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De olho em novos unicórnios, investidores de startups levam plataformas de investimento coletivo a terem recorde de captação

De olho em novos unicórnios, investidores de startups levam plataformas de investimento coletivo a terem recorde de captação

Atualização de regra da CVM deve impulsionar o mercado, que cresceu 224% em 2021

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Enquanto o número de cancelamento de ofertas de ações só cresce na Bolsa neste ano, as captações de recursos via plataformas de investimento coletivo, também conhecidas como equity crowdfunding, vão de vento em popa e têm atraído um número cada vez maior de investidores.

Só em 2021, o total levantado em 75 rodadas de investimentos realizadas nas dez maiores plataformas somou R$ 124,4 milhões, crescimento de 224,3% em relação ao volume captado em 2020, de acordo com dados da plataforma CapTable.

A expectativa é que esse mercado ganhe mais escala com a atualização da Instrução 588 da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que regula esse mercado e que está prevista para sair no primeiro semestre.

Entre as mudanças esperadas estão a ampliação do limite de faturamento das empresas que podem acessar essas plataformas de R$ 10 milhões para 30 milhões, e do volume máximo a ser captado pelas companhias em cada rodada de investimento, de R$ 5 milhões para pelo menos R$ 10 milhões.

Regulamentadas pela CVM em 2017, as operações de captação de recursos via crowdfunding, uma espécie de “vaquinha virtual”, ajudaram a democratizar o acesso das pessoas físicas a esse investimento, antes restrito a fundos de venture capital e investidores anjos, com maior poder aquisitivo, conhecidos como “tubarões”.

A startup de vinhos brasileira Veroni encerrou na semana passada a reserva dos R$ 2,4 milhões almejados na rodada de captação via plataforma da beegin, do Grupo Solum, em apenas 52 horas. “Tivemos a entrada de cerca de 150 investidores, entre pessoas físicas e estratégicos, como do setor de distribuição de bebidas e fundos, nessa rodada e temos lista de espera”, diz Ricardo Fernandes, sócio e investidor estratégico da companhia.

De acordo com informações da oferta, a empresa, que teve um faturamento de R$ 2,5 milhões em 2021, mira entregar um retorno de cinco vezes o capital investido em quatro anos. O investimento mínimo por investidor era de R$ 2 mil.

“Decidimos fazer uma captação via plataforma de investimento coletivo porque basicamente cada investidor vira embaixador da marca”, afirma Fernandes. Ele lembra que, lá fora, outras empresas de bebidas, como a cervejaria BrewDog, já utilizaram essa estratégia para crescer.

Como selecionar as melhores empresas

Fundada em 2019, a empresa é uma marca de vinhos veganos que faz a importação e distribuição das bebidas de vinícola no Chile, seguindo critérios ESG (que leva em conta aspectos sociais, ambientais e de governança). A expectativa é superar R$ 6,2 milhões em faturamento neste ano, afirma Fernandes, que já investiu em uma empresa que foi vendida para o Reclame Aqui e foi fundador da LegalLabs, vendida para a Neoway e adquirida pela B3 em 2021.

Além de Fernandes, a empresa conta com executivos com experiência em outras empresas do ramo de alimentos e bebidas, como Fazenda do Futuro, Suco do Bem, ABInbev e Desinchá. “Minha dica para os investidores em startups é olhar quem são os empreendedores e o management da empresa”, diz Fernandes.

Desde o início, em 2020, a beegin já levantou mais de R$ 15 milhões na plataforma, de empresas de seguros (insurtechs) a startups da área de saúde e de varejo, totalizando um montante de R$ 100 milhões via Grupo Solum, diz o CEO Rodrigo Fiszman.

“Focamos em empresas que faturem a partir de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões ao ano, faixa em que a taxa de mortalidade do negócio é menor, de setores resilientes, com grande potencial de crescimento, time excepcional, as quais acompanhamos até a saída do investimento”, assinala Fiszman.

Só a plataforma CapTable pretende levantar R$ 250 milhões neste ano entre as operações na plataforma de investimento coletivo e nas rodadas de investimentos com fundos de venture capital, um aumento de 405% ante os R$ 50 milhões registrados no ano passado, afirma o cofundador Guilherme Enck. A StartSe acabou de aumentar a participação na companhia, passando a ter o controle acionário.

A CapTable atua em diferentes estágios do ciclo de investimento das empresas, que vão desde a captação de recursos via plataforma de crowdfunding a operações de corporate venture capital, que envolvem rodada com cheques maiores de fundos.

A empresa já realizou 46 rodadas de captação, levantando R$ 67,1 milhões para 44 startups e atraindo quase 6 mil investidores. Uma delas foi a rodada de investimento da Zletric, empresa de recarga de veículos elétricos e híbridos, que captou R$ 5 milhões em 89 minutos.

