Navegue:
Neoenergia (NEOE3) coloca governança em xeque com pagamento de royalties; ação cai 5%

Neoenergia (NEOE3) coloca governança em xeque com pagamento de royalties; ação cai 5%

A empresa terá de pagar 0,9% da receita operacional líquida ajustada em forma de royalties à controladora

Neoenergia (NEOE3). Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Por:

Compartilhe:

Por:

Ontem à noite, a Neoenergia (NEOE3) resolveu colocar uma pulga atrás da orelha dos investidores às vésperas de 2022. Em suma, numa divulgação feita na surdina, com meses de atraso, a companhia informou que passará a pagar royalties à sua controladora espanhola Iberdrola.

A informação não foi divulgada por meio de um fato relevante, como usual, mas sim em um documento sobre transação entre partes relacionadas. A decisão foi tomada pelo conselho da Neoenergia em março, mas foi apresentada somente agora. 

Conforme o documento, a empresa terá de pagar 0,9% da receita operacional líquida (ROL) ajustada, descontados os custos de energia e combustível, em forma de royalties. O contrato vale para os próximos 10 anos, podendo ser renovado por mais uma década, caso seja de interesse das partes.

O Santander estima o montante em R$ 160 milhões anuais. Em referência a 2021, o cálculo será feito a partir de 15 de março, data em que o conselho aprovou a operação. A ata da reunião deste dia, porém, não cita a mudança.

Crescimento da receita líquida da Neoenergia desde 2012, na base acumulada de 12 meses

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Os investidores agora fazem as contas. O novo acordo com a controladora pode substituir antigos contratos entre as partes, que atualmente custam R$ 130 milhões anuais à empresa. 

A diferença seria compensada por benefícios fiscais, mas ainda assim o negócio é indigesto.

É incomum que uma empresa de utilities pague royalties. Além disso, no âmbito local a Neoenergia não é conhecida pela marca da controladora, tampouco faz uso de melhorias técnicas ou contempla uma cooperação de gestão, por mais que a Iberdrola controle 52% da empresa. 

Neoenergia na contramão da controladora

A operação foi anunciada no momento em que a Neoenergia está em pleno crescimento. 

Com o turnaround bem sucedido de algumas unidades, como da Neoenergia Distribuição Brasília, a empresa tem elevado seus números de forma relevante, embora as ações não tenham acompanhado em 2021.

Desempenho das ações NEOE3 (verde) e do Ibovespa (amarelo) em 2021

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

No acumulado dos primeiros nove meses deste ano, a ROL somou R$ 29,73 bilhões, alta de 41% em relação ao mesmo período de 2020. O lucro líquido subiu ainda mais, cerca de 81%, para R$ 3,29 bilhões até setembro. 

A alavancagem financeira — tema sensível às empresas do setor elétrico, já que precisam contrair dívida para investir em novos projetos — ficou em 2,86 vezes no terceiro trimestre. O número é 0,01 ponto percentual acima do acumulado em 2020, mas dentro do considerado prudencial. 

Se, por um lado, o aspecto operacional da Neoenergia vem sendo bem dirigido, a controladora passa por uma desaceleração em seus números. Na comparação entre os nove primeiros meses de 2021 e 2020, o lucro líquido da Iberdrola caiu de 2,68 bilhões de euros para 2,40 bilhões de euros. 

A contração de margens também é observada, assim como de rentabilidade. O Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) recuou 0,73 ponto percentual em 12 meses, para 8,90%, pressionado pela crise energética na Europa. 

Na visão do mercado, parece pouco conveniente à Neoenergia que a operação tenha acontecido neste momento, no método em que foi realizada e comunicada. 

Saiba mais: 
Neoenergia pagará dividendos e JCP no valor de R$ 371,4 milhões

Para a subsidiária brasileira, a permissão para o uso da marca traz benefícios no relacionamento com stakeholders, na adoção de padrões de qualidade compatíveis aos praticados globalmente e de melhores práticas comerciais. 

No último release de resultados trimestrais, a Neoenergia menciona o nome da Iberdrola apenas uma vez, fazendo alusão a um projeto de impulsionamento da participação de mulheres em esportes. 

Logo abaixo, a empresa cita suas medidas de governança corporativa, ressaltando que faz parte do Novo Mercado da B3. “A integridade é um valor que permeia o grupo”, diz a empresa, mencionando a certificação do ISO 37.001, de gestão antissuborno. 

Fato é que mesmo que a operação traga benefícios fiscais, coloca um ponto de interrogação na governança da empresa, em função da falta de transparência. O mercado avalia que os princípios ESG, tão destacados pela Neoenergia, foram feridos com o episódio. 

Confiança em torno dos resultados

A despeito das tensões causadas pelas partes relacionadas, o mercado ainda enxerga um oceano azul para a companhia.

Os dados compilados pelo Refinitiv, apresentados na plataforma do TradeMap, apontam para sete recomendações sobre a empresa. Dessas, seis são de compra, sendo que uma delas vem no teor de “compra forte”.

Apenas um analista recomenda a manutenção das ações, e ninguém acredita e este seja um bom momento de venda – ao menos até agora. 

Na mediana, o preço-alvo aponta para R$ 25,11, o que perfaz um upside de 52% sobre o preço atual. Há quem enxergue os papéis da empresa valendo R$ 29, o que representa uma potencial valorização de 79%. 

Percentual este que aumentou ao longo do pregão de hoje. Por volta das 16h45, as ações da Neoenergia caíam 5%, para R$ 16,21. A empresa é avaliada em R$ 19,69 bilhões na Bolsa.

Compartilhe: