Empresas de tecnologia sofrem com a alta dos juros; risco ou oportunidade?

Das 14 empresas de tecnologia que abriram capital desde 2019, 11 tiveram um desempenho pior que o Ibovespa em 2021

Desde que o Banco Central (BC) voltou a subir juros no Brasil, no primeiro semestre do ano passado, as empresas do setor de tecnologia estão entre as que mais têm sofrido na Bolsa.

Isso acontece porque se trata de um ramo visto pelo mercado como mais arriscado, uma vez que a maioria delas chega à B3 como um negócio que ainda precisa se provar lucrativo.

Se os juros estão maiores, portanto, o que pressupõe um ambiente de mais risco, os investidores preferem passar longe desses ativos e dão prioridade às ações de empresas de segmentos mais consolidados.

Em menos de um ano, o BC elevou os juros de 2% para 10,75%. E a tendência é que o aperto monetário continue. Segundo as projeções de analistas do mercado, levantadas pelo próprio BC e reunidas no boletim Focus, a Selic deve atingir a marca de 12,25% ao fim de 2022.

O restante do mundo também faz esse movimento. Nos Estados Unidos, a expectativa do mercado é que o Federal Reserve (Fed, o banco central do país) volte a subir as taxas de juros em março, em um esforço para conter a inflação acelerada.

Das 14 empresas de tecnologia que abriram capital desde 2019, 11 tiveram um desempenho pior que o Ibovespa em 2021. A que mais se desvalorizou foi a GetNinjas (NINJ3), uma plataforma online que conecta clientes a prestadores de serviços, que viu suas ações entrarem no mercado por R$ 20 e hoje são negociadas a R$ 3,62.

O analista de investimentos Mateus Messias, da Inside Research, lembra também que os investidores brasileiros estão pouco acostumados a analisar empresas de tecnologia, uma vez que boa parte delas é novata na B3. “A maioria dos IPOs ocorreu de outubro de 2020 para cá”, ressalta.

Pelo tempo curto de capital aberto, também há um número reduzido de informações disponíveis, uma vez que poucos balanços foram divulgados. “Com isso, no momento que a taxa de juros brasileira está alta, o mercado começa a correr para ações como Petrobras, Vale, B3, grandes bancos – pois sabe que, ali, não terá perda de capital”, afirma 

Para piorar o cenário, as companhias de tecnologia, em geral, precisam captar recursos no mercado para financiar seus negócios que geram pouco ou nenhum caixa. Se os juros sobem, tomar empréstimos para tocar a operação também se torna mais caro.

As “pechinchas” da bolsa

Por outro lado, há o copo meio cheio. Com as ações em queda, algumas empresas podem aparecer como baratas para os investidores mais atentos.

Uma forma de identificar isso é dividir o valor de mercado da empresa (pelo critério de enterprise value, que inclui as dívidas da companhia) pela receita registrada em um ano. Assim, é possível saber em quantos anos a companhia consegue “se pagar”. Quanto menor o tempo, mais barata a empresa é.

Segundo levantamento feito pela Agência TradeMap com todas as 14 empresas de tecnologia que abriram capital desde 2019, seis delas precisariam de menos de um ano de faturamento para atingir o seu valor de mercado.

Empresa Ticker EV/Receita Preço mais alto da ação em 2021 Preço atual  (fechamento do dia 22/02/22)
Mobly MBLY3 0.21 R$ 26,40 R$6,23
LWC Networks LVTC3 0.25 R$ 26 R$ 13,26
Multilaser MLAS3 0.27 R$ 12,98 R$ 6,31
Bemobi BMOB3 0.81 R$ 26 R$ 14,72
Neogrid NGRD3 0.92 R$ 11,70 R$ 2,66
IntelBras INTB3 0.95 R$ 32,41 R$ 31,41
Mosaico MOSI3 1.00 R$ 41,03 R$ 7,83
GetNinjas NINJ3 1.01 R$ 27,05 R$ 3,63
Dotz DOTZ3 1.15 R$ 17,15 R$ 2,61
Enjoei ENJU3 1.20 R$ 20,90 R$ 2,86
ClearSale CLSA3 1.83 R$ 29,69 R$ 9,22
Infracomm IFCM3 2.96 R$ 23,30 R$ 14,02
Meliuz CASH3 3.52 R$ 12,33 R$ 2,50
Locaweb LWSA3 5.04 R$ 25,79 R$ 10,12

Fonte: TradeMap

A Mobly (MBLY3), empresa que atua no comércio eletrônico de varejo do setor de móveis e decoração, é a mais “descontada” da bolsa brasileira, com um EV/Receita de 0,21 vez.

A companhia possui um valor de mercado de R$ 572 milhões, e apresentou, nos 12 meses encerrados no terceiro trimestre de 2021, um lucro de R$ 2,68 bilhões. Desde o IPO, realizado no dia 5 de fevereiro de 2020, porém, a ação da empresa acumula queda de 75%.

Para o analista João Abdouni, a GetNinjas é uma das que se apresentam como uma oportunidade de investimento. “O mercado está com uma expectativa de que ela não utilize bem seus recursos.  Mas a empresa negocia a R$ 190 bilhões, e a posição de caixa é de R$ 308 bilhões, não tem como falar que não está barata”, comenta.

Ele pondera, no entanto, que ainda existe o risco de a ação ser um Value Trap, quando um papel parece estar com desconto, mas, na verdade, só está desvalorizado porque é um mau negócio.

Messias, da Inside, afirma que, no setor de tecnologia, prioriza empresas Business-to-business (B2B) — companhias que fazem negócios com outras companhias — e mais consolidadas, com mais tempo de mercado e capital aberto. “Por mais que apresentem menos crescimento, possuem mais estabilidade, com um alto custo de troca. Gostamos de Sinqia (IPO em 2013) e Totvs (IPO em 2006)”, afirma. 

Além disso, Messias destaca que prefere ações de empresas que trabalham com hardware, ao invés de software. A Positivo (POSI3), por exemplo, empresa de tecnologia que já consta na bolsa de valores desde 2006, é vista como uma boa aposta. “A Positivo teve uma reviravolta e subiu ano passado, então vemos a empresa de forma mais positiva no setor. Até porque ela já é mais consolidada e já gera caixa”, diz o analista.

Já Abdouni afirma que a posição da Inversa é neutra em relação aos papéis de tecnologia na bolsa, e que é muito difícil prever quais sairão “vencedoras”. Contudo, ele vê potencial para Dotz  (DOTZ3), por negociar um valor quase igual a seu caixa, e para Bemobi (BMOB3).

O desafio das techs

Além da mentalidade mais protetiva do investidor brasileiro, que, em um momento de alta nos juros, prefere investir em ações de empresas mais consagradas, existe também a concorrência externa.

Para Messias, se é para colocar dinheiro no setor de tecnologia, vale mais a pena investir em empresas de fora do Brasil do que em small caps por aqui. “Tivemos quedas expressivas também nas ações de Google, Meta e Nvidia, por exemplo, lá fora. Pensando como custo de oportunidade, talvez faça mais sentido investir no exterior, em empresas já mais consolidadas do que em companhias domésticas”, afirma.

A Meta (FBOK34), dona do Facebook, por exemplo, já caiu 27,08% no último ano. A Amazon (AMZO34), empresa do bilionário Jeff Bezos, recuou 11,88% de fevereiro de 2021 até agora.

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