Guerra e paz na Azzas 2154
Num Brasil em guerra, pelo menos uma notícia de paz.
Depois de dois anos de briga, arbitragem e até processos judiciais, Alexandre Birman e Roberto Jatahy concordaram em uma reorganização societária da Azzas 2154 que permite a cada um tocar o negócio em que é melhor – pondo fim a uma novela que implodiu o valor de mercado da empresa.
A ação sobe 12% no final da manhã depois que os dois fumaram o cachimbo da paz.
A reestruturação é uma cisão patrimonial que segrega as marcas do Grupo Soma, dando origem a uma nova companhia listada e revertendo, na prática, a fusão de 2024 que deu origem à holding.
A Soma – um grupo de moda do Rio de Janeiro nascido do talento criativo de Kátia Barros e Marcello Bastos – reunirá as marcas de vestuário feminino Animale, Cris Barros, Maria Filó e NV, bem como as marcas de vestuário masculino premium Reserva e suas extensões, Reserva Mini, Reserva Ink e Reserva Go, Oficina e Foxton, além do Off Premium.
Com o acordo, a Azzas 2154 volta a se chamar Arezzo&Co, e deterá os negócios de sapatos e bolsas, a Hering, Carol Bassi e ZZ Mall.
A transação mantém a FARM Rio como uma subsidiária da Arezzo&Co, que consolidará seu resultado por deter 57,4% da marca, a que mais cresce no grupo. A Soma é dona dos outros 42,6%.
É uma estrutura que já deixa a FARM preparada para uma venda – um processo que está sendo assessorado pelo Morgan Stanley.
Inicialmente, os acionistas da Azzas 2154 receberão ações da Soma na mesma proporção que detêm hoje na Azzas 2154.
Numa etapa seguinte, o bloco de Birman e o bloco de Jatahy farão uma permuta de ações, depois da qual o bloco Birman terá 32,13% da Arezzo&Co e 6,18% da Soma, enquanto Jatahy terá 25,95% da Soma e nenhuma participação na Arezzo&Co. O free float continuará em 67,8% nas duas companhias.
Jatahy será o CEO da FARM Rio, enquanto Birman será o chairman, fontes a par do assunto disseram ao Brazil Journal.
A reorganização societária vem num momento em que os resultados da Azzas 2154 vem patinando – em parte como resultado da própria briga. O papel derreteu 55% nos últimos 12 meses e negocia perto das mínimas históricas. A empresa vale R$ 3,11 bilhões na Bolsa.
O acordo extingue todas as ações litigiosas e de arbitragem entre as partes.
A negociação para a separação já acontece há quatro meses. Segundo uma fonte que acompanhou o processo, Birman propôs diversos desenhos diferentes ao longo do caminho, mas nunca havia acordo.
Ontem, o BTG – que assessora Birman há quatro meses – pediu um encontro na sede no banco entre os dois lados. Acredite se quiser, em dois anos de briga Birman e Jatahy nunca haviam se sentado frente a frente para discutir uma saída. A reunião começou às 13:30 e acabou na manhã de hoje. Non-stop. Por 21 horas. Ninguém saiu. Ninguém dormiu.
“Era uma situação muito complexa, que demandou mudar a estrutura várias vezes para chegar num desenho final,” disse uma fonte envolvida na operação.
O resultado marca um dos raros imbróglios societários resolvidos de forma positiva e conciliatória no Brasil nos últimos anos.
É também o desfecho final de uma fusão que sempre foi questionada pelo mercado – justamente pela diferença de cultura entre as duas empresas e a expectativa (que se materializou) de um conflito entre os dois empresários.
Num comunicado, a companhia disse que a nova configuração permitirá à companhia “maior capacidade para estabelecer prioridades de investimento, acelerar decisões e responder integralmente pela execução e pelos resultados de seus negócios.”
Uma fonte que acompanhou as negociações disse que, apesar de todo o sangue quente e vitupérios dos últimos meses, “no final esses caras se admiram, se respeitam. Eles sabem que são complementares.” E como ninguém precisa brigar para sempre, resolveram dar mais uma chance à relação via a sociedade na FARM.
Na manhã de hoje, com o fato relevante do acordo já publicado, alguém sugeriu que Birman e Jatahy tirassem uma foto para eternizar aquele momento. Birman pegou uma folha em branco e escreveu uma frase para Jatahy – que, ao lê-la, sorriu, concordou, e escreveu uma frase de volta para o sócio.
O conteúdo? Só os dois sabem.
O BTG Pactual assessorou o bloco Birman, que teve aconselhamento jurídico do Spinelli Advogados (advogados: Sérgio Spinelli e Hiram Pagano).
A G5 Partners assessorou o bloco Jatahy, que trabalhou com o BMA Advogados (advogados: Amir Bocayuva e Monique Mavignier).
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