Banco do Brasil (BBAS3): ação descontada ainda atrai investidores, mas cautela dará o tom em 2023

Analistas acreditam que ainda é cedo para prever quais serão as demandas do novo governo à estatal

Foto: Shutterstock/rafapress

A entrada do ano de 2023 e o início da nova administração do governo federal despertaram dúvidas para os investidores que costumam alocar capital em estatais.

Afinal de contas, não se sabe que tipo de demanda o governo Lula poderá fazer a algumas instituições públicas, a exemplo do Banco do Brasil (BBAS3). Diante disso, a questão sobre desfazer ou manter o investimento na companhia é colocada.

Alguns analistas ouvidos pela Agência TradeMap consideram que o investimento no BB ainda é interessante, mas que a cautela deverá dar o tom em 2023, já que ainda é cedo para prever o papel que a instituição financeira terá durante o novo governo.

Vale ressaltar que, desde que Lula venceu as eleições, no dia 30 de outubro, a ação do Banco do Brasil vive altos e baixos, e chegou a ser cotada a R$ 31,07 no dia 14 de dezembro, o menor patamar desde 14 de julho do ano passado. Naquele dia, o papel recuou 2,48% em relação ao dia anterior.

Após o recuo visto desde a eleição, o papel voltou a subir, acompanhando o movimento da Bolsa e encerrou a última sexta-feira (20) cotada a R$ 40,07.

Na cerimônia de posse, no dia 1º deste mês, Lula declarou em discurso ao Congresso que o novo governo fortalecerá bancos públicos e estatais.

“Vamos resgatar o papel das instituições do Estado, bancos públicos e empresas estatais no desenvolvimento do país para planejar os investimentos na direção de um crescimento econômico sustentável, ambiental e socialmente”, afirmou o presidente.

Preço descontado

Para além da incerteza futura, o banco vive um cenário em que sua ação se mostra barata para parte do mercado. Isso ocorre porque ao mesmo tempo que o banco apresentou trimestres sólidos no ano passado e possui a expectativa de novos bons resultados, sua ação caiu com os burburinhos políticos.

Uma forma de verificar se um ativo da Bolsa está barato é a relação preço/lucro (PL). Esse múltiplo calcula a relação entre o preço de um papel em um determinado momento e o seu lucro por ação (LPA) nos 12 meses anteriores. Quanto menor o P/L, mais “descontada” a ação.

Segundo dados disponíveis na plataforma TradeMap o P/L do BB está atualmente em 2,45 vezes. Em termos comparativos, o Itaú (ITUB4) possui um múltiplo de 7,89 vezes, enquanto o Bradesco (BBDC4) e o Santander (SANB11) possuem ambos um P/L de 3,42 vezes.

Outro guia

Um outro múltiplo utilizado para saber se uma estatal tem potencial de crescimento é o EV/RAB, que calcula o valor de mercado de uma empresa em relação à base de ativos regulatórios, utilizados para a prestação do serviço. Se esse valor do múltiplo é menor do que 1 (uma) vez, significa que a ação de uma empresa está valendo menos do que seu patrimônio.

Para o gestor e sócio da Mantaro Capital, Pedro Gonzaga, o BB negocia atualmente a um valor menor que dois terços do valor patrimonial, considerado positivo por ele, na comparação histórica. 

“O banco está com esse desconto ao mesmo tempo que tem apresentado resultados fortes, entregando um retorno sobre o investimento em linha com os pares privados. Somado a isso, tem o nível do P/L e um payout interessante de dividendos”, comenta o gestor, que vê o investimento como atrativo.

Em termos de resultado, no terceiro trimestre do ano passado, por exemplo, o BB anotou lucro líquido de R$ 8,3 bilhões, crescimento de 62,7% em relação ao mesmo período do ano passado. O montante, além disso, veio acima das projeções do mercado.

“O desempenho operacional está muito bom, e deve continuar positivo nos próximos trimestres. O ambiente de juros altos é ruim para a economia como um todo, mas os bancos estão ‘protegidos’ nesse cenário”, afirma Gonzaga. 

O que esperar para o Banco do Brasil em 2023?

