A Netflix, que surfou sozinha por muitos anos no oceano dos streamings, agora vê uma maré um pouco mais turbulenta pela frente. No segundo trimestre, por exemplo, perdeu pela primeira vez na história título de maior base de assinantes do mercado.
Os streamings da Disney somados ultrapassaram a Netflix no período. No final de junho, a empresa do Mickey confirmou um total de 221,1 milhões de assinantes em todas as suas plataformas (Disney+, Hulu e ESPN) no mundo. Com isso, ultrapassou os 220,7 milhões da Netflix.
Porém, se engana quem acha que a estratégia da empresa é recuperar a qualquer custo o primeiro lugar. De acordo com o estrategista-chefe da corretora Avenue Securities, William Castro Alves, a empresa, e o setor como um todo, estão entrando numa segunda fase de suas existências, com o objetivo de tornar o negócio lucrativo.
“A Netflix já está nessa fase, e vem quebrando a cabeça para queimar menos caixa. A companhia não tem entregado tanto crescimento, e talvez nem esteja preocupada com isso. O foco agora é rentabilizar esses mais de 200 milhões de assinantes”, pontua Alves.
Vale lembrar que a Netflix sofreu um baque no primeiro trimestre deste ano, quando perdeu assinantes pela primeira vez em sua história. Na ocasião, os papéis caíram 35,12% após a divulgação do balanço, com uma perda de mais de US$ 50 bilhões em valor de mercado.
Parte dessa queda é explicada por uma volatilidade normal do papel, segundo Alves, da Avenue. Isso porque, diferente dos seu concorrentes, o streaming é o único negócio da Netflix. Enquanto isso, a Amazon, dona do Prime Video, tem como business principal a plataforma de comércio eletrônico, e a Apple, dona do AppleTV, já é uma consagrada produtora de artigos de tecnologia.
O segundo trimestre da Netflix
Apesar dos primeiros três meses ruins, o segundo trimestre foi melhor que o esperado. A empresa atingiu uma receita de US$ 7,97 bilhões, abaixo da estimativa de US$ 8,03 bilhões compilada pelo Refinitiv, mas com lucro por ação de US$ 3,20 – maior que o de US$ 2,94 esperado por analistas. O lucro líquido foi de US$ 1,44 bilhão.
A queda no número de usuários, com 970 mil perdas, foi menos severa que a esperada pela companhia, que previa 2 milhões de cancelamentos. Para os próximos três meses, a expectativa da Netflix é conquistar 1 milhão de assinaturas.
Jennie Li, Pietra Guerra e Rafael Nobre, analistas da XP, ressaltaram, em relatório, que a companhia está planejando lançar planos de assinatura de baixo custo, que serão sustentados por anúncios. A companhia também informou que está no estágio inicial de um plano pago de compartilhamento de contas.
Para analistas do UBS, também em relatório, o resultado de abril a junho foi melhor do que o esperado. Agora, a previsão do banco é de que a Netflix termine 2022 com 3,3 milhões de adições à sua base de usuários. Antes a expectativa era de 2,8 milhões.
Contudo, a projeção para o terceiro trimestres de 2022 de adição de 1,2 milhão de usuários, será bem abaixo dos 4,4 milhões adquiridos no mesmo trimestre do ano passado.
Para o ano que vem, os analistas John C. Hodulik, Batya Levi e Christopher Schoell, projetam adição de 9,5 milhões de usuários, principalmente impulsionada pelos planos de assinatura com anúncios publicitários.
O estrategista-chefe da Avenue ressalta que essa reversão nas expectativas foi causada por uma base de clientes já estabilizada e cativa pelos conteúdos.
“Não é por acaso que a Netflix apresenta métricas diferentes no seu balanço. No segundo trimestre, mostrou que a série ‘Stranger Things‘ teve mais menções no Twitter do que alguns filmes lançados no cinema. Além disso, destacou que as pessoas ficam mais tempo na sua plataforma do que em outras”, comentou.
Assim como a Netflix, a Disney revelou que estuda uma nova estrutura que envolve publicidades durante os conteúdos, além de um aumento no valor dos planos nos Estados Unidos.
“Durante o terceiro trimestre fiscal, Disney+, Hulu e ESPN+ juntos perderam US$ 1,1 bilhão, refletindo o maior custo de conteúdo nos serviços”, destacaram, Li, Guerra e Nobre, analistas da XP em relatório.
Para o futuro, a Disney projeta terminar 2024 com até 245 milhões de assinantes, uma queda de 15 milhões em relação à projeção anterior.