Embora a crise da Americanas (AMER3) tenha deixado os investidores ainda mais preocupados com o varejo, o que mais tem prejudicado as companhias do setor é o elevado nível da Selic, que saltou de 2% ao ano para 13,75% em menos de dois anos.
Em evento realizado pelo BTG Pactual nesta terça-feira (14), o CEO da Via (VIIA3), Roberto Fulcherberguer, disse que a alta experimentada pela Selic desde 2021 gera um impacto negativo adicional de R$ 1 bilhão para a empresa.
O executivo não especificou a que indicador estava se referindo exatamente, mas os juros podem afetar uma empresa do varejo de diferentes maneiras, como reduzindo o consumo, uma vez que o crédito fica mais caro, ou elevando as dívidas da companhia.
Além disso, a empresa tem de pensar duas vezes antes de fazer tomar novas dívidas para fazer investimentos. “Essa escassez de investimentos causada pela alta de juros elevada não permite mais aventuras”, disse.
Para piorar, o cenário de juros elevados vai se manter por mais tempo do que se imaginava. Se antes o mercado projetava que a Selic começaria um ciclo de baixa já no primeiro semestre deste ano, as previsões atuais não são mais tão otimistas e já há quem diga que a taxa básica de juros deve ficar no nível atual até o fim do ano.
Na última edição do Boletim Focus, por exemplo, a mediana das projeções dos especialistas do mercado financeiro é de que a Selic vai encerrar 2023 em 12,75%, e 2024, em 10% ao ano. A expectativa anterior era de 12,50% e 9,75%, respectivamente. Ou seja, o mercado passou a acreditar que o Banco Central demorará mais para começar a cortar a taxa básica, atualmente em 13,75% ao ano.
Há duas semanas, o CEO do Santander Brasil. Mário Leão, foi questionado, em coletiva de imprensa, sobre o efeito do caso Americanas no mercado de crédito e deu uma resposta parecida.
Ele disse que não vê uma piora do cenário da concessão de crédito para empresas como um todo, mas ressaltou que “grande elemento” para definir como o cenário vai evoluir é a taxa básica de juros “Quanto mais tempo o juro fica alto, pior para as empresas”, destacou. “Vai ter risco de deterioração se a Selic continuar alta.”
Efeito Americanas
O evento da Americanas, apesar de não impactar tanto quanto a alta dos juros, também prejudica a Via e o setor varejista. Isso porque o rombo de um dos maiores players do segmento cria um estresse geral no mercado, que gera o aumento do risco de crédito para as empresas.
Fulcherberguer vê um desafio de curto prazo, pois o caso “assusta o ecossistema financeiro”. Já no médio e longo prazo, existe uma oportunidade de capturar consumidores órfãos da concorrente.
Somado a isso, para o CEO da Via, passado o evento, a concorrência, principalmente no e-commerce, será mais racional. “Vimos que transacionar tanto tempo com patamares de preço impossíveis de serem praticados gera problemas. Não dá para não ser racional com o custo do dinheiro como está”, afirmou.