Com o mercado abalado pelas incertezas em torno de qual será a política econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Ibovespa, principal índice acionário da Bolsa, tem perdido força desde a eleição e caminha para terminar 2022 em queda, o que seria a segunda retração anual consecutiva, algo que não acontece desde o biênio 2014-2015 — período marcado pelo fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT) e o início do segundo.
Embora os anúncios mais recentes de Lula e da equipe de transição tenham mais assustado do que animado os investidores, há uma unanimidade entre analistas do mercado de que o Ibovespa deve voltar a se valorizar em 2023.
A maioria das 10 projeções colhidas pela Agência TradeMap aponta para um patamar de pelo menos 125 mil pontos ao final do ano que vem, o que seria um crescimento de 20,50% em relação ao fechamento desta quinta-feira (15) — desempenho que, se confirmado, será a maior variação positiva desde 2019, quando o Ibovespa fechou o ano com alta de 31,6%. Trata-se, também, de um desempenho superior ao que rende hoje a Selic, que está no nível de 13,75% ao ano.
Só duas instituições projetam o Ibovespa a um patamar inferior a 125 mil pontos em 2023: o Goldman Sachs, que estima 116 mil pontos, e a Genial Investimentos, com 109,7 mil pontos. Ambas, de qualquer forma, representam valorização em relação ao nível atual. Até quinta, o Ibovespa acumulava queda de 1% em 2022, a 103.738 pontos.
Por uma outra perspectiva, esta performance mínima projetada pela maioria não parece tão boa assim. Se de fato atingir os 125 mil pontos, o Ibovespa ainda estaria abaixo do recorde anotado em junho de 2021, quando bateu os 131 mil pontos. E em comparação ao pico de 2022, quando o índice alcançou os 121 mil pontos em abril, seria uma alta tímida, de 3,31%.
A máxima atingida neste ano coincidiu com um momento de elevação das tensões da guerra na Ucrânia, que aumentou o preço de commodities como o petróleo no mundo todo e acabou favorecendo o Ibovespa, que tem uma grande exposição a empresas ligadas a matérias-primas.
O índice caminhava para uma valorização até meados de outubro, mas quando a eleição presidencial parecia decidida a favor de Lula, uma percepção de risco fiscal tomou conta do mercado, o que levou o Ibovespa a recuar quase 10% desde então.
Como 2023 será marcado pelo início de um governo que desperta uma série de dúvidas no mercado, estimar o que será do Ibovespa é uma tarefa especialmente ingrata para os analistas.
Não por acaso, a XP, maior corretora do país, traçou mais dois cenários alternativos, um mais otimista e outro mais pessimista, além do cenário-base, que projeta o Ibovespa a 125 mil pontos ao fim do ano.
No cenário mais otimista, que consideraria uma taxa de juros recuando no ano que vem (hoje em 13,75% ao ano), o Ibovespa poderia atingir os 150 mil pontos. Contudo, no cenário mais pessimista, que considera uma nova alta nos juros brasileiros e uma recessão global “mais profunda” em 2023, o índice pode encerrar 2023 aos 90 mil pontos.
Seja como for, o fato é que a visão que a XP considera realista indica uma performance positiva da Bolsa em 2023, mesmo que ambiente macroeconômico e político não seja o dos sonhos para o mercado. E a razão é simples: lá fora os mercados tendem a enfrentar um ambiente pior, o que deve fazer o investidor estrangeiro olhar para o Brasil com mais carinho.
Na avaliação de Fernando Ferreira, estrategista-chefe da corretora, o cenário de possível recessão nos Estados Unidos em 2023 aliado a incertezas com a China e inflação alta na Europa podem impulsionar os investimentos estrangeiros na Bolsa brasileira.
Em evento para apresentar as perspectivas econômicas da empresa para o ano que vem, Ferreira afirmou que vislumbra um interesse alto dos investidores internacionais com o Brasil, pelo fato de a B3 ter uma exposição grande a ações ligadas a commodities e com a percepção de que a Bolsa está “barata”.
Uma forma de verificar se um ativo da Bolsa está barato é a relação preço/lucro (PL). Esse múltiplo calcula a relação entre o preço de uma ação em um determinado momento e o seu lucro por ação (LPA) nos últimos 12 meses.
No caso do Ibovespa, como se trata de um índice, considera-se o lucro de todas as suas empresas, ponderando pelo peso de cada uma no índice, e o preço seria a sua pontuação.
Com isso, quanto menor o P/L, mais barata a ação, ou nesse caso, o índice. Atualmente, a relação P/L do Ibovespa está em 4,4 vezes. Em 2020, o índice encerrou o ano com um P/L de 24,17 vezes, e no final de 2021, tinha um P/L de 5,28 vezes.
“Somado a isso, as outras opções para os investidores globais pioraram demais. Ele olha para a China e vê problemas, Europa nem se fala e EUA com uma possível recessão. Com isso, Brasil e México viraram países que o investidor está interessado”, disse Ferreira.
O México se beneficia, na visão do estrategista, por uma saída de multinacionais da China que estão em busca de outros países para alocar capital.
