Iene supera 160 por dólar e ameaça apagar efeito de intervenção histórica

O iene voltou a se desvalorizar e ultrapassou o patamar considerado crucial de 160 ienes por dólar, ampliando uma sequência de perdas que já eliminou mais da metade dos ganhos obtidos após as intervenções cambiais das autoridades.
A moeda japonesa chegou a cair até 0,5%, para 160,16 por dólar, depois que a divisa americana ganhou força com a promessa do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, de levar a inflação de volta à meta do banco central. Agora, investidores acompanham atentamente a cotação do iene em busca de sinais de quando as autoridades podem voltar a agir para defender a moeda.
O iene vem sofrendo pressão desde que não conseguiu se fortalecer além do nível de 155 por dólar no início deste mês, após a ação conjunta realizada em 31 de julho, quando Estados Unidos e Japão promoveram sua primeira intervenção coordenada para comprar ienes desde 1998.
A nova rodada de enfraquecimento ocorre mesmo depois de o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, tentar conter a alta dos custos de financiamento de longo prazo do governo americano, que haviam alcançado máximas de vários anos.
“Com o iene tocando o nível psicologicamente importante de 160 por dólar, as expectativas de intervenção inevitavelmente aumentam”, afirmou Alex Cohen, estrategista de câmbio do Bank of America. “Mas, como o movimento é impulsionado principalmente pela força do dólar e pela alta dos juros americanos, as autoridades provavelmente terão um pouco mais de paciência.”
O dólar se fortaleceu após Warsh alertar que a inflação nos EUA não está desacelerando de forma significativa, aumentando as apostas em novas altas de juros. Os investidores também se preocupam com a ampla diferença entre os juros do Japão e de outras economias, a elevada dívida pública japonesa e os efeitos da recente alta dos preços do petróleo sobre a economia global.
“Os níveis na faixa dos 160 ienes por dólar deixaram de ser apenas uma questão de valuation. Estão se tornando um nível de política econômica. Washington e Tóquio traçaram efetivamente uma linha política na região dos 160”, disse Masahiko Loo, estrategista sênior de renda fixa da State Street Investment Management. “Não descartamos uma nova rodada de intervenção antes de uma possível alta de juros pelo Banco do Japão, possivelmente já em setembro.”
Mercado testa limites das autoridades
Segundo Brendan Fagan, estrategista macro da Bloomberg, o movimento desta sexta-feira mostra que o efeito das intervenções cambiais é temporário diante da trajetória dos juros globais.
“O par dólar/iene recuperou apenas cerca de metade da queda provocada pela intervenção recorde. Ainda há espaço para novas altas antes que o mercado atinja níveis considerados desconfortáveis pelas autoridades japonesas”, afirmou.
O Banco do Japão (BoJ) se reúne no próximo mês para decidir sobre juros, e o mercado atribui cerca de 80% de probabilidade a uma elevação da taxa. Ainda assim, a diferença para os juros dos EUA permanece ampla, especialmente porque os investidores também esperam novos aumentos promovidos pelo Federal Reserve nos próximos meses.
Para Geoffrey Yu, estrategista sênior do BNY, as autoridades japonesas devem evitar novas intervenções por enquanto, aguardando a decisão do banco central.
“Tóquio precisa entregar resultados se quiser estabilizar o mercado cambial”, disse.
O governo da primeira-ministra Sanae Takaichi é apontado como favorável a uma alta de juros no curto prazo diante da fraqueza da moeda. Antes da intervenção conjunta no fim de julho, o iene operava próximo de 164 por dólar, seu nível mais fraco em quase quatro décadas.
Em 2024, as autoridades japonesas também intervieram no mercado quando a moeda ultrapassou a marca de 160 por dólar.
Fundos voltam a apostar contra o iene
Dados da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC) mostram que fundos hedge reduziram em mais da metade suas posições vendidas contra o iene desde a intervenção coordenada entre EUA e Japão.
Ainda assim, essas apostas voltaram a crescer levemente na semana encerrada em 18 de agosto. Segundo analistas de mercado, investidores também começam a retomar operações de carry trade, estratégia que se beneficia dos baixos juros japoneses para financiar aplicações em ativos com retornos mais elevados em outros países.
O retorno dessas operações amplia a pressão sobre a moeda japonesa e reforça os desafios enfrentados pelas autoridades para sustentar o iene em meio ao ambiente global de juros elevados.
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