O limite de captação para as empresas por rodada de investimento, de acordo com a Instrução 588, é de R$ 5 milhões, mas é comum empresas fazerem mais de uma oferta via essas plataformas. A CapTable, por exemplo, prevê a realização de sete ofertas subsequentes (follow-ons) na plataforma neste ano.

O investimento mínimo na plataforma é de R$ 1 mil e o tíquete médio por investidor, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Enck lembra que o investimento em startups tem um horizonte maior, de pelo menos três a cinco anos.

Novas regras da CVM devem alavancar negócios

Já a plataforma EqSeed tem focado em empresas que ofereçam escalabilidade, sejam inovadoras e operacionais. A plataforma captou R$ 24 milhões em 2021, levantando ao todo R$ 61 milhões desde o início da operação, em um total de 50 rodadas de investimentos.

“Esperamos pelo menos dobrar o volume neste ano com as mudanças da regra pela CVM”, diz Brian Begnoche, sócio-fundador da EqSeed.

O investimento mínimo é de R$ 5 mil, mas o executivo diz contar com uma base maior de investidores qualificados, que têm mais de R$ 1 milhão em investimentos.

A plataforma da SMU Investimentos não apenas viabiliza a operação, como coinveste com os investidores. Já foram levantados mais de R$ 50 milhões para 40 empresas via plataforma, de fintech a empresas de energia solar por assinatura, como a Solar 21. “Buscamos um alinhamento de expectativas e um compartilhamento do risco”, diz o sócio Diego Perez.

A própria SMU levantou R$ 2 milhões por meio de crowdfunding em duas horas. O investimento mínimo na plataforma é de R$ 2 mil.

Com a venda da empresa de tecnologia Nuveo, por exemplo, a SMU embolsou um retorno anual de 35% em quatro anos. “Fazemos a gestão do portfólio das empresas investidas em que buscamos encontrar oportunidades de saída para os investidores”, afirma Perez.

A SMU pretende triplicar o volume levantado neste ano. Para Perez, o impacto da alta da taxa básica de juros nesse mercado é mais limitado, já que o foco são investimentos de mais longo prazo. Da mesma, o mercado de fusões e aquisições continua aquecido, possibilitando a saída dos investidores.

“Existem empresas muito capitalizadas no Brasil, que atingiram o status de unicórnio ou que abriram capital na bolsa, e que estão fazendo aquisições”, pontua.

Projetos devem ampliar liquidez no mercado secundário

Em geral, a saída desse tipo de investimento se dá por meio da venda da empresa para um investidor estratégico, para um fundo de investimento ou para outra companhia.

Como grande parte das companhias ainda é de sociedades limitadas, o investidor adquire títulos de dívida conversíveis em ações dessas empresas. A expectativa é que a atualização da Instrução 588 traga mais liquidez para esse mercado, ao permitir aos investidores negociarem seus direitos de participação pelas plataformas, como se fosse um mercado de balcão de investimentos em startups. “Hoje o investidor só pode oferecer a sua parte para os atuais sócios”, explica Fiszman, do Grupo Solum.

Esses investimentos costumam contar com uma cláusula de drag along, que obriga investidores a venderem sua participação no caso de venda da empresa por parte dos controladores, desde que o retorno dos investimentos seja o dobro do capital investido via plataforma, diz Enck.

Algumas plataformas, como a SMU Investimentos e o Grupo Solum, já tiveram projetos aprovados pelo sandbox regulatório da CVM para começar a testar o mercado secundário desses investimentos. “Tivemos uma licença temporária da CVM para testar o mercado secundário de balcão organizado e pretendemos iniciar as transações em junho”, diz Perez, da SMU.

Fiszman conta ter recebido em 2021 a aprovação da CVM para um projeto para montar um balcão organizado para venda de empresas de até R$ 300 milhões ao ano de faturamento.

As taxas de retorno dependem de cada empresa e setor. A fintech Alter, por exemplo, foi vendida para a Méliuz por R$ 29,5 milhões, garantindo uma taxa de retorno para os investidores que entraram na empresa na plataforma da CapTable de 74% em oito meses.

Já o investimento na Nuveo, empresa que usa tecnologia para reduzir o custo de backoffice, entregou um retorno de 35% ao ano para os investidores da plataforma SMU em quatro anos.

Já na Eqseed houve cinco desinvestimentos nos últimos 18 meses para investidores estratégicos. “As empresas foram adquiridas por grupos maiores, gerando eventos de liquidez e retorno para os investidores”, diz Begnoche.

Fizsman afirma que, antes de investir via plataformas de investimento coletivo, é importante o investidor ficar atento se a empresa está registrada e autorizada a operar pela CVM.

Como esse tipo de investimento não tem a mesma liquidez que comprar ações na bolsa, ele sugere para o investidor aplicar apenas uma pequena parte do patrimônio em startups como diversificação “Faz sentido ter 5% a 15% do seu portfólio em startups, dependendo do seu perfil, diversificando a alocação em mais de uma empresa.”

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