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Entenda o que está por trás da onda de demissões em bolsas de criptos dentro e fora do Brasil

Entenda o que está por trás da onda de demissões em bolsas de criptos dentro e fora do Brasil

Queda do mercado cripto e falta de perspectiva no curto prazo contribuem para cortes em massa, mas não explicam todo o problema

Foto: Shutterstock

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As turbulências que derrubam as criptomoedas há mais de um mês chegaram ao mercado de trabalho e deflagraram uma onda de demissões em exchanges dentro e fora do Brasil.

Nas últimas semanas, quase uma dezena de empresas que atuam na compra e venda de criptos anunciaram cortes de pessoal, congelamento de vagas e reestruturação de negócios. E o futuro não parece muito promissor, ao menos no curto prazo.

Analistas ouvidos pela Agência TradeMap afirmam que o atual quadro desafiador e os sinais de desaceleração da economia global pela alta generalizada dos juros não são os únicos motivos por trás desse movimento de cortes.

Falta de planejamento das empresas, a ascensão dos criptoativos ao mainstream do mercado financeiro e a profissionalização da gestão, que impõe uma avaliação mais rigorosa da estrutura, também foram indutores do visto no segmento recentemente.

Movimento global

No mercado doméstico, o maior baque foi no grupo 2TM, responsável pelo Mercado Bitcoin e outros empreendimentos voltados ao criptouniverso. Na quarta-feira (1º), o conglomerado anunciou o corte de 90 empregados, cerca de 11% de toda a sua força de trabalho.

Na quinta-feira (2), a Gemini, com base em Nova York, afirmou que abriria mão de 10% dos funcionários, no total de 130 demissões. A empresa possui cerca de 1,3 mil colaboradores, segundo a página oficial no LinkedIn..

No mesmo dia, a Coinbase, considerada a maior exchange dos Estados Unidos, anunciou um recuo nas contratações em meio a um processo de reavaliação no time de colaboradores.

Houve também cortes na mexicana Bitso, na argentina Buenbit e na Rain Financial, sediada do Bahrein.

Em comum, os anúncios de demissões e mudanças citaram o atual clima de desafios para o mercado financeiro e a necessidade de ajustes para manter os projetos sustentáveis no longo prazo.

Para a 2TM, “o cenário exigiu ajustes que vão além da redução de despesas operacionais, tornando-se necessário também o desligamento de parte de nossos colaboradores.”

Já a Coinbase citou que “dadas as condições atuais do mercado, achamos prudente desacelerar as contratações e reavaliar nossas necessidades de pessoal em relação às nossas metas de maior prioridade aos negócios”.

Ventos contrários

As demissões em massa ocorrem não muito tempo depois de um clima de euforia que levou a cotação do Bitcoin (BTC) atingir a máxima histórica de US$ 69 mil, em novembro do ano passado.

De lá para cá, a maior criptomoeda em capitalização já perdeu cerca de 56% de valor, e atualmente luta para se manter na faixa de US$ 30 mil.

“O interesse nas criptos entrou em colapso com muitos investidores em dúvida se o retorno aos tempos prósperos estão próximos”, explica Edward Moya, analista sênior de mercado para as Américas da corretora e casa análise Oanda, que também negocia criptoativos.

Apesar de os especialistas citarem a volta do “inverno cripto” – período marcado por perdas fora do habitual –  a proporção de queda do mercado está bastante distante dos solavancos sofridos em crises anteriores, como a queda de 73% observada em 2018.

Fabio Alves Moura, sócio da AMX Law, escritório de advocacia focado no mercado de blockchain, lembra que os responsáveis pelas exchanges já enfrentaram e superaram adversidades, o que não justificaria as demissões apenas pela expectativa de tempos difíceis à frente.

As análises gráficas apontam justamente o contrário: após fortes quedas, o BTC sempre se recuperou para patamares maiores ao pré-crise.

