O investidor brasileiro, que já estava abalado pelo aumento das incertezas globais, têm perdido o sono ultimamente pelas novas investidas do governo federal sobre o compromisso fiscal, com propostas de desoneração de tributos e estímulo ao consumo na mesa.
O risco de colapso total do teto de gastos, a regra que limita as despesas do governo à variação da inflação e considerada a principal âncora fiscal do país, cresceu e pesou sobre os preços dos ativos. Para piorar, os sinais no horizonte apontam para mais turbulência, com o acirramento da disputa eleitoral à Presidência.
O movimento das taxas do Tesouro Direto é um bom termômetro desse clima. Quanto maior o risco de as contas públicas saírem do controle, mais retorno os investidores vão exigir para emprestar dinheiro à União.
Não à toa, em junho, papéis indexados à inflação chegaram a pagar juro real acima de 6% ao ano, enquanto o retorno de títulos com retorno prefixado superou os 13%.
Olhando para as taxas de vencimentos mais longos, que já embutem maior risco e são mais voláteis, o ambiente de estresse no primeiro semestre de 2022 fica ainda mais perceptível.
Os papéis do Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 lideraram as perdas do Tesouro Direto entre janeiro e junho, com desvalorização de 9,1%. No recorte dos últimos 12 meses, a queda foi ainda mais acentuada, de 22%.
Na direção oposta, destaque para o papel mais conservador do programa, o Tesouro Selic, cujo preço teve valorização de 6% no caso do vencimento de 2027.
O levantamento considera apenas os títulos públicos disponíveis atualmente para compra no Tesouro Direto.
Ao considerar também os papéis hoje reservados apenas para venda pelo investidor, o destaque da primeira metade do ano ficou com o Tesouro IGPM+ com Juros Semestrais, com alta de 6,6%.
Confira a seguir o desempenho em junho, no semestre e em 12 meses de todos os títulos públicos disponíveis atualmente para compra no Tesouro Direto.
E lembre-se que você só terá as perdas ou os ganhos indicados se vender os papéis antecipadamente. Se os títulos forem carregados até o vencimento, o retorno vai respeitar as taxas e as condições contratadas no momento da aquisição.
Vale investir no Tesouro Direto agora?
O aumento das taxas de longo prazo tem como pano de fundo o temor do mercado de que a inflação, que ainda gira acima de dois dígitos em 12 meses, perdure alta por mais tempo do que o previsto pelo Banco Central (BC), o que deve demandar uma Selic pressionada por um prazo também maior que o desejado.
Juros pressionados significam maiores dificuldades para o desenvolvimento da economia, já que a taxa Selic é usada como referência para a concessão de crédito.
Em meio à queda dos preços dos títulos públicos, analistas assinalam que papéis indexados à inflação com prazos mais dilatados, que estão pagando juros reais de 6%, podem ser uma oportunidade para aqueles que estão mirando na aposentadoria ou em ter uma reserva para os filhos.
“É uma taxa para quem quiser construir patrimônio, desde que tenha tempo para esperar o investimento maturar”, afirma Rodrigo Sgavioli, head de alocação e fundos da XP Investimentos.
Embora as taxas pagas pelos papéis sejam convidativas, é preciso ter claro que os fatores que levaram os prêmios para os atuais patamares ainda não se dissiparam, ou seja, os juros poderão ser ainda maiores no Tesouro Direto.
Pela dinâmica global, o principal risco é a escalada do conflito na Ucrânia, com o aumento da intensidade dos ataques ou a entrada de novos atores.
Há também forte pressão do outro lado do Atlântico, com a escalada dos juros americanos em meio aos maiores índices de inflação nas últimas décadas.
Na terceira semana de junho, o Fed (Federal Reserve, o BC americano) elevou a taxa básica em 0,75 p.p, o maior aperto desde 1994, e sinalizou que pode fazer aperto semelhante no encontro agendado para os dias 26 e 27 de julho.
O temor dos mercados é que a resposta da autoridade monetária contrate uma recessão na maior economia do globo, que acabaria impactando negativamente em todos os outros mercados em efeito dominó.
Já na pauta doméstica, o foco está no temor de aumento dos gastos públicos e a intensificação do processo de erosão das amarras fiscais.
Patricia Palomo, diretora de Investimento e Operações da Unicred, afirma que os fatores de risco para o aumento das taxas “estão na mesa”.
“Pode piorar antes de melhorar. É improvável, mas não impossível”, diz. “Vale a pena entrar agora, mas não tudo de uma vez. É muito difícil acertar o topo dessas situações, mas é possível acertar uma região de todos. O ideal é dividir o patrimônio e entrar em pedaços.”