A perspectiva para o BB é de uma continuidade nos bons resultados, pelo menos nos próximos trimestres, segundo analistas. Para além do lucro em avanço, o Banco do Brasil viu, no terceiro trimestre de 2022, a margem financeira líquida crescer 28,4% na comparação com iguais meses do ano passado, para R$ 15 bilhões.

O analista do Inter Research, a equipe de análise do Banco Inter, Matheus Amaral, estima que o banco deve aumentar nos próximos anos as chamadas provisões para devedores duvidosos (PDDs) – uma reserva para compensar os valores que podem vir a ser perdido com calotes.

O Inter passou a prever, em relatório publicado em dezembro do ano passado, que o PDD do Banco do Brasil encerre 2022 em R$ 14,4 bilhões, 2023 em R$ 19,84 bilhões e 2024 em R$ 23,5 bilhões. Somado a isso, o banco espera que a inadimplência acima de 90 dias do BB passe de 2,6% em 2022 e 3,2% em 2023.

Apesar de prevermos bons resultados e rentabilidade elevada no curto prazo, nos preocupa a agenda de longo prazo, que mesmo com uma boa governança não é totalmente blindado a novos comandos desalinhados aos interesses dos acionistas”, afirmou Amaral, do Inter, em relatório. 

Com essa incerteza do novo governo no radar, a instituição rebaixou a recomendação para o papel do Banco do Brasil de compra para neutra, com um preço-alvo alterado de R$ 52 para R$ 42 ao fim de 2023.

Por sua vez, o analista da INV, João Abdouni, acredita que tanto a lucratividade quanto a distribuição de dividendos do banco podem cair ao longo de 2022. “Devemos ter políticas mais voltadas a prática social da companhia, com o BB expandindo mais o crédito, uma estratégia clássica do PT”, afirmou.

No ano passado, a estatal distribuiu mais de R$ 11,2 bilhões em dividendos, com um dividend yield de 11,55%.

Já Pedro Gonzaga não acredita que haja uma intervenção muito forte na administração do banco. “Existe um discurso de uso mais fiscal, de utilizar as estatais para políticas públicas, mas nada que trouxe grande alarme ainda. Vejo uma proposta de utilizar a fundação BB, que não repercute tanto na instituição em si”, afirma.

A questão, segundo o gestor, é de como serão formatadas as iniciativas de reduzir endividamento. Para ele, se houver uma expansão desmedida do crédito, sem que se “obedeça os ritos de avaliação de risco”, o banco pode ter um impacto negativo ao longo do tempo, com a concessão tomando parte importante dos balanços e deteriorando os resultados.

A nova presidente do Banco do Brasil

O banco estatal iniciou 2023 de comandante nova. Na segunda-feira (16), Tarciana Medeiros tomou posse do cargo, em cerimônia ocorrida no Centro Cultural da instituição, em Brasília, com participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A presidente substituiu Fausto Ribeiro, que assumiu o posto em abril de 2021.

Medeiros têm 22 anos de carreira no Banco do Brasil e, agora, se torna a primeira mulher a presidir o banco em mais de 200 anos de história da instituição, que foi fundada ainda na época do império, em 1808. Ela possuía o cargo de gerente-executiva na diretoria de Clientes do Banco do Brasil.

João Abdouni, analista da Inv, acredita que, apesar da nova comandante ser uma profissional experiente no setor e de carreira na empresa, possui um viés mais ligado a um pensamento desenvolvimentista do que um liberal. 

Na avaliação de Gonzaga, da Mantaro, a indicação é positiva, principalmente porque a executiva atuou tanto na parte operacional do BB quanto em segmentos mais voltados a clientes.

Antes de ser gerente-executiva na diretoria de Clientes, Medeiros foi superintendente comercial da BB Seguridade, subsidiária do banco. Formada em administração de empresas, é pós-graduada em gestão, marketing, liderança e inovação.

Por dois anos, a executiva esteve à frente de projetos de pós-venda na diretoria de Crédito e Empréstimos do Banco do Brasil, uma das principais áreas levadas em conta pelo governo para a atuação da instituição logo nos primeiros meses do mandato de Lula.

Durante a cerimônia de posse de Medeiros, Lula afirmou que quer que o BB seja “campeão de crédito consignado”, e defendeu que a instituição valorize o crédito principalmente ao pequeno e médio produtor rural. “São eles que mais colocam alimentos na mesa de todos nós”, disse o presidente.

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