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Fundos de renda fixa captam R$ 89 bi no 1º semestre; ainda vale a pena investir?

Fundos de renda fixa captam R$ 89 bi no 1º semestre; ainda vale a pena investir?

Temor com descontrole dos gastos públicos e incertezas globais levam à debandada de investidores do risco para opções mais conservadoras

Pilhas de moeda colocadas de forma escalonada com dois dedos em cima

Foto: Shutterstock

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A escalada dos juros pelo Banco Central (BC) desde março do ano passado, que tirou a Selic da mínima histórica de 2% para o atual patamar de 13,25% ao ano, tem aumentado a atratividade dos fundos de renda fixa.

Por aqui, além do combate à inflação, há um crescente temor com as investidas do governo federal no campo fiscal, que repele investidores brasileiros e internacionais dos riscos apresentados pela renda variável.

Na cena externa, o contexto conta com um aumento das incertezas globais diante do risco de recessão, em meio a uma inflação elevada, um consequente aumento sincronizado dos juros e os efeitos persistentes da pandemia de Covid.

A movimentação de recursos nos fundos de investimento de ativos arriscados para opções mais conservadoras no primeiro semestre de 2022 reflete bem esse cenário, segundo mostram os dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

No período, a indústria de fundos como um todo teve resgate líquido de R$ 23,1 bilhões.

Os fundos atrelados à renda fixa amenizaram o desempenho do mercado, com uma captação maior que os resgates em R$ 88,8 bilhões de janeiro a junho. A classe é a mais representativa da indústria, com 39% do patrimônio dos fundos brasileiros.

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Na direção oposta, opções expostas a ativos de maior risco registraram uma verdadeira debandada de investidores. Os fundos multimercado, que podem aplicar os recursos em ativos de renda fixa e variável, tiveram o pior desempenho da indústria, com resgate líquido de R$ 61,8 bilhões na primeira metade do ano. A opção é a segunda mais representativa da indústria, com 22% do mercado ao fim de junho.

Fundos de ações também ficaram no vermelho, com retirada de R$ 49,5 bilhões a mais do que a entrada de investimentos no semestre. O mercado detém a fatia de 6,5% da indústria de fundos.

Confira a seguir o desempenho das principais classes da indústria de fundos brasileira em junho, no primeiro semestre e em 12 meses.

Retorno alto com risco baixo

Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil Wealth Management, afirma que o movimento de migração de recursos para a renda fixa no primeiro semestre pode ser explicado pelo início do aumento dos juros no Brasil já no ano passado, enquanto outros bancos centrais começaram a mexer nas taxas apenas nos últimos meses.

Entre março de 2021 e junho deste ano, o BC injetou 11,25 pontos percentuais na Selic, um dos maiores choques de juros visto na economia brasileira desde a implementação do plano de metas para a inflação, em 1999.

A autoridade monetária já sinalizou novo aumento no próximo encontro do Copom (Comitê de Política Monetária), em agosto. A expectativa do mercado é por um novo acréscimo de 0,50 p.p (ponto percentual), elevando os juros a 13,75% ao ano.

“A tendência de saída da renda variável e multimercados se dá pela natureza comportamental do investidor, que vem buscar na renda fixa um retorno de alta previsibilidade e alta atratividade”, explica Barcellos.

O grau da demanda pela renda fixa também fica explícito ao destrinchar as opções de fundos listados pela Anbima.

Considerando a rentabilidade no primeiro semestre, entre as 11 opções no guarda-chuva dos multimercados, a maior rentabilidade partiu dos fundos do tipo “Macro”, com valorização média de 11,2%.

Para Patricia Palomo, diretora de Investimento e Operações da Unicred, o movimento de migração é natural em meio ao desconforto dos investidores com o tamanho das incertezas nos cenários internacional e doméstico.

As elevadas taxas dos juros, que atualmente rondam o maior patamar desde o fim de 2016, são um atrativo a mais para a escolha das opções mais atreladas à Selic.

