Inadimplência dispara no Brasil e acende alerta para campanha de Lula pela reeleição
A taxa de inadimplência das pessoas físicas no Brasil disparou no mês passado para o maior nível desde 2009, lançando um sinal de alerta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a economia em meio à sua campanha pela reeleição.A taxa de inadimplência das pessoas físicas saltou para 7,8% em julho, ante 7,4% em junho, enquanto a das empresas subiu para 4,2%, de 4%, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta sexta-feira (28). O volume total de crédito bancário avançou 0,3% no mês, para R$ 7,4 trilhões (US$ 1,4 trilhão).O endividamento das famílias como percentual da renda disponível está próximo de um recorde, escreveu Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs, em nota divulgada após a publicação dos dados."Esperamos que as condições de crédito enfrentem ventos contrários nos próximos meses devido à política monetária restritiva, à desaceleração do crescimento, ao enfraquecimento da dinâmica do mercado de trabalho, ao aumento da inadimplência e aos níveis muito elevados de endividamento das famílias", escreveu.⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.O governo Lula lançou uma série de medidas para ampliar o acesso a financiamento mais barato e estimular o consumo enquanto o presidente busca um quarto mandato na eleição de outubro. Mais recentemente, na quinta-feira (27), o governo anunciou mudanças para ampliar um programa de crédito destinado a ajudar taxistas e motoristas de aplicativos a comprar veículos. O governo enfrenta pressão à medida que a maior economia da América Latina dá sinais de desaceleração, com analistas prevendo que o Produto Interno Bruto crescerá cerca de 1,5% no próximo ano.Finanças das famílias continuam sob pressão, apesar do recente afrouxamento monetárioDe forma mais ampla, a ofensiva do governo para estimular a economia entra em choque com o Banco Central, que busca esfriar a demanda e levar a inflação de volta à meta com uma taxa básica de juros atualmente em 14%. Os formuladores de política monetária têm alertado repetidamente que medidas de estímulo ao consumo podem manter a atividade econômica acima de seu potencial e dificultar o combate à inflação.Danos à economiaO governo segue avançando com medidas de estímulo mesmo diante do aumento dos obstáculos. O programa de crédito para motoristas, lançado em maio com até R$ 30 bilhões em financiamentos, teve pouca adesão, levando aliados de Lula a cobrar explicações de integrantes da equipe econômica, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.Os técnicos da área econômica, por sua vez, apontaram o elevado endividamento das famílias como uma das principais razões para a baixa demanda, disseram as pessoas ouvidas pela Bloomberg News, que pediram anonimato para discutir o assunto. Integrantes da equipe também alertaram que a política de estímulos do governo como um todo já cumpriu seu papel e, a partir de agora, pode prejudicar a economia.Leia também: Brasil tem um dos maiores índices de inadimplência bancária em LatAm; Argentina lideraAinda assim, o governo Lula decidiu ampliar o programa, elevando o valor máximo dos veículos que podem ser financiados e aumentando o prazo de pagamento de 72 para 84 meses. O Palácio do Planalto não comentou. O Ministério da Fazenda não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.A inadimplência também está aumentando apesar dos esforços do governo para ajudar os consumidores a reduzir dívidas já existentes. O Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas lançado em maio, já reestruturou mais de R$ 22 bilhões, segundo o Ministério da Fazenda.Leia também: Dívida ‘sufocante’ leva mais 8 milhões de empresas à inadimplência no BrasilOs dados do Banco Central foram divulgados poucos dias depois de o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, alertar para o aumento do endividamento das famílias e recomendar cautela com iniciativas destinadas a estimular ainda mais o crédito e o consumo.“Não dá para comemorar a notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento aumentou”, disse Galípolo durante evento em São Paulo na segunda-feira. “O crédito que uma instituição financeira concede é a dívida que alguém contrai.”Galípolo tem destacado os cartões de crédito como uma fonte específica de preocupação. Programas de inclusão financeira e a rápida expansão do uso de cartões levaram dezenas de milhões de brasileiros ao sistema financeiro, mas muitos consumidores agora carregam saldos no crédito rotativo ou em compras parceladas, modalidades que podem ter juros elevados.Leia também: Mercado de carteiras inadimplentes deve chegar a R$ 40 bi em 2026, diz Recovery, do ItaúEm julho, a taxa média de juros do crédito para pessoas físicas ficou em 60%, enquanto para as empresas foi de 25,4%, segundo dados do Banco Central. A taxa do rotativo do cartão de crédito chegou a 436,2% ao ano.Em sua última reunião de política monetária, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14%, ao mesmo tempo em que destacou riscos de alta para a inflação. Entre eles, os formuladores de política monetária citaram medidas que estimulam a demanda e o consumo.Veja mais em bloomberg.com

















