Dólar mais perto de R$ 5 ou R$ 6? Saiba o que esperar em 2023

Cenário ruim para outros emergentes pode ajudar a manter real no patamar de 2022, mas risco fiscal impulsiona dólar. Confira!

Foto: Shutterstock/FOTOGRIN

Há uma piada recorrente entre economistas que diz que há formas melhores de se perder a reputação do que tentar projetar a cotação do dólar. Isso é válido em especial para o Brasil, onde a moeda é particularmente sujeita à volatilidade política e econômica que caracteriza o país, sem falar nas turbulências externas, que se refletem com rapidez na nossa atividade através dos preços das commodities. ​

​O cenário para 2023 é particularmente difícil de prever. ​

​O Banco Central já avisou, na decisão em que manteve a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano, que o momento é de incerteza fiscal elevada, cenário que vem se confirmando nestes primeiros dias do novo governo.

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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ainda não detalhou qual será a âncora fiscal que substituirá o teto de gastos a partir de 2023, e o fato é que o mecanismo em vigor hoje, previsto na Constituição, foi driblado repetidas vezes nos últimos anos. ​

No exterior, a inflação persistente torna a tarefa dos bancos centrais cada vez mais difícil, e os mercados vêm precificando cada vez mais a possibilidade de uma recessão como consequência da alta de juros em grandes economias. ​

Tudo isso aponta para um dólar mais alto, mas há sinalizações na direção contrária também.

Quando o Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) interromper a alta da taxa americana, o que pode acontecer no final do primeiro trimestre de 2023, a moeda deixará de se valorizar, e isso pode beneficiar divisas de emergentes. ​

​O Brasil, por não ser palco de conflitos geopolíticos, regimes autoritários ou restrições severas à circulação, como Rússia, Turquia e China, pode se destacar se esse cenário se concretizar, ainda mais quando se lembra que o país tem a maior taxa de juros real (descontada a inflação) do mundo. ​

Qual será o patamar das commodities?​

Outro ponto é que, apesar da expectativa de queda nas cotações das commodities ao longo de 2023, os preços das matérias-primas devem se manter acima do patamar pré-pandemia, o que pode beneficiar o Brasil. ​​

Por isso, a avaliação da maior parte dos analistas é que, se o governo Lula não for um verdadeiro desastre fiscal e sinalizar caminhos para garantir uma trajetória sustentável para a dívida pública, tudo deve ficar no zero a zero. ​

Por enquanto, a expectativa mediana dos analistas ouvidos no Boletim Focus é que o dólar feche 2023 em R$ 5,27, mesmo patamar dos R$ 5,28 registrados no último pregão de 2022.

As projeções foram feitas na última sexta-feira ​de dezembro, mas podem ser ajustadas rapidamente. Após as críticas de Lula na posse, durante o último fim de semana, e a decisão de prorrogar a desoneração de combustíveis, a moeda americana ultrapassou os R$ 5,40. Nesta quarta (4), por volta das 16h, a divisa era negociada a R$ 5,44.

Alta suave ou acentuada? ​

Na avaliação de Maurício Oreng, superintendente de pesquisa macroeconômica do Santander, feita antes da posse de Lula, a taxa de câmbio deve encerrar 2022 em R$ 5,30, subindo para R$ 5,40 no final de 2023 e R$ 5,50 em dezembro de 2024. ​

​“Não vemos um cenário de estresse para o câmbio. No Brasil temos uma moeda bastante ligada a commodities, cujos preços devem ceder, mas que ainda devem se manter em um patamar entre 20% e 30% acima do pré-pandemia. Isso é um fator baixista para a taxa de câmbio”, avalia. ​

​O especialista pondera que esse é um efeito que deve balancear a incerteza do cenário fiscal negativo e do aumento dos juros internacionais no médio prazo. “Acreditamos em uma trajetória de alta suave do dólar”, aponta. “Esse é um cenário consistente com alguma contenção fiscal para a sustentabilidade da dívida.” ​​

Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, é menos otimista. Na avaliação do especialista, o câmbio deve continuar se desvalorizando, com 2023 encerrando com o dólar cotado a R$ 5,80. ​

“Nos EUA, ainda haverá algumas altas residuais dos juros, e o diferencial de juros pressiona o dólar”, explica. “O segundo fator é a alta da dívida líquida, que tem a ver com o cenário fiscal e que também coloca pressão no dólar. E vemos um cenário de queda das commodities lá fora, por causa da desaceleração global”, completa. ​

​Salles avalia que uma eventual reabertura maior da China, que vem sinalizando para a flexibilização da política de Covid zero, pode estimular a segunda maior economia do mundo e elevar a demanda por commodities. “Mas há também a crise no mercado imobiliário chinês”, pondera. “E esse não é um problema que necessariamente será resolvido no ano que vem.” ​

Ele alerta que esse é um cenário em que o novo governo apresente uma nova âncora fiscal, que permita ao mercado avaliar a sustentabilidade da dívida pública. “Precisamos continuar medindo o pulso de como fica a situação fiscal.” ​

O peso do cenário fiscal ​

É exatamente o cenário fiscal a principal preocupação dos economistas. Em um discurso duro feito somente após 10 dias após a vitória, Lula defendeu a ampliação de gastos públicos, criticou o teto de gastos e a reforma da Previdência e disse que trabalhará por mudanças na legislação trabalhista.

Apesar da óbvia insatisfação do mercado, insistiu no nome de Fernando Haddad para a Fazenda e confirmou o nome de Aloízio Mercadante para a presidência do BNDES. ​

Durante a posse como presidente da República, Lula voltou a fazer críticas fortes ao teto de gastos e, em um dos seus primeiros atos, decretou a prorrogação por 60 dias da desoneração de combustíveis. 

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A medida foi vista como uma desautorização do tom fiscalista que Haddad vem adotando, e fez a cotação da moeda americana ultrapassar os R$ 5,40 na primeira semana do novo governo. 

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