido no dólar, que recuou 1,49%, cotado a R$ 5,37.
O alívio nos juros levou à alta de empresas expostas à economia doméstica. O grupo foi puxado por Americanas (AMER3), que avançou de 11%. Na sequência apareceram Azul (AZUL4) e Locaweb (LWSA3), com altas de 9,38% e 9,18%, nesta ordem.
“A queda dos juros futuros beneficia o setor de varejo e o financeiro. Isso porque um dos grandes temores dos bancos, com destaque para o Bradesco, é o risco de inadimplência dos clientes que tomam crédito”, afirmou Cardozo.
A Totvs (TOTS3) também foi destaque do pregão, com alta de 4,55%. A empresa foi tema de um relatório do Bank of America enviado aos clientes nesta quinta. Na avaliação do banco, a companhia está perto de receber o sinal verde para concluir a parceria entre a Techfin e o Itaú Unibanco (ITUB4) e acelerar o ritmo de crescimento.
A Techfin é a divisão financeira da Totvs, e oferece produtos de crédito para os clientes da companhia – empréstimos consignados, antecipação de pagamentos, entre outros.
Em abril do ano passado, o Itaú Unibanco fechou um acordo para ficar com metade da Techfin. A transação já foi aprovada pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), e agora precisa passar pelo crivo do BC (Banco Central) – algo que, segundo o BofA, deve ocorrer no primeiro trimestre.
Outro destaque entre as altas foi a BRF (BRFS3), que sofrendo muito desde o ano passado com as dúvidas do mercado sobre a empresa. No começo desta semana, a dona das marcas Sadia e Perdigão voltou a ter a americana BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, como um acionista relevante.
Segundo comunicado publicado na manhã de ontem, a empresa recebeu uma notificação da BlackRock na qual a gestora informa que comprou 54,4 milhões de ações ordinárias e 2,74 milhões de ADRs, que são papéis que replicam nos EUA as ações de empresas listadas no Brasil.
A BlackRock agora tem 57,12 milhões de ações ordinárias da BRF, o que equivale a 5,27% do total de ações ordinárias emitidas pela companhia. Com isso, as ações da empresa fecharam em alta de 8,69%.
Ainda dentre as altas, destaque para as petrolíferas, que subiram impulsionadas por um movimento de recuperação do Brent no mercado externo. No horário acima, o barril da commodity tinha uma alta de 1,19% no mercado futuro da ICE, cotado a US$ 78,77.
Com isso, a 3R Petroleum (RRRP3) subiu 6,76%, Prio (PRIO3) avançou 2,58% e a Petrobras (PETR4) ganhou 3,6%.
No caso da estatal, o operador de renda variável da SVN Investimentos, Luiz Souza, ressalta o pronunciamento feito ontem pelo indicado à presidência da companhia, o senador Jean Paul Prates, de que a Petrobras seguirá um preço de paridade internacional, o que deixou o mercado mais aliviado com possíveis intervenções na empresa.
Quedas do dia
As baixas do dia foram puxadas pela Raízem (RAIZ4), com tombo de 2,71%, seguida pela São Martinho (SMTO3), que caiu 2,14%.
A Qualicorp (QUAL3) perdeu 1,82%, em um movimento conhecido no mercado como realização, após uma sequência de altas.
No começo da semana, a operadora de planos de saúde anunciou que Elton Carluci será o novo diretor-presidente (CEO) da companhia.
Além disso, a Rede D’Or (RDOR3) informou que passará 19,85% do pedaço de 25,85% que possui na Qualicorp para a Prisma Capital. A gestora será a titular dessa participação pelos próximos seis anos. No comunicado, a empresa disse ainda que criará uma sociedade detida 100% pela Rede D’Or, denominada “PrismaQuali Gestão Ativa de Participações”.
Exterior e criptos
No caminho oposto, os mercados em Nova York fecharam em queda nesta quinta, após dados do mercado de trabalho americano virem mais fortes do que o esperado.
De acordo com o ADP, relatório nacional de emprego, o país teve um aumento de 235 mil vagas em dezembro. O número veio bem acima do projetado por analistas, que era de 150 mil empregos. Além disso, a remuneração anual subiu 7,3% em relação ao ano anterior.
Em Wall Street, o Dow Jones encerrou com tombo de 1,02%, enquanto o S&P500 caiu 1,16% e a Nasdaq perdeu 1,47%. No outro lado do Atlântico, o Euro Stoxx fechou com queda de 0,36%.
Investidores também digeriram a ata da última reunião do comitê de política monetária do Federal Reserve (FOMC, na sigla em inglês).
O documento, divulgado na véspera, revelou que as autoridades seguirão focadas no combate à inflação americana e o mercado não deve subestimar o tempo necessário que as taxas de juros permanecerão altas para que isso aconteça.
Seguindo o mal humor das Bolsas gringas, as criptos também apontaram para baixo.
Por volta das 16h40, o Bitcoin (BTC) perdia 0,46% em comparação as últimas 24 horas, R$ 90.762. Na mesma hora, o Ethereum (ETH) perdia 0,41%, negociado a R$ 6.732.