O mercado tem reagido especialmente mal às propostas do governo para usar créditos extraordinários, ou seja, fora do teto de gastos, para custear o aumento de benefícios sociais.
Além do risco no curto prazo, há preocupações com os sinais emitidos pelos dois principais candidatos à Presidência em relação ao compromisso fiscal a ser assumido.
“O mercado vai ficar bem mal-humorado nesse período pré-eleitoral, salvo se alguém der um recado de ser mais responsável com as finanças”, afirma Sgavioli, da XP. “Ainda vamos ver bastante volatilidade, ainda mais em reta final de eleição.”
Letícia Cosenza, especialista em renda fixa da Blue3, acredita que a taxa do Tesouro Direto tenha alcançado uma espécie de teto, sem descartar, contudo, mais oscilações diante do cenário doméstico.
Comprometimento de ir até o fim
As oportunidades para quem quer investir em papéis do tipo Tesouro IPCA com vencimentos em 20 anos ou mais devem visar o carregamento dos títulos até seu vencimento, dizem os especialistas.
Por isso, Sgavioli recomenda que a exposição seja pequena, e que o investidor dê prioridade para opção de Tesouro IPCA com prazos médios entre 2026 e 2035, que hoje pagam juros reais de 5,64% e 5,86% ao ano, respectivamente.
“É preciso lembrar que, quanto mais longo o prazo, maior o risco de volatilidade. É recomendável ter papéis com vários vencimentos na parte curta e média, e quanto mais longo for, menor a exposição”, explica.
Com estratégia semelhante, Palomo destaca a importância do planejamento do investidor para não ter que sacar o investimento antes do prazo e se expor a um prejuízo.
“Um dos grandes riscos do investidor é o descasamento entre o quanto está investido e quando vai precisar resgatar. Se estiver em meio um cenário turbulento, é muito provável que perca dinheiro”, afirma.
E se o cenário é positivo para novos investimentos, para quem vê o rendimento cair mais de 1o% em seis meses é necessário ter sangue-frio para não se arrepender depois.
“Para quem está investido, é o pior momento para sair do título. Quando a curva [de juros futuros] abre tanto, a probabilidade de retorno negativo é muito grande”, diz o especialista da XP.
Cautela com prefixados
A mesma avaliação se aplica às opções prefixadas do Tesouro Direto. Com muita nebulosidade sobre os futuros da economia em escala global e doméstica, a indicação é preferir contratos com prazo curto, entre dois e cinco anos.
Eles permitem travar o rendimento em uma taxa específica e, se os juros caírem, antecipar parte dos ganhos esperados com a venda dos papéis.
Apesar de o Banco Central indicar que a alta da Selic deva parar em setembro no patamar de 13,75% ao ano, novas surpresas podem demandar mais ajustes, com potencial reflexo sobre o Tesouro Prefixado.
Diante das incertezas do mercado, a XP espera por uma sinalização mais clara do Banco Central sobre quando os juros vão parar de subir para aumentar a recomendação da compra de títulos prefixados.
Por ora, afirma Sgavioli, o risco é relativamente baixo apenas para papéis com vencimentos curtos, de até dois anos, disponíveis somente no mercado secundário de títulos públicos.
“É pouco provável que os juros subam a 20%, mas podem ir para 14%, 15%. Se travar no patamar de agora, o Tesouro Direto vai trazer uma rentabilidade próxima do CDI nesses dois anos”, diz Sgavioli.
Apesar de afirmar que não vê janela para juros mais altos do que o patamar de 13,75%, Cosenza, da Blue3, salienta precaução em relação aos prefixados longos.
“É recomendável prefixados mais curtos, de um ou dois anos, para não ter muitos riscos. A parte prefixada tem uma sensibilidade maior a questão dos juros. O risco agora é travar a rentabilidade e os juros continuarem a subir”, diz.
Pós-fixados mantêm atratividade com cenário incerto
As indicações de que os juros deverão ficar pressionados por mais tempo que o previsto mantêm a atratividade dos títulos pós-fixados, conhecidos por Tesouro Selic.
Por ter o retorno indexado à Selic e, portanto, baixo risco, a opção é mais recomendada para quem quer fazer uma reserva de emergência e pra o dinheiro de curto prazo.
Segundo Palomo, investidores com nível moderado de exposição ao risco podem manter até 40% do portfólio da renda fixa em opções vinculadas à Selic.
Para os mais conservadores, Sgavioli recomenda colocar até 80% do aporte no pós-fixado. “É o momento de aproveitar as taxas altas do pós, que não devem perdurar mais do que nos próximos dois ou três anos nesses patamares”, afirma.