“O investidor está buscando previsibilidade. Tesouro Selic e fundos simples são mais previsíveis e estão com um bom nível de remuneração. O investidor não precisa correr riscos para ter um rendimento interessante”, diz.

Na seara da renda fixa, os fundos cdo tipo “Duração Alta Grau de Investimento” foram destaque, com rendimento médio de 8,2% no primeiro semestre.

Ainda vale investir?

Segundo analistas, não há sinais de que os fatores que aumentaram a atratividade dos fundos em renda fixa no primeiro semestre irão se dissipar tão cedo, o que tende a deixar a renda fixa atrativa pelos próximos meses.

No cenário doméstico, o governo constantemente testa a paciência dos investidores com o anúncio de medidas que burlam o teto de gastos, a regra que limita as despesas do governo à variação da inflação e considerada a principal âncora fiscal do país.

O movimento deixa os mercados mais estressados e os investidores passam a demandar mais juros para investir no país. As turbulências devem se intensificar com a disputa à Presidência e por eventuais indicações de populismo fiscal explicitadas pelos dois principais candidatos.

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Na pauta global, está cada vez mais debatida entre os investidores a entrada dos Estados Unidos em recessão no próximo ano, em reflexo ao aumento dos juros pelo Fed (Federal Reserve, o BC americano) para conter a inflação.

A falta de perspectiva para a resolução no conflito no Leste Europeu, que mexe com o preço das commodities, e os impactos da política de “Covid Zero” na China, com o fechamento de cidades inteiras, aumentam as expectativas de disseminação de forças inflacionárias por todo o mundo por mais tempo do que o previsto.

A soma desses contextos faz analistas preverem a manutenção da migração dos investidores para a renda fixa em detrimento de opções mais arriscadas, apesar de em menor força do observado até agora.

A desaceleração é justificada pela antecipação do movimento ao longo dos últimos meses e pela expectativa de que a Selic não deverá subir muito além dos patamares sinalizados pelo Banco Central e precificados pelo mercado financeiro.

“As coisas vão andar na mesma direção, mas com intensidade menor. A renda fixa ainda será atrativa para os investidores”, afirma Barecellos. 

Não é hora de abandonar a renda variável

Apesar das condições menos atrativas nas opções de fundos em ações e multimercados, é recomendado aos investidores manter uma parte do patrimônio nesses ativos como meio de diversificação.

A alta volatilidade dos indicadores diante do clima de incerteza também deixa em terreno nebuloso o momento certo para a mudança do cenário, dando vantagem ao investidor que já está posicionado, mesmo que com pequena parcela do patrimônio.

“O investidor acaba perdendo período de ralis no meio do mercado negativo”, diz Rodrigo Sgavioli, head de Alocação e Fundos da XP Investimentos. “Ninguém sabe quando o mercado volta, esse pulso tem que ser sentido aos poucos.”

Há também de se levar em consideração o tempo de maturação dos investimentos. Em opções de ações, Sgavioli que o atual momento de opções mais baratas na Bolsa abrem uma janela de oportunidade para quem mira prazos de três a cinco anos.

“O receio de tudo ou nada entre os investidores pode levar à perda de excelentes oportunidades”, afirma.

Na mesma linha, Laís Costa, analista de renda fixa da Empiricus, diz que os investimentos entre opções na renda fixa e variável devem se tornar parelhas até o fim deste ano, mas as opções mais conservadores seguem tendo boas oportunidades.

“O fluxo deve equilibrar, mas as taxas [da renda fixa] ainda são muito atrativas para o longo prazo”, diz.

O retorno mais intenso dos investimentos para opções mais arriscadas, porém, só deve ser observado a partir do momento que o BC sinalizar a redução dos juros, algo que o mercado não espera que ocorra antes do primeiro trimestre de 2023.

“Essa discussão vindo a mesa já faz com que o dinheiro migre para o outro lado, já que o mercado sempre se antecipa as decisões”, afirma Costa, da Empiricus.

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