Amazônia não é só patrimônio a proteger, é economia a construir
Existe uma imagem recorrente da Amazônia como um lugar distante, quase abstrato, associado a uma floresta imensa, a uma biodiversidade extraordinária e a uma responsabilidade que pertence sempre a algum outro setor da sociedade. Essa imagem precisa mudar.
Durante muito tempo, a Amazônia ocupou um lugar periférico nas decisões econômicas do país. Foi celebrada como patrimônio natural, defendida como responsabilidade ambiental e observada como território de grande potencial, mas essa visão já não corresponde ao papel que a região pode desempenhar no Brasil.
O Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro, é uma oportunidade para ampliar esse olhar. A região está no centro das questões que definirão o futuro brasileiro, como clima, segurança hídrica, inovação, geração de renda, competitividade e desenvolvimento regional. A floresta influencia a economia em uma escala que precisa se refletir nos planos de investimento, nas políticas de longo prazo e nas estratégias empresariais.
A questão, portanto, não é escolher entre conservação e desenvolvimento. É construir um modelo de desenvolvimento que tenha a floresta como ativo estratégico e as pessoas que vivem nos territórios como protagonistas.
A floresta em pé regula ciclos ambientais essenciais, sustenta cadeias produtivas, abriga conhecimentos e oferece matéria-prima para uma nova geração de produtos, serviços e tecnologias. Sua preservação interessa ao mundo e sua capacidade de gerar prosperidade interessa diretamente ao Brasil.
É nesse contexto que a sociobioeconomia ganha cada vez mais relevância. Ela conecta ciência, conhecimento local, financiamento, inovação, acesso a mercados e relações de longo prazo com comunidades e fornecedores. Seu desenvolvimento depende de que as populações dos territórios participem da construção das cadeias e tenham acesso aos benefícios gerados por elas.
Para que essa agenda ganhe escala, é preciso também que a sociobioeconomia seja tratada como parte de uma estratégia de desenvolvimento nacional. Assim como o país já elegeu setores estratégicos para impulsionar sua industrialização e competitividade, a biodiversidade pode ocupar um lugar central na construção de uma nova economia. Isso exige políticas públicas consistentes e de longo prazo, capazes de criar as condições para o desenvolvimento socioeconômico da região.
Não há transformação em escala sem intencionalidade, continuidade e coordenação entre os diferentes atores.
Mais do que uma nova frente de negócios, essa agenda representa uma transformação na base material da economia. O uso responsável de ativos biológicos pode ampliar a oferta de produtos, processos e soluções associados a menor intensidade de carbono, contribuindo para a transição de cadeias ainda dependentes de insumos fósseis. Para o Brasil, abre-se a oportunidade de transformar biodiversidade, conhecimento e ciência em inovação e capacidade industrial.
O potencial da bioeconomia será maior quanto mais conseguirmos agregar valor dentro do país. Cosméticos, alimentos, materiais, ingredientes e bioprodutos podem transformar recursos da biodiversidade em soluções de maior valor agregado, fortalecer a indústria nacional, ampliar a competitividade e gerar mais renda nos territórios de origem.
Para isso, precisamos aproximar pesquisa, empreendedorismo e indústria das características e dos conhecimentos de cada território. Hubs locais de inovação podem conectar comunidades, universidades, empresas, laboratórios, empreendedores e investidores, criando condições para transformar conhecimento em soluções, negócios e desenvolvimento regional.
Essa transformação já está em curso. Ela se expressa em cadeias da sociobiodiversidade, sistemas agroflorestais, pesquisas, empreendimentos comunitários e novas formas de financiamento. O desafio agora é ampliar essa transição com qualidade, inclusão, capacidade industrial e resultados mensuráveis.
Empresas podem acelerar essa transição ao criar demanda, oferecer previsibilidade de compra, desenvolver fornecedores, investir em pesquisa aplicada e fortalecer capacidades produtivas próximas às fontes de biodiversidade.
A trajetória da Natura na Amazônia mostra que transformar o potencial natural em desenvolvimento econômico exige relações de longo prazo, confiança, organização e capacidade de inovar.
Um dos aprendizados está no financiamento. Cooperativas e pequenos produtores possuem ciclos produtivos, riscos e necessidades de investimento que demandam instrumentos adequados à realidade dos territórios. Modelos financeiros combinados, associados a garantias de compra e apoio técnico, podem fortalecer organizações locais e ampliar o acesso a recursos.
Outro aprendizado vem dos sistemas agroflorestais. Ao combinar diferentes espécies e fontes de renda, esses modelos aproximam conservação, recuperação ambiental e atividade econômica. Nos projetos piloto do SAF Dendê, a renda bruta média das famílias produtoras ficou cerca de 40% acima da referência da monocultura. O resultado demonstra como a diversificação produtiva pode gerar ganhos econômicos e ambientais simultaneamente.
Experiências como essas ajudam a mostrar as condições necessárias para que a bioeconomia ganhe escala. É preciso acesso a capital, capacidade técnica, infraestrutura, segurança jurídica, demanda de mercado e governança local. Não existe uma fórmula única para territórios tão diversos. A expansão precisa respeitar suas características e ser acompanhada por transparência sobre resultados e impactos.
O setor público também tem papel fundamental nessa transição ao criar condições para que essas iniciativas prosperem, por meio de infraestrutura, políticas de longo prazo, pesquisa, educação e segurança institucional. Instituições financeiras, universidades e organizações da sociedade civil também são parte dessa rede.
O Brasil reúne condições singulares para liderar uma economia baseada na biodiversidade. Temos uma floresta extraordinária, comunidades detentoras de conhecimentos fundamentais, centros de pesquisa e empresas capazes de conectar inovação a mercados. Essa combinação oferece uma oportunidade histórica de unir conservação, industrialização, desenvolvimento regional e prosperidade compartilhada.
A pergunta que devemos fazer é que tipo de economia queremos construir a partir da Amazônia e quanto valor seremos capazes de gerar e compartilhar a partir dela.
A resposta certamente passa por inovação, conservação, participação territorial e agregação de valor dentro do país. O Brasil tem diante de si a oportunidade de fazer da Amazônia não apenas um patrimônio a ser protegido, mas uma plataforma de desenvolvimento para o futuro.
E o futuro da Amazônia não pode ser apenas preservado. Ele precisa ser construído com a floresta em pé, com as pessoas no centro e com o valor gerado permanecendo nos territórios.
*Ana Costa é vice-presidente de sustentabilidade, jurídico e reputação corporativa da Natura



















