Um robô chinês superou o recorde de Usain Bolt nos 100 metros. Isso é impressionante?

Em 2009, Usain Bolt estabeleceu o recorde mundial dos 100 metros rasos ao completar a prova em 9,58 segundos no Campeonato Mundial de Atletismo, em Berlim. No último sábado, um robô humanoide desenvolvido pela empresa chinesa X-Humanoid superou essa marca por 0,19 segundo, registrando 9,39 segundos, segundo a mídia estatal chinesa.
Após cruzar a linha de chegada, porém, o robô terminou sua corrida de forma menos gloriosa: bateu em alta velocidade contra uma parede acolchoada, caiu no chão e precisou ser retirado por assistentes humanos.
Feitos atléticos de robôs têm se tornado cada vez mais comuns na China, onde a indústria de humanoides cresce rapidamente, impulsionada por forte apoio governamental e bilhões de dólares em investimentos. Máquinas já se apresentaram dançando e executando movimentos de artes marciais em grandes eventos do país.
Nos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, realizados em Pequim no fim de semana, os robôs participaram de lutas de boxe, partidas de futebol e até jogos de tênis. Um deles enfrentou um adversário humano, deslocando-se pela quadra e posicionando-se para devolver as bolas. No início deste ano, outro robô correu uma maratona em um tempo mais rápido do que qualquer ser humano já registrou.
Para especialistas, o desempenho impressionante nas arenas esportivas não necessariamente indica que os robôs estejam próximos de desempenhar tarefas úteis no cotidiano.
“Grande parte dos esportes praticados pelos humanoides não se traduz diretamente em aplicações práticas para as tarefas comuns que as pessoas desejam que eles realizem, como ajudar dentro de casa”, afirmou Michael Milford, diretor do centro de robótica da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália.
Segundo ele, essas máquinas demonstram capacidades notáveis em atividades altamente específicas e cuidadosamente controladas.
A própria imprensa estatal chinesa reconheceu essa diferença.
“Um robô de fábrica não precisa vencer uma corrida de velocidade, nem um robô de serviço precisa ganhar medalhas”, escreveu a agência estatal Xinhua. “Mas cada avanço em velocidade, estabilidade e precisão nas competições aproxima os robôs de aplicações realmente úteis fora delas.”
Mesmo sem aplicações práticas amplamente comprovadas, essas demonstrações já geram resultados financeiros expressivos.
A Unitree Robotics, famosa por vídeos de robôs realizando kung fu, kickboxing e mortais, estreou na Bolsa de Xangai na semana passada. Suas ações encerraram o primeiro pregão com valorização superior a 460%.
Progresso e imperfeição
Alan Fern, professor de robótica da Universidade Estadual do Oregon, destacou a velocidade da evolução tecnológica. Em 2022, uma equipe da qual participou estabeleceu o recorde mundial do Guinness para um robô bípede nos 100 metros, com o tempo de 24,73 segundos.
Passar dessa marca para os 9,39 segundos alcançados pela X-Humanoid em apenas quatro anos representa, segundo ele, uma conquista extraordinária.
Ainda assim, Fern ressalta que as empresas já desenvolveram grande experiência em fazer robôs correrem, saltarem e executarem acrobacias em ambientes controlados. Os avanços recentes refletem principalmente melhorias em hardware e sistemas de controle, e não necessariamente uma revolução tecnológica.
Na avaliação de Fern, o robô que jogou tênis contra um humano durante os jogos em Pequim foi mais impressionante do que o velocista.
Isso porque a atividade envolve lidar com situações imprevisíveis. O robô precisava rastrear uma bola em movimento rápido, decidir para onde se deslocar, coordenar seus movimentos corporais e acertar o tempo da rebatida.
Essa capacidade de adaptação continua sendo um dos maiores desafios da robótica moderna.
Os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides também exibiram os limites da tecnologia.
Vídeos do evento mostram máquinas tropeçando, caindo, provocando pequenos incêndios e colidindo com obstáculos. Um dos corredores chamou a atenção nas redes sociais chinesas por correr com os braços próximos ao rosto, o que lhe rendeu o apelido de “robô tímido”.
Diversos modelos sequer conseguiam desacelerar sozinhos e precisavam parar batendo em barreiras acolchoadas ao final da prova.
Segundo Fern, a ideia de robôs humanoides capazes de executar qualquer tarefa realizada por humanos ainda está distante.
“Fora do entretenimento e de alguns ambientes industriais altamente controlados, esses robôs ainda não possuem a inteligência geral nem a confiabilidade necessárias para operar em ambientes complexos do mundo real”, afirmou.
Milford compara a situação aos carros autônomos. Décadas atrás, veículos experimentais já conseguiam percorrer longas distâncias em rodovias. No entanto, apenas recentemente a tecnologia atingiu níveis de segurança suficientes para operações mais amplas.
Fern faz outra analogia: a Fórmula 1.
“Continuamos admirando os avanços de engenharia da Fórmula 1, e algumas dessas inovações acabam chegando a outras áreas. Mas não interpretamos cada volta mais rápida como uma revolução no transporte”, disse.
“Da mesma forma, superar Usain Bolt não significa que um robô tenha ultrapassado os seres humanos em locomoção de forma geral.”
Bolt não respondeu aos pedidos de comentário feitos pela reportagem.
c.2026 The New York Times Company