A “tempestade perfeita” de juros altos no Brasil e incertezas no cenário internacional fez a captação líquida dos fundos de investimento registrar queda de 97% no primeiro semestre em comparação ao mesmo período de 2021.
Os dados foram apresentados pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), na manhã desta quarta-feira (6).
O setor fechou a primeira metade do ano com saldo de R$ 7,9 bilhões, ante R$ 272,5 bilhões entre janeiro e junho do ano passado.
O resultado faz com que a captação seja a pior desde 2014 (R$ 4,6 bilhões), e a terceira mais baixa desde 2002 (R$ -23 bilhões), ano que marca o início da série histórica da associação.
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O resultado foi influenciado pela queda dos investimentos atrelados a opções de risco em meio à debandada dos investidores para opções mais previsíveis e conservadoras.
“Vimos ao longo de 2022 uma saída bastante relevante de fundos de ações e multimercados como reflexo ao aumento dos juros e da aversão ao risco”, explicou Pedro Rudge, vice-presidente da Anbima.
Entre março de 2021 e junho deste ano, o Banco Central injetou 11,25 pontos percentuais na Selic, subindo a taxa básica de 2% para os atuais 13,25% ao ano.
Em paralelo, o cenário global com guerra entre Ucrânia e Rússia, lockdowns na China e o aumento conjunto de juros nas principais economias do mundo atrai ainda mais investidores para opções mais previsíveis.
Confira a seguir o desempenho das principais classes da indústria de fundos brasileira em junho, no primeiro semestre e em 12 meses.
Sem mudanças no horizonte
O horizonte não mostra mudanças, ao menos no curto prazo. Apesar de o BC ter sinalizado que deve encerrar a escalada dos juros em 13,75% com novo acréscimo de 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), a taxa deve se manter elevada por mais tempo do que o esperado, mantendo a atratividade na renda fixa.
Os ataques do governo federal ao teto de gastos, regra que limita as despesas do governo à variação da inflação e considerada a principal âncora fiscal do país, e a proximidade das eleições contribuem para trazer mais volatilidade aos ativos e aumentar as incertezas.
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Segundo Giuliano De Marchi, diretor da Anbima, o clima de incerteza é algo disseminado em escala global, o que justifica a queda das principais Bolsas do mundo no primeiro semestre.
“O que o Brasil tem de diferente é a questão das eleições. Nós já estamos acostumados, traz bastante volatilidades e incertezas. Devemos aguardar as eleições e os resultados para ter uma volta mais forte [no mercado de fundos]”, afirmou.