Para que crescer? Economistas questionam a lógica do PIB

A forma mais comum de medir o crescimento de um país é pela expansão do seu Produto Interno Bruto (PIB), a soma dos produtos e serviços produzidos durante um período de tempo. Mas há quem, no meio econômico, questione a lógica dominante que coloca o crescimento, da economia como um todo e dos negócios em particular, como fim principal.
A economia de mercado, regida pelo sistema de preços, tem um “ponto cego terrível”, segundo o economista e cientista social Eduardo Giannetti. “O sistema de preços é completamente omisso quanto ao custo ambiental das nossas escolhas que resultam em crescimento”, disse o autor dos livros “O valor do amanhã” e “Trópicos utópicos”.
Ele cita como exemplo uma viagem de avião: o preço da passagem cobre combustível, depreciação do equipamento, piloto, serviço de bordo, infraestrutura aeroportuária e remuneração do capital da empresa — mas não cobra pelo CO2 emitido no trajeto, como se esse custo simplesmente não existisse. É um custo real, porém invisível ao sistema de preços.
“Enquanto os preços não passarem a refletir esse ônus ambiental, essa cegueira estrutural do mercado vai continuar nos impedindo de sair dessa encrenca.”
As contradições aparecem no que é, de fato, contabilizado no PIB e o contraste com aspectos sociais e de bem-estar.
“Se você mora perto do seu local de trabalho e caminha até ele, o PIB não registra nada: é como respirar”, disse o autor e membro da Academia Brasileira de Letras. “Se você mora longe do seu local de trabalho, pega condução, fica três horas no trânsito, consome combustível, e precisa trabalhar mais para pagar o bilhete, o PIB sobe.”
A econometrista holandesa Gaya Herrington argumenta que um sistema econômico que não contabiliza o impacto psíquico e ambiental de tantas atividades em suas principais métricas pode ter colocado a humanidade no caminho de um colapso.
Herrington é parte de um movimento que estuda alternativas ao modelo de economia baseado apenas em crescimento. Para ela, que também é consultora de sustentabilidade e professora adjunta na Universidade de Harvard, há sinais de que estamos próximos de um ponto de ruptura não só ambiental, diante da crise climática, mas também social, diante de uma acumulação insustentável de riqueza pelas classes mais ricas.
“Um dos sinais de você ter chegado ao auge disso é a sensação sombria de incerteza que muita gente sente, enquanto as pessoas no topo insistem em métodos antigos que não funcionam mais”, disse Herrington.
Giannetti cita como exemplo as mortes por desespero, nome dado nos Estados Unidos para o aumento de casos de overdose, suicídio e outros problemas ligados a danos psicológicos, principalmente entre homens.
“O americano com a renda mediana está entre os 5% mais ricos do planeta. Mas aos olhos dele, e aos olhos da sociedade em que ele vive, ele é um medíocre, um fracassado”, disse Giannetti. “Tem alguma coisa errada. Isso está impondo ao mundo e às gerações futuras um ônus com o qual todos nós temos que lidar.”
Ambos participaram, nesta terça-feira, do evento Encontro Futuro Vivo, realizado pela empresa de telecomunicações em São Paulo.
Redistribuição e novos modelos
Na visão de Herrington, mudanças no sistema já estão em andamento, o que vai demandar adaptações de diversos atores sociais e econômicos e pode incluir um período de instabilidade social inevitável antes de atingir um horizonte de mais equilíbrio.
A base, para ela, é redistribuição. Não só de renda mas de propriedade, o que para empresas se traduziria em modelos mais comunitários de participação societária. Para Herrington, por exemplo, companhias guiadas apenas pela busca por lucro de curto prazo e áreas como o marketing — “que existe apenas para fazer as pessoas se sentirem mal” — não farão sentido num futuro de menor crescimento.
São ideias que parecem distantes do modelo capitalista atual, mesmo um que tente se adaptar a demandas de sustentabilidade. “Mas acho que o verdadeiro empreendedorismo sempre partiu de pessoas numa comunidade pensando em como melhorar as coisas. Nós perdemos isso, mas o mundo dos negócios não é um bloco homogêneo”, disse Herrington.
Ao mesmo tempo, outros setores econômicos e segmentos da sociedade precisarão crescer invariavelmente, como a produção de energia renovável e classes sociais mais pobres.
“Há espaço para crescer, mas precisamos ser mais seletivos sobre o quê e quem vai crescer”, disse. Países ricos e classes altas precisam ser os primeiros a aceitar menos e sacrificar mais para reduzir seu impacto climático, por exemplo. A tese de Herrington é de que, em meio à instabilidade e ao colapso, apostas de investidores uma hora não vão mais se pagar, e isso vai forçar mudanças.
Se os argumentos de Giannetti e Herrington soam pessimistas, ambos veem razões para não se desesperar. Para a holandesa, atravessar a turbulência trará a oportunidade de “voltar à natureza humana baseada na colaboração, e não na competição”.
Para o economista brasileiro, o país pode sair na frente se não guiar sua visão de progresso a partir de modelos como o dos EUA e outros países desenvolvidos.
“O Brasil não precisa se imaginar como uma imitação mal feita dos países altamente desenvolvidos. O Brasil é um projeto original de cultura e de plenitude humana, e nós temos que nos reconhecer pelos nossos valores”, disse.




















