Mapplethorpe, o fotógrafo da provocação em busca da beleza clássica
Roma - Durante o período em que se consolidou como uma das figuras mais transgressoras do século XX, principalmente na década de 1980, o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) foi frequentemente “lido” sob a lente da contracultura nova-iorquina e dos debates em torno da liberdade de expressão.
Seus nus masculinos, o erotismo explícito e o rigor com que tratava o corpo fizeram dele, por muito tempo, sinônimo de polêmica. Um artista cuja obra era vista mais pela controvérsia do que pela forma. Hoje, essa leitura passa por uma transformação.
Em Roma, a retrospectiva Robert Mapplethorpe. Le forme della bellezza (Robert Mapplethorpe. As formas da beleza), em cartaz no Museo dell’Ara Pacis até 4 de outubro, propõe uma inflexão clara. No lugar do choque, o foco recai sobre a busca pela simetria e perfeição.
A mostra reúne mais de 200 fotografias, a maioria em preto e branco, e encerra um circuito que passou por Veneza e Milão, mas encontra em Roma seu ponto mais simbólico. Em diálogo direto com a tradição escultórica, o percurso expositivo sugere uma simbiose entre as imagens e a estética clássica, em que o corpo humano é sempre belo, inspirador e livre.
“Apenas 15% da obra de Mapplethorpe é provocativa e não carrega o movimento identitário que surgiria anos depois”, afirma Denis Curti, curador da mostra, ao NeoFeed. "Ele era obcecado pela história da arte e pelo classicismo. Não existe escândalo: é um manifesto poético.”
O milanês passou uma semana em Nova York, na fundação criada para preservar o trabalho do artista, para organizar o que seria apresentado na Itália. “Foi maravilhoso conhecer o trabalho pessoalmente, ele era realmente strepitoso (“extraordinário”, em italiano), maníaco por detalhes”, completa o especialista.
Apenas na etapa romana existem fotografias de Capri e Nápoles. Mapplethorpe as tirou durante viagens feitas a convite do galerista napolitano Lucio Amelio (1931–1994), figura central da cena artística do pós-guerra na Europa.
O italiano foi responsável por integrar o americano ao projeto Terrae Motus, criado após o terremoto de 1980 em Nápoles, que reuniu artistas como Andy Warhol (1928–1987), Robert Rauschenberg (1925–2008), Cy Twombly (1928–2011) e Anselm Kiefer.
A exposição no Museo dell’Ara Pacis é organizada em núcleos temáticos e não em ordem cronológica, com o vocabulário central de Mapplethorpe: colagens, nus, retratos de celebridades como Yoko Ono, Isabella Rossellini, Robert Rauschenberg (1925–2008), Donald Sutherland (1935–2024), David Byrne, Richard Gere, Andy Warhol (1928–1987), naturezas-mortas e também esculturas “emprestadas” dos Museus Capitolinos, de Roma, que dialogam com as fotografias e reforçam a leitura escultural dos corpos.
Uma das surpresas é a exibição de White Carpet Cross (Cruz de Tapete Branco). Criada em 1983, a obra em técnica mista apresenta uma composição escultórica construída a partir de um tapete branco emoldurado e disposto em forma de cruz. Filho de uma família extremamente católica, o americano cresceu imerso em um imaginário religioso, no Queens, na periferia de Nova York.
A relação de Mapplethorpe com a cantora Patti Smith ganhou destaque. Há um conjunto expressivo de fotografias dela, realizadas ao longo de anos de convivência entre os dois. Mais do que retratos isolados, o lote reconstrói a vida compartilhada no Chelsea Hotel e a formação mútua em um ambiente de intensa efervescência artística em Manhattan.
Ao lado de sua musa, ele ainda se consolidaria, no futuro, como um dos nomes centrais da arte contemporânea.
Hoje, no mercado internacional, a obra de Mapplethorpe é muito bem avaliada. Fotografias variam de cerca de R$ 114 mil a R$ 1,17 milhão em edições comuns, enquanto impressões originais e vintage podem alcançar valores bem mais altos. Em leilões, chegam a mais de R$ 2,94 milhões em casos raros, com retratos e nus entre R$ 590 mil e R$ 2,35 milhões, e naturezas-mortas em faixas mais moderadas, dependendo da edição e da raridade.
Para quem quiser conhecer melhor o artista, o podcast Mapplethorpe Unframed (Mapplethorpe Desenquadrado), escrito e apresentado em italiano por Nicolas Ballario, está disponível nas principais plataformas de streaming; o catálogo custa € 60 e a loja do museu oferece uma bibliografia vasta, pôsteres e cadernos com reproduções das imagens.
Mapplethorpe morreu em 1989, aos 42 anos, em decorrência de complicações da AIDS. Quase quatro décadas depois, seu legado passa por um processo de reavaliação que o afasta da leitura centrada na pornografia, no homossexualismo e no sadomasoquismo.
A mudança de perspectiva, especialmente entre os mais jovens, hoje obcecados por imagens, destaca o rigor técnico, a precisão formal e a construção visual. Com o tempo, seu trabalho se consolida menos como provocação e mais como um capítulo relevante na história da fotografia do século XX.




















