“Parecia um ciclone”: sobreviventes relatam terror de enchente devastadora no Nepal

Antes que Prem Prasad Subedi pudesse enxergar qualquer coisa, seu teclado começou a tremer.
“Parecia um ciclone se formando”, disse Subedi, agente da alfândega no Nepal. “Como a rajada de vento que se sente quando um helicóptero está pousando.”
Na quarta-feira, o homem de 50 anos chegou por volta das 8h ao escritório onde trabalha, no distrito de Rasuwa, no Nepal, próximo ao mercado de Timure e à fronteira com o Tibete, para o que parecia ser mais um dia comum de trabalho burocrático. Menos de uma hora depois, tudo mudou.
Um enorme bloco de gelo se desprendeu de uma geleira próxima, desencadeando uma torrente violenta pelo vale do Himalaia. Subedi contou que ele e seus colegas correram montanha acima em direção a Khaidi, uma pequena vila na região, enquanto as águas avançavam.
“Num primeiro momento pensamos que fosse um terremoto ou pedras caindo da montanha”, disse. “Ou uma enchente? Estávamos tentando adivinhar.”
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Ele não foi o único. Rajendra Dhungana, chefe da alfândega no posto onde trabalhavam, afirmou que a instalação ficava a cerca de 3 quilômetros da fronteira com o Tibete.
“Quando saímos para fora, vimos a água chegando muito rápido, com um barulho ensurdecedor e contínuo”, relatou.
Enquanto o gigantesco bloco de gelo despencava para o vale e se pulverizava em água, testemunhas como Subedi tiveram a impressão de que a enxurrada vinha do lado chinês da fronteira.
“O vento chegou uns 10 segundos antes. Depois vieram a vibração e o estrondo”, disse. “O ar estava misturado com água, poeira, sujeira e ruído.”
Avaliações baseadas em dados sísmicos e imagens de satélite indicam que a inundação foi provocada pelo colapso de gelo glacial e da rocha abaixo dele, gerando um evento sísmico de magnitude 5,2 que lançou água, gelo, pedras e detritos rio abaixo.
Ao menos 547 pessoas morreram, número que ainda deve aumentar, depois que a enxurrada atingiu vilarejos, destruiu pontes, estradas e comunidades inteiras em um vale nepalês próximo à China. Mais de 1.500 pessoas seguem desaparecidas nos dois países, incluindo visitantes da Índia, Malásia, Austrália, Reino Unido e Estados Unidos.
Dhungana, que trabalhava no posto havia cerca de dois meses, disse que pequenos aumentos no nível do rio já haviam ocorrido anteriormente e que autoridades chinesas costumavam alertar seus colegas nepaleses quando chuvas fortes elevavam o risco de enchentes.
“Naquele dia não houve aviso”, afirmou.
Mais abaixo, no mercado de Timure, próximo à fronteira, ninguém imaginava que a água pudesse atingir a região. Segundo Subedi, havia entre 2.500 e 3.000 pessoas circulando pelo local no momento do desastre.
As autoridades chinesas já haviam emitido alertas em outras ocasiões, quando chuvas intensas a montante ameaçavam elevar o nível dos rios. O aviso mais recente havia sido feito cerca de 15 dias antes, segundo Dhungana. Nenhum dos dois recebeu alerta na quarta-feira.
“Houve congestionamento na estrada durante a noite, mas não choveu”, disse. “Ninguém imaginava que a água pudesse chegar tão alto.”
A velocidade da tragédia fez com que a diferença entre sobreviver e morrer fosse medida em segundos.
Pouco depois de saírem correndo do escritório, eles viram uma parede de água de cerca de um metro e meio avançando rapidamente. A força era tão grande que parecia fazer o chão tremer.
“Quando entendemos o que estava acontecendo, corremos direto para a montanha”, contou Subedi.
Uma estrada próxima ao escritório os levou até uma trilha montanhosa a cerca de 25 metros de distância. Com as rotas de fuga rapidamente bloqueadas, eles começaram a escalar uma encosta.
“Meu coração dizia apenas uma coisa: suba”, disse Dhungana. “Nem sei como conseguimos chegar lá.”
Enquanto fugiam, viram uma onda semelhante a um tsunami avançando logo atrás. Subedi caiu durante a corrida e bateu a cabeça, mas conseguiu se levantar agarrando-se às árvores.
“Quem conseguiu correr naqueles 15 segundos sobreviveu”, afirmou.
Dhungana disse que a água se aproximava perigosamente e que o grupo acreditava que a única chance de sobreviver era alcançar o ponto mais alto possível.
“Subimos durante meia hora sem olhar para trás”, contou.
Durante a fuga, o grupo se dispersou.
“Estávamos subindo e não sabíamos onde estavam nossos colegas”, disse.
“Quando finalmente olhamos para baixo, tudo o que era branco tinha ficado preto. Naquele momento, não conseguíamos pensar com clareza.”
Subedi afirmou que seguiram escalando por cerca de um quilômetro e meio sem parar. Só então tiveram certeza de que a água não os alcançaria.
“Sentíamos o peito pesado”, contou, comparando a sensação à de respirar poeira.
“Estávamos com tanto medo de uma nova onda que continuamos subindo.”
Quanto ao posto da alfândega, quase nada restou.
“Não sobrou nada do nosso escritório”, disse Dhungana. “Era um lugar verde, cheio de vida. Hoje restam apenas duas estruturas em pé. Todo o resto desapareceu.”
Segundo Subedi, cerca de 15 pessoas ligadas ao seu escritório e às equipes de apoio continuam desaparecidas e provavelmente morreram. Com algumas delas, ele havia tomado chá apenas 15 minutos antes do desastre. Com outras, havia jogado badminton ou feito uma caminhada naquela mesma manhã.
“E em menos de uma hora tudo isso aconteceu”, disse.
Subedi falou de Katmandu, para onde ele e Dhungana foram levados após serem resgatados de helicóptero.
A estrada de 40 quilômetros que ligava a região foi completamente destruída, assim como todas as pontes.
“É impossível imaginar a dimensão da perda humana”, afirmou. “Está além da compreensão.”
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