Desinflação mais cedo leva XP a cortar projeção da Selic de 14% para 13,25%

A XP deixou de trabalhar com uma pausa no ciclo de calibração da Selic neste ano e passou a projetar a taxa básica em 13,25% no fim de 2026, ante 14,00% na estimativa anterior. A nova projeção implica uma queda de 0,75 ponto percentual até dezembro, distribuída pelas reuniões restantes do calendário.
A corretora é a primeira entre as principais instituições financeiras a revisar a estimativa após a divulgação do IPCA-15, encarada inicialmente como boa notícia, mas ainda insuficiente para garantir mais quedas de juros.
Em relatório distribuído na noite de quarta-feira (26), a XP explica que o ajuste decorre de sinais de que a desaceleração da atividade e a desinflação chegaram antes do previsto. Segundo o time liderado pelo economista-chefe Caio Megale, as leituras recentes de atividade e inflação vieram abaixo das expectativas da casa, o que enfraquece o argumento para interromper o processo de queda dos juros nas reuniões restantes do ano.
Até então, a XP sustentava que choques globais de oferta e estímulos fiscais domésticos, em um contexto de mercado de trabalho apertado e expectativas de inflação acima da meta, justificariam uma pausa no processo de calibração da Selic. A casa esperava um ambiente inflacionário mais benigno em 2027 e 2028, com a economia perdendo fôlego após as eleições presidenciais, o que permitiria uma retomada mais intensa do ciclo adiante.
Para 2027, a projeção de Selic permanece em 11,50%. A XP avalia que o cenário atualizado apenas antecipa a chegada a esse patamar, sem mudar a leitura sobre o juro básico no médio prazo. “Nosso cenário atualizado apenas prevê uma convergência mais célere ao patamar de 11,50%”, escrevem os economistas em relatório.
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Dados fracos em atividade e crédito
A casa aponta que o estímulo fiscal não tem sido tão efetivo em impulsionar a demanda, em um ambiente de endividamento elevado de consumidores e empresas, custos de produção pressionados e indicadores de confiança em queda. O comprometimento de renda das famílias está em máximas históricas, acima de 28%, segundo dados do Banco Central reproduzidos no relatório.
Dados de alta frequência como produção industrial, receita de serviços e vendas no varejo mostram fraqueza disseminada e vieram abaixo do esperado. O mercado de trabalho segue apertado, mas a XP identifica moderação na criação de empregos e na renda. As concessões de crédito também perderam tração, em meio a juros ainda elevados e ao aumento da inadimplência.
Nesse contexto, a projeção de alta de 0,3% para o PIB do terceiro trimestre, na comparação com o segundo trimestre e com ajuste sazonal, passa a ter viés baixista. O mesmo vale para a estimativa de crescimento de 2,0% em 2026. Para 2027, a XP projeta expansão de 1,0%, no piso das estimativas de mercado e com risco de ser ainda menor.
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Núcleos do IPCA abaixo de 4%
Do lado da inflação, as medidas de núcleo do IPCA estão ligeiramente abaixo de 4,0%, ante cerca de 5,0% alguns meses atrás. A inflação ao produtor também perdeu força.
Na média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada, o IPCA-15 saiu de 7,24% em junho para 4,71% em julho e 2,70% em agosto. No mesmo período, serviços recuaram de 6,33% para 4,37%, industrializados passaram de 4,36% para 2,84% e a média dos núcleos caiu de 4,94% para 3,87%.
Corte em setembro e ritmo maior em 2027
Diante do quadro, a XP passa a esperar novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro. Até 4 de novembro, data prevista para o encontro seguinte, a desaceleração de 2027 estará mais clara e as eleições já terão ficado para trás, o que reduziria o sentido de interromper o ciclo à espera da dissipação dos choques. A avaliação é de que o Comitê seguirá reduzindo os juros de forma gradual nas demais reuniões do ano.
Os economistas ponderam que o modelo do Copom ainda não aponta para a continuidade do afrouxamento monetário neste momento, mas acreditam que isso mudará quando a autoridade monetária incorporar um crescimento mais fraco para o próximo ano. A XP estima que a projeção atual do Comitê para o PIB de 2027 esteja entre 1,6% e 1,7%, número não público que a casa infere a partir da estimativa oficial para o hiato do produto. Com crescimento de 1,0%, a ociosidade seria maior e o IPCA no horizonte relevante da política monetária ficaria próximo da meta.
Em 2027, com a perda de fôlego da economia, a XP espera que o ritmo de cortes acelere para 0,50 ponto percentual a partir da segunda reunião do ano, em março.
Riscos no radar
A casa afirma que os riscos permanecem no cenário. Os preços de alimentos tendem a acelerar em função de um El Niño intenso, o que representa risco altista para as projeções de IPCA em 2026 e 2027. Os combustíveis no mercado doméstico estão abaixo da paridade internacional, sobretudo no caso do diesel, e podem ser realinhados após as eleições. Há ainda a discussão no Congresso Nacional sobre mudança na jornada semanal de trabalho, hoje na escala 6×1, o que elevaria custos trabalhistas adiante.
Para a XP, o Copom considera esses elementos em seu balanço de riscos, mas as decisões recentes sugerem que o Comitê tem, em alguma medida, desconsiderado os choques temporários, com foco em projeções de horizontes mais longos.
A revisão completa das projeções macroeconômicas sob a nova trajetória de política monetária será publicada no relatório Brasil Macro Mensal de 4 de setembro.