“Se pensar no horizonte de médio prazo ao atual, não é algo tão grave. Essa queda acende um alerta muito mais na percepção do público, mas para o mercado pode ser um prenúncio de um novo ciclo de alta”, diz.

Expansão exagerada

O movimento de cortes em diferentes países também expõe o modelo sobre o qual as exchanges foram montadas. A valorização recorde do BTC no ano passado gerou muito mais dinheiro para o mercado, o que induziu a uma expansão exagerada dos negócios sem considerar possíveis adversidades.

A euforia, porém, deu lugar a um sentimento de cautela e fuga de investidores, impactando diretamente o lucro das empresas – e na capacidade de manutenção de uma estrutura dispendiosa.

Em nota aos colaboradores, a Gemini reconheceu esse ponto ao afirmar que o mercado é formado por momentos de “hipercrescimento, seguidos por fortes contrações”. “É aqui que estamos agora”, disseram os gestores.

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Segundo Moura, do AMX Law, o atual momento de queda trouxe um choque de realidade para as empresas, principalmente na questão no número de colaboradores e na necessidade de manter equipes que poderiam ser terceirizadas, como o setor jurídico.

“Contratou-se contando com uma expansão contínua, e como isso não aconteceu no ritmo esperado, as exchanges começaram a se questionar se de fato precisam de tanta gente”, afirma.

A mesma visão é compartilhada por Moya. O analista da Oanda cita a falta de planejamento dos gestores para se precaverem de que os ganhos não iriam durar para sempre.

“Muitas exchanges se expandiram e não contaram com um inverno cripto prolongado”, afirma.

Profissionalização dos negócios

Após anos sendo marginalizado, o Bitcoin entrou no radar dos investidores institucionais. Esse movimento pode ser percebido pela disparada de capitalização do ativo, que passou de US$ 150 bilhões em março de 2020 para o pico de US$ 2,9 trilhões em novembro de 2021.

A ascensão do BTC ao mainstream colocou todo o mercado em evidência, e não demorou muito para que as exchanges entrassem na mira de fundos de investimento.

Em 2021, a 2TM recebeu aporte de US$ 250 milhões do Softbank – o maior investimento do tradicional grupo japonês em uma startup na América Latina. Em janeiro deste ano, o Mercado Livre, maior e-commerce da América Latina, comprou parte da 2TM por valor não divulgado à época.

Na mesma época, a Bitso teve uma injeção de recursos semelhante liderado pelos investidores Tiger Global e Coatue. O dinheiro elevou a exchange mexicana ao patamar de unicórnio – classificação que se dá para projetos que valem mais de US$ 1 bilhão.

Em outra frente para capturar dinheiro, em abril do ano passado a Coinbase se tornou a primeira grande exchange a oferecer ações no mercado financeiro. O IPO na Nasdaq fez bastante barulho e foi considerado um divisor de águas no mercado cripto.

O clima, agora, não é de tanta alegria. Em pouco mais de um ano, os papéis da COIN saíram de US$ 328 para os atuais US$ 69,57, um tombo de 78%.

De acordo com Moura, a proximidade dos grandes investidores forçou a profissionalização dos negócios, ou seja, houve mais pressão para apresentar o máximo de resultados com o menor custo.

“As exchanges foram para a bolsa e começaram a negociar com investidores qualificados. Isso faz com que elas tenham que trabalhar na linguagem deles em questão de produtividade, custo e melhores práticas de gestão”, explica. 

Expectativa de mais cortes

A falta de perspectivas para a recuperação do mercado no curto prazo dá margem para novos cortes.”O medo nos mercados de criptomoedas é alto, e muitos investidores estão posicionados para uma última grande queda”, diz Moya, da Oanda.

Para Moura, mesmo que a recuperação do mercado ocorra, dificilmente as exchanges voltarão ao nível de contratações vistos em tempos passados. “As empresas estão sentindo que dá de fazer mais com menos”, afirma.

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