Após perder mais da metade da capitalização em meio ao “inverno cripto” no primeiro semestre de 2022, os ativos digitais reagiram em julho e voltaram a acumular mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado.
A amenização do quadro está atrelada à melhora do clima no universo cripto. O pânico provocado pela quebra de grandes plataformas do setor diminuiu, e o cenário macroeconômico mundial também ficou um pouco mais favorável – dadas as perspectivas crescentes de que a onda de alta de juros em vários países pode acabar antes do previsto.
O Bitcoin (BTC), principal farol do mercado cripto, valorizou 18% no mês passado, o melhor desempenho desde outubro de 2021, enquanto o Ethereum (ETH) disparou quase 54% no período, conforme dados disponíveis na plataforma TradeMap.
O retorno dos ventos favoráveis também foi sentido no fluxo de ativos digitais negociados nas principais exchanges do mercado em julho, segundo levantamento da Agência TradeMap com dados da plataforma CryptoQuant.
Considerando apenas as transações de BTC, os investidores praticamente deixaram de retirar ativos das plataformas em julho.
Naquele mês, apenas 2,2 mil bitcoins foram retirados das plataformas de negociação em termos líquidos – ou seja, considerando todas as entradas e retiradas.
O número é bem menor que o de quase 136 mil de junho, quando os investidores, com medo de as exchanges passarem por problemas, correram para armazenar as moedas fora destas plataformas. Naquele mês, a cotação do Bitcoin (BTC) afundou 36,3%, o pior desempenho para a cripto desde maio do ano passado.
A disfuncionalidade na passagem do primeiro para o segundo semestre fica ainda mais evidente em comparação com o mesmo período do ano passado.
Em 2021, o saldo entre a entrada e saída de Bitcoins nas exchanges ficou negativo em 7,8 mil unidades, enquanto julho fechou com alta de 15,8 mil unidades – variação muito menos brusca que a observada em 2022.
Sinais de alívio no universo cripto
O que provocou pânico no mercado de cripto no fim do primeiro semestre deste ano foram os sinais de insolvência de gigantes do setor, principalmente a Celsius, plataforma de empréstimo em cripto, e o fundo Three Arrows Capital (3AC).
O primeiro gatilho foi disparado pela Celsius em meados de junho com o bloqueio do acesso dos investidores aos seus ativos. Em julho, a empresa entrou com um pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos.
Para Felipe Medeiros, analista de criptomoedas e sócio da Quantzed Criptos, junho foi marcado por um “cenário caótico” pela disseminação do medo entre o mercado que a crise iria atingir outras empresas do setor.
Diante do risco de outras plataformas enfrentarem o mesmo problema e bloquearem a retirada dos ativos, os investidores fizeram uma verdadeira corrida para tirar os seus tokens das exchanges.
“O mês de junho foi pautado pelo medo que a crise atingisse outros grandes players e que outras plataformas estivessem mantendo segredo sobre a sua insolvência”, afirma.
O passar das semanas mostrou que a crise de liquidez havia sido estancada, o que voltou a gerar confiança entre os investidores para retornarem às Bolsas de criptos.
Além das questões técnicas, Ayron Ferreira, analista-chefe da Titanium Asset, chama a atenção para o comportamento habitual de retirada dos tokens das plataformas quando o investidor não visa fazer negociações no curto prazo.
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Com o tombo do mercado no primeiro semestre – e o fundo do poço alcançado em junho – os investidores buscaram custodiar os seus ativos à espera de um momento mais atrativo para negócios, como o observado no mês passado.
“[Em junho] o mercado estava dando sinais de formação de fundo. O dinheiro saiu das exchanges e foi para as carteiras dos investidores, que buscaram se posicionar para lucros mais à frente”, explica.
Queda do temor global
A melhora do humor no cenário global também teve papel fundamental para estancar a sangria da saída de tokens. Nessa questão, o grande ponto foi a perspectiva de que os sinais de fraqueza na economia dos Estados Unidos limitaria a escalada dos juros pelo Fed, o banco central do país.
Em junho, os indicadores de inflação americana não davam sinais de arrefecimento, situação que mudou no mês seguinte com analistas do mercado começando a prever que a alta de preços atingiu o teto.
Em paralelo, os índices de atividade já mostram desaceleração das atividades econômicas, algo que estava apenas no campo especulativo no fim do primeiro semestre.
Dados negativos do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre mostraram que a maior economia do mundo encolheu na primeira metade do ano – o que tecnicamente configuraria uma recessão.
A perda de fôlego gerou otimismo por sugerir que o Fed não vai precisar apertar a política monetária de forma tão agressiva quanto o esperado anteriormente.
“O mercado entende que a inflação americana fez um topo e vê a recente queda nas commodities e no consumo. Com isso, se entende que a inflação vá arrefecer nos próximos meses e que a necessidade de alta dos juros fica amena”, diz Medeiros.
ETFs também refletem bom humor
Além da venda “em varejo” das exchanges, os ETFs (Exchange Traded Funds) de criptos, que são fundos negociados na Bolsa de Valores que replicam a variação do mercado, também mostraram sinais de franca recuperação entre junho e julho.
A rentabilidade do Nasdaq Crypto Index (NCI), usado como referência para o HASH11, o principal ETF de cripto na B3, teve alta de 35,5% em julho, ante queda de 36,8% no mês anterior.
Assim como os dados de exchanges, a dicotomia fica mais clara em comparações com bases anuais. Em junho de 2021, o NCI teve queda de 13%, contra recuperação de 14,4% no mês seguinte.
Momento de assentamento das cotações
Apesar de as últimas semanas terem dado sinais de recuperação, a maior cripto do mercado entrou agosto com o pé no freio, enfrentando dificuldades para passar dos US$ 23 mil.
Para analistas, a perda de fôlego é natural após a forte recuperação do mês seguinte. Hugo Trombini, head de cripto Hurst Capital, afirma que o atual cenário deve se manter nos próximos meses, desde que não haja nenhuma grande mudança no cenário, como a recente tensão entre americanos e chineses pela ilha de Taiwan.
“O Bitcoin deve manter as tentativas de sair dessa faixa de US$ 23 mil e tende a encontrar uma estabilização nesses preços até a retomada dos touros [período de alta dos indicadores]”, diz.
Na mesma linha, Ferreira afirma que a tendência é o mercado “andar de lado” no atual patamar, mas com margem para subir mais caso o noticiário internacional contribua.
“Dá para ir até US$ 30 mil casos surjam notícias mais positivas, como a adoção do Bitcoin por uma grande empresa ou país”, explica.