Segundo dados disponíveis na plataforma do TradeMap, os estrangeiros alocaram pouco mais de R$ 117 bilhões em 2022 na Bolsa brasileira, enquanto que os investidores institucionais e os pessoa física brasileiros retiraram cerca de 154 bilhões da B3. Ainda que não tenha feito uma projeção de investimentos estrangeiros para 2023, Ferreira prevê um número ainda alto.
O número investido até agora na B3 por estrangeiros já é 181% maior que os R$ 41,5 bilhões reportados pela administradora da Bolsa em 2021.
Um dia emblemático para o mercado foi o do pregão seguinte ao segundo turno da eleição, em 3 de outubro. Apesar de a vitória de Lula elevar a percepção de risco fiscal por parte do investidor brasileiro, o Ibovespa fechou o pregão com a maior valorização do ano, uma alta de 5,54%, impulsionado basicamente pelos aportes de estrangeiros, que alocaram R$ 2,38 bilhões.
Embora o mercado projete valorização da Bolsa em 2023, os riscos fiscais em torno do novo governo do PT podem colocar tudo a perder.
Parte dos investidores acreditava que Lula poderia dar sinais de uma gestão mais pragmática, como reflexo da frente ampla que foi formada durante a campanha para derrotar o presidente Jair Bolsonaro, mas o período de transição tem indicado que a volta do PT pode ser mais turbulenta para o mercado do que se imaginava.
Na semana passada, por exemplo, os investidores reagiram mal à escolha do petista Aloizio Mercadante, ex-ministro de Dilma Rousseff, para comandar o BNDES. Além disso, não caiu bem a notícia de que a Câmara dos Deputados aprovou uma mudança na Lei das Estatais que facilita indicações políticas para cargos em empresas públicas.
“O mercado, nas últimas semanas, se baseou bastante nos fatores ‘macro’, com investidores olhando indicações do governo e monitorando a PEC de Transição”, disse o estrategista de ações do Santander, Ricardo Peretti, à Agência TradeMap.
O próprio Santander, uma das casas mais otimistas para 2023, com projeção para o Ibovespa a 140 mil pontos, acredita que este patamar pode já estar alto demais. “Muito provavelmente é um numero que será revisado e ajustado para baixo, mas ainda é cedo para dizer, dadas as incertezas com o ano que vem”, disse Peretti.
De qualquer forma, o estrategista acredita que em algum momento a “poeira vai baixar” e as histórias “micro” — ou seja, os resultados das próprias empresas e notícias corporativas — vão começar a ter mais peso na precificação dos ativos.
A Ativa Investimentos, que projeta o índice aos 125 mil pontos no final do ano que vem, também ressaltou que há uma incerteza quanto ao futuro da política econômica brasileira a partir de 2023, que terá Fernando Haddad (PT) como ministro da Fazenda.
A Ativa acredita que o nome não “agrada o mercado”, o que retira o benefício da dúvida quanto ao governo do PT e coloca, como condição, uma regra que “traga garantias para um resultado fiscal que não comprometa a relação entre a dívida do país e seu PIB (Produto Interno Bruto)”.
Veja também:
Maioria dos gestores espera Ibovespa entre 120 mil e 130 mil pontos em 2023, aponta BofA
“Vemos a tarefa como difícil, devido à herança que o novo governo irá receber somado às intenções de colocar as politicas de transferência de renda, como o Bolsa Família, fora da regra fiscal na PEC da Transição”, afirma a Ativa, em relatório.
Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações da Ação Brasil, acredita que apesar de parte do mercado projetar esse cenário-base de 125 mil pontos, o risco fiscal com os juros ainda altos no Brasil pode fazer a Bolsa operar mais próxima do patamar atual, que é de 110 mil pontos, com o “ibovespa andando de lado a maior parte do ano”.
O copo meio cheio
No mercado, há quem esteja ainda mais otimista que o Santander. A corretora Guide, por exemplo, projeta que o Ibovespa encerre 2023 aos 150 mil pontos, um avanço de quase 50 mil pontos em relação ao patamar atual, o que traria um avanço de 50% na pontuação.
Os analistas da Guide, Fernando Siqueira, Rodrigo Fraga, Gabriel Gracia, explicam que as empresas mais expostas ao mercado doméstico devem ver um avanço nos seus lucros, o que pode impulsionar o índice.
Somado a isso, a corretora prevê uma queda nos juros brasileiros em 2023, o que, na visão de Siqueira, Fraga e Garcia, elevaria os preços dos ativos e pode fazer com que a “relação preço/lucro (PL) do Ibovespa aumente nos próximos meses”.
“O maior risco para este cenário positivo segue sendo os riscos de recessão nos EUA e Europa. O aumento da inflação e, consequentemente, dos juros nos EUA vão continuar pressionando os mercados por algum tempo”, afirmam os analistas da Guide.
Alves, da Ação Brasil, afirma que uma performance mais positiva do Ibovespa está ancorada em uma melhora dos indicadores econômicos brasileiros. “A priori isso não deve acontecer pelo menos no primeiro semestre, e no final do ano que vem será feito um balanço com base nas expectativas de 2024″, acrescenta.